Venezuelanas e brasileiras grafitam muro em Roraima pelo fim da violência de gênero

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Unindo-se à campanha mundial das Nações Unidas 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, venezuelanas e brasileiras grafitaram esta semana (5 e 6) imagens e mensagens de empoderamento em um muro próximo ao abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista (Roraima), onde vivem cerca de 500 venezuelanos que vieram ao Brasil em busca de proteção.

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Unindo-se à campanha mundial das Nações Unidas 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, venezuelanas e brasileiras grafitaram esta semana (5 e 6) imagens e mensagens de empoderamento em um muro próximo ao abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista (Roraima), onde vivem cerca de 500 venezuelanos que vieram ao Brasil em busca de proteção.

Antes de iniciar a grafitagem, moradoras do abrigo se juntaram à vizinhança do bairro do Caimbé para discutir direitos femininos e questões relacionadas à violência contra a mulher.

A ação faz parte de uma iniciativa conjunta no estado promovida por Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e Organização Internacional para as Migrações (OIM). A pintura do muro teve o apoio da Secretaria de Estado do Trabalho e Bem-Estar Social de Roraima (SETRABES).

Quem passar em frente ao Estádio Ribeirão, entre os bairros Caimbé e Tancredo Neves, não deixará de notar a mudança: onde antes havia um muro cinza e sem vida agora existe um colorido e vibrante mural.

O tema escolhido para a obra foi “A violência contra a mulher não tem fronteira”. O projeto surgiu após um dia de conversas e troca de experiências. Orientadas pelas artistas Deborah Erê, Laís Marta e Nadja Kristina, as mulheres se revezaram na escada para grafitar no mural, cedido Desporto de Roraima/Núcleo de Desporto Comunitário Roraima.

Para Deborah Erê, de 24 anos, é essencial que profissionais que lidam com arte urbana trabalhem o tema da violência contra a mulher. “Esse é um mal que é muito comum entre nós. Quase todas as mulheres que eu conheço já sofreram algum tipo de violência, algum tipo de abuso. Isso não pode ser tratado como uma coisa normal. Ficamos caladas e silenciadas por muito tempo. Precisamos falar sobre isso para combater esse mal”, disse.

“Percebi que a violência que elas sofreram e sofrem lá na Venezuela são coisas que acontecem com a gente aqui no Brasil. Saber que não estamos sozinhas nos fortalece. Juntas somos mais fortes. Somando forças e experiências nos fortalecemos mutuamente. Temos que fazer esse exercício de ajudar uma a outra, nos apoiar. As mulheres têm que se unir pelo fim da violência”, acrescentou.

A venezuelana Valeris, de 20 anos, nasceu no estado de Anzoategui e chegou ao Brasil há um mês com o filho e marido. Filha mais velha de uma extensa família, deixou para trás a mãe e seis irmãos.

Valeri participou das rodas de conversas e, assim como Erê, percebeu que a violência contra as mulheres não tem fronteiras. “Foi uma experiência única! Pude ver que não acontece só na Venezuela, mas em várias partes do mundo”, disse. Da experiência dos últimos dois dias, disse levar consigo algumas lições: “creio que apesar do que acontece com nós mulheres, sempre conseguimos seguir em frente, somos uma fortaleza, vamos superando”.

A jovem Rilianys, de 20 anos, também saiu mais confiante. “Nos ouviram e ajudaram a aliviar um pouco dos pensamentos que nos atormentam todos os dias quando ficamos sozinhas. Me senti abraçada. Foi mágico, me senti livre. Aprendi principalmente que devemos nos valorizar como mulher, que todas nós temos o direito de participar e ser respeitada. Nunca tinha ouvido isso. Sempre levarei no meu coração como a melhor experiência da minha vida”.

Para a oficial de campo do ACNUR em Boa Vista, Tania Dias, a iniciativa visa sensibilizar o público para a violência de gênero além das fronteiras. “As mulheres que atravessam as fronteiras da cidade, do estado ou do país ainda enfrentam violência de gênero, independentemente do seu local de origem. Portanto, é fundamental que as comunidades de acolhimento se empenhem em promover os direitos das mulheres e garantam que ninguém seja deixado para trás”, disse.

Segundo a oficial de programa de gênero, raça e etnia do UNFPA, Ana Claudia Pereira, a atual situação em Roraima, em especial das mulheres venezuelanas, merece atenção e cuidado.

“O Fundo de População das Nações Unidas trabalha para acabar com a violência de gênero e todas as práticas nocivas contra mulheres e meninas. Também buscamos encontrar soluções e desenvolver padrões de políticas públicas capazes de mudar a situação da violência baseada em gênero. Em Roraima, a situação é bastante delicada e exige não apenas nossa ação, mas o envolvimento de toda a sociedade.”

A grafitagem do muro integra a programação do IV Grafita Roraima, evento realizado pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), em parceria com os coletivos de arte urbana locais, que busca integrar arte e comunidade por meio do grafite.

Atendimento e empoderamento

UNFPA, ACNUR, OIM e outras agências da ONU têm trabalhado junto ao governo brasileiro para ampliar a resposta e capacidade de recepção a milhares de pessoas que cruzam a fronteira entre Brasil e Venezuela. A sociedade civil também está ativamente engajada em iniciativas para apoiar a população deslocada.

Além do trabalho com as mulheres venezuelanas e a pintura do muro, a iniciativa das três agências incluiu nesta semana o treinamento sobre o enfrentamento à violência de gênero para as equipes técnicas e voluntários que atuam nos abrigos em Boa Vista.

O objetivo foi fortalecer as capacidades das equipes dos abrigos e de serviços de segurança pública e de assistência social para atuar em rede na prevenção e abordagem da violência de gênero e para promoção da saúde sexual e reprodutiva.

A violência de gênero é frequentemente motivo de deslocamento forçado. Refugiados e deslocados internos correm também altos riscos de sofrer algum tipo de violência ao longo de suas jornadas.

Em 2017, muitas operações do ACNUR intensificaram seus trabalhos para prevenir e responder à violência, em especial a violência sexual e de gênero. A ação é realizada em conjunto com o UNFPA, agência responsável por coordenar as ações da ONU para promoção da saúde sexual e reprodutiva e intervenções na área de violência baseada em gênero em situações que demandam atenção especial a potenciais violações dos direitos humanos.

O Brasil testemunhou um aumento acentuado no número de pedidos de refúgio apresentados por venezuelanos ao longo dos últimos três anos. Apenas este ano, estima-se que cerca de 20 mil venezuelanos já tenham solicitado refúgio no Brasil.

Entre esses, aproximadamente 14 mil registraram sua solicitação em Roraima. Por conta da proximidade com a Venezuela, Boa Vista está entre as cidades brasileiras que tem recebido o maior fluxo de migrantes e refugiados do país que chegam em busca de segurança e novas oportunidades.


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