Vista o mundo em madeira, diz a ONU em sua iniciativa ‘Florestas pela moda’

Agências da ONU apoiaram a exposição “Florestas para a Moda”. Foto: UN News/Fatima E. Mendez

A indústria da moda é avaliada em 2,5 trilhões de dólares e emprega cerca de 75 milhões de pessoas em todo o mundo. Por isso, nada mais lógico do que reverter a produção têxtil de fibras sintéticas, baseadas em combustíveis fósseis, para a fabricação de têxteis renováveis e biodegradáveis feitos de madeira, de acordo com uma nova iniciativa da ONU que visa tornar as florestas parte do setor.

A Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estabeleceram um elo entre materiais baseados em insumos florestais sustentáveis e o mundo da moda em sua mais nova iniciativa “Florestas para a Moda”.

“A sustentabilidade de uma sociedade é uma responsabilidade individual e coletiva”, declarou a embaixadora da Boa Vontade do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Michelle Yeoh.

“A indústria da moda é responsável pela produção de 20% de todo o desperdício global de água e 10% das emissões de carbono – mais que as emissões de todos os voos internacionais e viagens marítimas combinadas”, declarou a atriz estrela do filme ‘O Tigre e o Dragão’.

Além disso, indústrias têxteis têm sido destacadas recentemente como grandes poluidoras. Estimativas apontam que cerca de meia tonelada de microfibras de plástico produzidas acabem no mar todos os anos, incluindo pedaços de poliéster, náilon e acrílico – materiais não biodegradáveis.

“A moda é sinônimo frequente para condições de trabalho perigosas, processos sem segurança e substâncias prejudiciais utilizadas durante a produção”, continuou Yeoh, citando os abusos cruéis referentes à escravidão moderna e trabalho infantil.

Embora a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) sejam modelos ambiciosos para governos, Yeoh destacou que todos devem realizar uma escolha consciente pela mudança de hábitos.

“Hoje contamos com cerca de 3,2 bilhões de pessoas na classe média global”, disse ela. “Até 2030, esse número aumentará para cerca de 5,4 bilhões, com a maior parte do crescimento ocorrendo na Ásia. Os 2,2 bilhões de pessoas que entrarão na classe média global aspirarão um estilo de vida semelhante ao que conhecemos hoje – o que inclui um padrão de consumo semelhante em relação ao vestuário.”

Roupas criadas a partir de fibras feitas à base de madeira, em uma exposição apoiada pelos organismos da ONU. Foto: UN News/Matt Wells

Uma revolução na moda

Michelle Yeoh considera a indústria da moda “um grande desafio ao desenvolvimento”, e vê a produção de roupas como “um elemento essencial na transição para sociedades sustentáveis”.

Embora reconheça a necessidade de envolvimento dos governos em um novo direcionamento para a produção têxtil, Yeoh colocou o principal ônus sobre a população para iniciar a “revolução” da moda.

“Muitos de nós pensaríamos que as florestas estariam melhores se deixadas intactas, mas muitas vezes adicionar valor aos seus produtos é a melhor forma de protegê-las. Em muitos casos, os esforços de restauração podem ser associados a florestas produtivas.”

Além disso, florestas podem criar ecossistemas produtivos, e auxiliar comunidades locais e rurais. De acordo com a embaixadora da Boa Vontade, “fibras florestais já são uma realidade e produções têxteis estão crescendo ou comprando grandes extensões em florestas”.

“As novas fibras são altamente sustentáveis, suas pegadas de carbono são baixas e existem diferentes espécies de rápido crescimento adequadas para diferentes lugares e climas”, indicou Yeoh.

“Transformar os padrões de produção e de consumo na indústria da moda terá um efeito dominó em muitos aspectos pertinentes ao desenvolvimento, e garantirá uma contribuição visível e significativa para a conquista dos objetivos da Agenda 2030”, completou.