Violência contra as mulheres é ‘pandemia global’, diz chefe da ONU

Em evento na sede da ONU, em Nova Iorque, o secretário-geral António Guterres afirmou na segunda-feira (19) que o mundo só vai se orgulhar de ser “justo e igualitário” quando as mulheres puderem viver livres do medo e da insegurança cotidiana.

Encontro marcou o lançamento da campanha #HearMeToo ou #MeEscuteTambém, que pede apoio às vítimas de violência de gênero, a fim de garantir que suas vozes e histórias sejam ouvidas, em vez de desacreditadas.

Secretário-geral da ONU, António Guterres, ressaltou que violência de gênero é pandemia global. Foto: ONU/Loey Felipe

Secretário-geral da ONU, António Guterres, ressaltou que violência de gênero é pandemia global. Foto: ONU/Loey Felipe

Em evento na sede da ONU, em Nova Iorque, o secretário-geral António Guterres afirmou na segunda-feira (19) que o mundo só vai se orgulhar de ser “justo e igualitário” quando as mulheres puderem viver livres do medo e da insegurança cotidiana. Chefe da Organização condenou a violência de gênero, descrita pelo dirigente como “uma pandemia global”.

“É uma afronta moral a todas as mulheres e meninas, e a todos nós, uma marca vergonhosa em todas as nossas sociedades”, criticou Guterres em encontro de ativistas e especialistas para marcar o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher. A data é lembrada em 25 de novembro.

“No seu âmago, a violência contra as mulheres e meninas, em todas as suas formas, é a manifestação de uma profunda falta de respeito, o fracasso dos homens em reconhecer a igualdade e a dignidade inerentes às mulheres. É um problema de direitos humanos fundamentais”, completou o secretário-geral.

A autoridade máxima das Nações Unidas lembrou que violações motivadas por questões de gênero podem assumir diferentes faces: violência doméstica, tráfico de pessoas, violência sexual em situações de conflito, casamento infantil, mutilação genital e feminicídio.

“Essa também é uma questão profundamente política. A violência contra as mulheres está ligada a questões mais amplas de poder e controle nas nossas sociedades. Vivemos num mundo dominado pelos homens. As mulheres se tornam vulneráveis à violência por meio das múltiplas maneiras pelas quais nós as mantemos em (condições de) desigualdade”, ressaltou Guterres.

O chefe da ONU acrescentou que “quando as instituições deixam de acreditar nas vítimas, permitem a impunidade ou deixam de implementar políticas de proteção, elas enviam uma mensagem bem forte de que toleram e permitem a violência”.

Também presente no encontro em Nova Iorque, a presidenta da Assembleia Geral das Nações Unidas, Maria Fernanda Espinosa, alertou que 35% das mulheres em todo o mundo já sofreram algum tipo de violência física ou sexual. Em 38% dos homicídios de mulheres, o assassino é um parceiro íntimo da vítima.

“É um triste reflexo em todas as comunidades, países e nas Nações Unidas de que o mundo ainda está longe de alcançar a meta de acabar com a violência contra mulheres e meninas”, lamentou a dirigente.

ONU lança campanha #MeEscuteTambém em apoio às vítimas de violência

O encontro na ONU marcou o lançamento da campanha anual 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. As ações de conscientização têm início normalmente no 25 de novembro e seguem até 10 de dezembro, Dia dos Direitos Humanos. Em 2018, a iniciativa tem como tema o apelo #HearMeToo ou #MeEscuteTambém, na tradução em português. A proposta das Nações Unidas é expressar apoio às milhares de vítimas de assédio sexual e outros tipos de abuso, muitas das quais vieram a público ao longo do ano passado para denunciar agressões.

Também presente no evento, a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, enfatizou que “mulheres e meninas em muitas partes do mundo têm suas vozes amordaçadas”.

“É por isso que o nosso tema para esse ano é #MeEscuteTambém. Porque trata das mulheres e meninas que ainda precisamos ouvir e (às quais precisamos) responder. Estamos juntos, hoje, ressaltando novamente a importância de acabar com a cultura do silêncio”, completou a dirigente.

Na avaliação de Mlambo-Ngcuka, é necessário garantir que a violência baseada em gênero “seja inaceitável para todos nós”, quer ela afete mulheres ou homens.

“Na linha de frente da luta contra esses abusos, estão ativistas e sobreviventes que, no último ano, desde a base até muitos outros níveis, assumiram o protagonismo. Essas ativistas e sobreviventes estão se mobilizando, assim como os movimentos globais, desde o #MeToo até o #NiUnaMenos, o #hollaback e o #TotalShutdown, além de muitos indivíduos trabalhando em muitas partes do mundo, de quem ainda não sabemos”, afirmou a chefe da ONU Mulheres.

“Isso está transfornamdo décadas de uma luta difícil para acabar com a impunidade em uma sororidade global concreta, que está se fortalecendo e dizendo para os agressores ‘o tempo acabou’.”

Mlambo-Ngcuka lembrou ainda que mesmo pessoas em posição de poder estão sendo submetidas à lei em casos de violência contra as mulheres.

Chefe da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, pediu mais apoio às vítimas de violência de gênero e cobrou o fim da impunidade dos crimes contra as mulheres. Foto: ONU/Loey Felipe

Chefe da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, pediu mais apoio às vítimas de violência de gênero e cobrou o fim da impunidade dos crimes contra as mulheres. Foto: ONU/Loey Felipe

“O mais importante é (também) construir parcerias e mudar a cultura na nossa sociedade, que torna essas violações possíveis e toleradas”, afirmou a dirigente.

De acordo com a liderança da ONU Mulheres, a violência de gênero exige uma resposta abrangente, que permite chegar à verdade dos fatos e que assegure responsabilização para os autores dos crimes. “Todos nós somos parte (do esforço) de garantir que acabemos com a cultura que normaliza o abuso de mulheres e meninas”, completou Mlambo-Ngcuka.

A ONU Mulheres está na linha de frente do combate a agressões motivadas por questões de gênero. Por meio do Fundo Fiduciário pelo Fim da Violência contra as Mulheres, a agência levou assistência a mais de 6 milhões de pessoas no ano passado.

O organismo também implementa o projeto Spotlight, um programa em parceria com a União Europeia que já angariou 500 milhões de euros para erradicar a violência contra as mulheres. Em nível nacional e local, a instituição promove boas práticas para garantir cidades e espaços públicos seguros.

A ONU Mulheres atua ainda dentro das Nações Unidas para enfrentar o abuso sexual e de poder dentro da Organização.