Violência no Sudão do Sul pode provocar genocídio e ‘limpeza étnica,’ alertam especialistas

‘Limpeza étnica’ já está em curso no Sudão do Sul e grupos armados utilizam fome, estupros coletivos e pilhagem de vilarejos como estratégias para atingir determinados grupos, alertaram especialistas em direitos humanos da ONU que visitaram o país por dez dias. Abusos sexuais na nação africana atingiram níveis inaceitáveis, disse a comitiva de relatores.

Uma criança carrega sua irmã mais nova em Aweil, no Sudão do Sul. No país, mais de 130 mil crianças foram tratadas para má nutrição aguda em 2016. Foto: UNICEF / Rich

Uma criança carrega sua irmã mais nova em Aweil, no Sudão do Sul. No país, mais de 130 mil crianças foram tratadas para má nutrição aguda em 2016. Foto: UNICEF / Rich

Ao final de uma visita de dez dias ao Sudão do Sul, especialistas em direitos humanos das Nações Unidas alertaram na semana passada (1) que o país apresenta sinais de um genocídio iminente. A violência tem afetado grupos específicos e pode provocar uma “limpeza étnica” na nação africana.

“O palco está sendo montado para uma repetição do que aconteceu em Ruanda, e a comunidade internacional tem a obrigação de impedir isso”, alertou a presidente da Comissão da ONU sobre Direitos Humanos no país, Yasmin Sooka.

Segundo a relatora, “já há um processo consistente de limpeza étnica em curso em diversas áreas do Sudão do Sul que utiliza fome, estupros coletivos e pilhagem de vilarejos (como ferramentas)”. “Em todos os lugares que percorremos país afora, ouvimos aldeões dizerem que estão prontos para derramar sangue para reconquistar suas terras”, acrescentou, dizendo que muitos entrevistados afirmaram que a situação chegou a “um ponto irreversível”.

A especialista completou que “muitos dos sinais que anunciam um genocídio iminente já estão presentes — um conflito existente, a mobilização de identidades étnicas polarizadas, a desumanização, um cultura de negação, deslocamento baseado na etnia e, em alguns lugares, indícios de violações e planejamento sistemáticos —, mas o importante é que ainda há tempo para preveni-lo”.

Estupros coletivos se tornaram ‘normais’

Yasmin lembrou ainda que “a escala de estupros de mulheres e meninas perpetrados por todos os grupos armados no Sudão do Sul é absolutamente inaceitável”. Profissionais de assistência relataram aos especialistas que estupros coletivos são tão generalizados que se tornaram “normais”.

A comissão de relatores da ONU conheceu em Juba, capital sul-sudanesa, mulheres deslocadas que foram vítimas desse tipo de violência sexual em julho. Quatro meses após os episódios de agressão, elas ainda não haviam recebido o tratamento médico adequado para as complicações de saúde associadas aos abusos.

Em um campo de deslocados protegido pela ONU em Bentiu, os comissários conheceram uma mulher que disse ter sido violentada por mais de um agressor ao mesmo tempo apenas três dias antes da visita dos especialistas, quando sua aldeia foi atacada.

Relatos recebidos pela comissão indicaram ainda que três mulheres do acampamento foram estupradas no mesmo dia por soldados, enquanto iam buscar lenha do lado de fora do perímetro do campo.

Os estados de Equatória, antes uma região pouco afetada pela guerra civil que já dura quase três anos, tornoaram-se agora o epicentro do conflito, segundo os especialistas. Deslocamentos forçados são motivados por motivos étnicos e fugas para outros países acontecem diariamente.

Especialistas pedem embargo de armas

A comissão acredita que os confrontos armados devem se intensificar durante a estação seca, que vai até o final de fevereiro. Para evitar “uma matança em massa”, os especialistas recomendam à comunidade internacional acelerar o envio ao país de uma força de proteção regional composta por 4 mil homens; a implementação de um embargo de armas; o congelamento da liberação de recursos; e a garantia de que os efetivos militares mandados à nação africana não fiquem concentrados apenas em Juba.

Os especialistas também destacaram ser urgente o estabelecimento de uma corte híbrida, já prometida pelo governo do Sudão do Sul. “Partes extensas do país não possuem literalmente quaisquer tribunais funcionando e mesmo os métodos tradicionais de reconciliação estão falhando”, lamentou o integrante da comissão, Ken Scott.