Vilarejo na França transforma castelo em centro de acolhimento para refugiados

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Em novembro de 2015, o vilarejo de Pessat-Villeneuve, que tinha uma população de apenas 550 pessoas, decidiu abrir as portas de um antigo castelo sob responsabilidade da câmara municipal. Os ‘hóspedes’ são refugiados que estavam vivendo em Paris e em Calais. Desde então, o palácio se transformou no lar de 136 vítimas de deslocamento forçado que haviam deixado suas nações de origem para buscar segurança na Europa. Saiba o que aconteceu com os antigos e novos moradores da cidade.

Castelo foi transformado em centro de recepção para refugiados. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Castelo foi transformado em centro de recepção para refugiados. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Pessat-Villeneuve é um típico vilarejo da região de Puy de Dôme, no centro da França. Na cidade, há casas com belos jardins, uma elegante igreja construída no estilo romântico, uma bandeira francesa pendurada na prefeitura, um parque e um castelo que era usado para colônias de férias, mas que agora pertence à câmara municipal.

Em novembro de 2015, Pessat-Villeneuve, que tem uma população de 550 pessoas, decidiu abrir as portas de seu palácio receber refugiados vivendo em Paris e Calais. Desde então, o castelo se transformou no lar de 136 vítimas de deslocamento forçado que haviam deixado suas nações de origem para buscar segurança na Europa.

Esta é a história do vilarejo e do que aconteceu com seus residentes — franceses e de outras nacionalidades — no último ano.

O prefeito

Prefeito Gerard Dubois defendeu abertura de centro de acolhimento. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Prefeito Gerard Dubois defendeu abertura de centro de acolhimento. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

O prefeito Gerard Dubois aguardava na varanda da câmara municipal para a entrevista com jornalistas da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Era o dia em que ele costumava se afastar de seu trabalho no serviço postal francês para se dedicar exclusivamente aos assuntos do vilarejo.

Dubois acredita no poder da solidariedade e do apoio mútuo. Ainda que para ele tenha sido uma decisão fácil receber o centro de refugiados em Pessat-Villeneuve, o gestor teve de convencer os residentes de que essa era a escolha certa a se fazer. Não foi fácil. Em uma audiência pública, organizada em novembro de 2015, ele se sentiu como um “touro na arena”, lembra. Nas semanas seguintes, recebeu até ameaças de morte.

A solidariedade, porém, foi mais forte. “O ódio é barulhento”, explica Gerard. “A solidariedade é silenciosa, inspiradora e eficaz.”

“É difícil aceitar que as pessoas que você conhece não compartilham dos seus valores. Porém, eu vi muita solidariedade. Eu teria pedido demissão se tivessem decidido que não abririam o centro”, avalia. Gerard acredita que havia um medo inicial pelo fato de os moradores não conhecerem os recém-chegados. Qualquer possível apreensão, ele conta, desapareceu logo que todos se conheceram.

“O encontro fez toda a diferença, simples assim. Não os chamo de refugiados, mas sim de hóspedes”, completa.

A assistente social

Angelique Libeyre ajuda solicitantes de refúgio a encaminhar seus pedidos de asilo junto às autoridades francesas. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Angelique Libeyre ajuda solicitantes de refúgio a encaminhar seus pedidos de asilo junto às autoridades francesas. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Angelique Libeyre trabalha como assistente social no “Forum réfugiés-Cosi”, a organização não governamental responsável por cuidar do centro de acolhimento em Pessat-Villeneuve. Ela fornece informações jurídicas aos solicitantes de refúgio e explica como conseguir o asilo na França, guiando os estrangeiros durante todo o processo.

“É um momento importante para as pessoas que estão sendo recebidas no centro”, ela explica. “É uma oportunidade de descansar e, com acesso à informação correta, de pensar sobre suas rotas de migração.”

Seu escritório no castelo nunca está vazio. Recentemente, ela recebeu a notícia de que 20 pessoas receberam o status de refugiado. “Agora, temos que pensar quais serão os próximos passos depois que eles deixarem o centro de acolhimento e de orientação.”

Angelique gosta de seu trabalho, mas reconhece que a rotina pode ser desafiadora, sobretudo porque eles não têm meios para atender todas as demandas. “Por exemplo, não temos sempre um intérprete para acompanhar os refugiados quando precisam ir ao médico”, explica.

A aposentada

'Quando você vê como eles estão motivados e têm vontade de aprender, sentimos um impulso de energia', conta a professora aposentada Brigitte Dubosclard. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

‘Quando você vê como eles estão motivados e têm vontade de aprender, sentimos um impulso de energia’, conta a professora aposentada Brigitte Dubosclard. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Brigitte Dubosclard é voluntária no palácio de Pessat-Villeneuve. Professora aposentada, ela decidiu dar aulas de francês aos refugiados. Na audiência pública organizada pelo prefeito, Brigitte foi a primeira a se dispor para ajudar.

Quando eu percebi que havia um sentimento geral de medo,
eu imediatamente disse que estávamos aqui para ajudar
e que a França é um país que sempre acolheu refugiados durante muitos anos.

“Quando eu percebi que havia um sentimento geral de medo, eu imediatamente disse que estávamos aqui para ajudar e que a França é um país que sempre acolheu refugiados durante muitos anos”, explica. “Só fiz uma pergunta: do que eles precisam?”

Brigitte abriu uma loja de roupas com a ajuda das organizações sem fins lucrativos Secours Populaire Français e Secours Catholique, e recebeu ajuda da comunidade e de lojas locais.

“Como eu era professora, decidi dar aulas de francês. Quando você vê o quanto estão motivados e têm vontade de aprender, sentimos um impulso de energia. Eu lembro que as crianças costumavam bocejar entediadas durante minhas aulas, mas estas pessoas têm muito respeito e vontade de se integrar”, comenta, entusiasmada.

A docente acredita que é essencial continuar ajudando e fazer com que a discussão sobre o acolhimento de refugiados não acabe. “Quanto mais você fala e explica, mais pessoas você alcança”, conclui.

A professora

Sandrine Menuge levou refugiados até a escola que dirige para explicar aos alunos o que significa ser vítima de deslocamento forçado. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Sandrine Menuge levou refugiados até a escola que dirige para explicar aos alunos o que significa ser vítima de deslocamento forçado. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Sandrine Menuge dirige a escola primária de Pessat-Villeneuve desde 2000 e enxergou a chegada dos refugiados como uma oportunidade de abordar a diversidade em sala de aula. Ela pediu que, em cem dias, os alunos achassem 100 rostos de crianças de diferentes partes do mundo.

“Procuramos fotos para ver de onde eram, entender suas aparências e como viviam”, diz Sandrine. “Eles (os alunos) não conseguiam imaginar que essas crianças não tinham televisão e nem carro.”

Certa tarde, ela convidou dois refugiados para visitar a escola — Mary, que vem de Eritreia, e Ali, do Sudão. As crianças da comunidade fizeram perguntas sobre suas jornadas. “Vimos no mapa todos os países que eles tiveram que atravessar para chegar na França. Todos os acharam muito corajosos.”

Os meninos e meninas também entenderam que os refugiados foram forçados a fugir de casa. “Eles perceberam que, em alguns países, as crianças têm medo de que bombas lhes atinjam. Foi incrível poder partilhar aquele momento.”

Através dos estudantes, Sandrine também estava se aproximando dos seus pais.

“Alguns estavam preocupados, mas eu também recebi mensagens de apoio de pais que estavam felizes. pois seus filhos estavam descobrindo e entendendo novas coisas. Eu espero que isso tenha introduzido mais diversidade e receptividade em sua forma de perceber o mundo. É importante plantar pequenas sementes. As emoções nessa idade são muito importantes”, afirma.

O atleta

Naseer sonha em fundar o primeiro time nacional de críquete da França. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Naseer sonha em fundar o primeiro time nacional de críquete da França. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Naseer, que tem 25 anos, fugiu do Afeganistão para a Europa atravessando oceanos e cruzando estradas por diversos países. Ele estava relutante em contar sua história, preferindo falar sobre aspectos de sua vida no vilarejo e discutir seus sonhos para o futuro. Os planos do jovem podem ser resumidos em uma palavra: críquete.

“Pessat é legal”, diz. “Em Calais, havia brigas todos os dias. Aqui estamos em casas e não em tendas”, conta.

Naseer corre 15 quilômetros sempre que pode pela manhã e participa de competições. No começo de março, participou de uma corrida de 13 quilômetros e terminou em 115° lugar de um total de 500 competidores. Mas o críquete é sua grande paixão.

“As pessoas aqui não conhecem o críquete, elas gostam de futebol”, explica. O objetivo de refugiado é montar um time nacional francês de críquete. “Críquete é um esporte maravilhoso. O futebol é muito perigoso, tem que correr muito.”

Naseer diz que espera voltar ao Afeganistão um dia, quando o país estiver em paz. “Tem bomba todos os dias. Me sinto mal pelo Afeganistão.”

O estudante

Amir sonha em retomar os estudos de enfermagem. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Amir sonha em retomar os estudos de enfermagem. Foto: ACNUR/Benjamin Loyseau

Amir, de 27 anos, também fugiu do Afeganistão, indo parar em Calais, assim como Naseer. Ele queria chegar até o Reino Unido, onde há uma comunidade afegã, mas decidiu ficar na França.

No Afeganistão, onde Amir estudava para tornar-se enfermeiro, a guerra tornou a vida impossível. “Por que as pessoas viriam para a Europa e caminhariam durante meses – mães, crianças – se não para fugir da guerra?”, afirma.

Ele viajou a pé, de trem e de barco até chegar a um local seguro. “Me sinto melhor agora. Tenho alojamento, tenho amigos, há pessoas boas. É importante que todos entendam por que estamos aqui. Somos refugiados. Não quero ter benefícios do governo. Quero começar minha vida por conta própria”, explica.

Amir espera recomeçar os estudos e fazer sua vida na França. “Quero viver todos os dias”, conclui.


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