Zika seria causa de nova síndrome congênita, apontam especialistas em encontro da OPAS

Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reuniu cientistas do Brasil, da Colômbia e da Argentina e dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) em Recife para investigar efeitos do zika sobre bebês. Definição de síndrome congênita provocada pelo vírus foi atualizada para incluir variações clínicas envolvendo distúrbios do sistema nervoso e osteoarticular e deficiências auditivas, visuais e psicomotoras.

Maior parte dos casos de microcefalia está concentrada no Nordeste do país. Foto: EBC

Maior parte dos casos de microcefalia está concentrada no Nordeste do país. Foto: EBC

O conjunto de anormalidades observadas em fetos que contraíram zika e o possível nexo causal com a infecção pelo vírus sugerem o aparecimento de uma nova síndrome congênita.

Essa foi a conclusão de cientistas do Brasil, da Colômbia e da Argentina que se reuniram ao longo da semana, na região metropolitana de Recife, com especialistas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para investigar os efeitos do zika sobre bebês. O organismo regional aproveitou a ocasião para atualizar sua definição da síndrome congênita causada pelo vírus.

Além de sinais conhecidos anteriormente, como a microcefalia e distúrbios no cérebro, foram identificados outros aspectos que incluem variações clínicas associadas à epilepsia, a deficiências auditivas e visuais e ao desenvolvimento psicomotor. Efeitos sobre o sistema osteoarticular também foram incluídos na definição da síndrome.

Essas condições foram caracterizadas e analisadas em termos de frequência e gravidade nos períodos pré-natal e neonatal (de zero a 28 dias) e ao longo do primeiro ano de vida da criança.

Com a atualização, a OPAS espera contribuir para melhorar o atendimento de saúde oferecido à população afetada. A nova definição da síndrome congênita foi feita com base em evidências coletadas em análises laboratoriais e de neuroimagem, bem como em avaliações do desenvolvimento psíquico e motor das crianças.

O encontro de especialistas foi até a última quinta-feira (21) e incluiu visitas a instituições de saúde recifenses que atendem crianças com microcefalia e outras condições neurológicas associadas à infecção pelo vírus zika. Também participaram pesquisadores dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

“A Organização Mundial da Saúde pôs em prática um processo para definir o espectro da síndrome. O processo foca em mapeamento e análise das manifestações clínicas englobando os distúrbios neurológicos, auditivos, visuais e outros, além de descobertas relacionadas a neuroimagem”, informaram os cientistas.

Durante sua passagem por Pernambuco, os clínicos foram informados sobre o atual estado da epidemia de zika pelo gerente de Incidentes da OPAS, Sylvain Aldighieri.

“Nosso objetivo é dar assistência aos países, fortalecendo a vigilância do zika e da síndrome congênita, além de aperfeiçoar a preparação para lidar com a síndrome de Guillain-Barré nos serviços de saúde. A relação espacial e temporal entre o zika e a síndrome de Guillain-Barré é evidente em muitos países”, destacou o especialista do organismo regional.

As informações sobre as complicações associadas à infecção pelo vírus zika ainda são limitadas — o que aponta para a necessidade de os cientistas compartilharem dados sobre diagnóstico, descrição, consequências, processos físicos e análise de evidências já descobertas até o momento.

“Tivemos a oportunidade de ir ao IMIP (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira), em Pernambuco, e ver o trabalho excelente, incrível, que eles estão fazendo no acompanhamento e cuidado de crianças com microcefalia. É importante levar esse trabalho a outras partes do Brasil e do mundo”, disse o diretor de Família, Gênero e Curso de Vida, Andres de Francisco.

“Também devemos lembrar que o zika não é a única causa de microcefalia e a microcefalia não é o único possível sinal de zika”, acrescentou.

“Depois de quase um ano de trabalho muito intenso de vários grupos de pesquisadores, hoje existe certo consenso em associar zika não apenas com microcefalia, mas com outros aspectos da síndrome congênita. A OPAS quer facilitar esse processo de buscas, de pesquisas e geração de conhecimento”, disse o representante adjunto da OPAS no Brasil, Luis Codina.

O encontro desta semana foi organizado pela Unidade Técnica de Família, Gênero e Curso de Vida da representação do organismo regional no Brasil.