Venezuelana migra para Boa Vista em busca de condições seguras para ter bebê

Yenni e sua bebê recém-nascida no Brasil vivem no abrigo Rondon 3, em Boa Vista (RR). Foto: ACNUR/Victor Moriyama

Depois de vir para Boa Vista (RR), em busca de uma vida melhor para a família na Venezuela, Yenni regressou ao seu país de origem quando descobriu que estava grávida. Mas ela logo viu que o bebê podia não sobreviver ao parto em sua terra natal, devido à escassez de medicamentos. A decisão foi retornar ao Brasil. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Era meados de dezembro e fazia um calor abafado em Boa Vista, com um céu azul de se admirar. Yenni se abrigou na sombra de uma tenda com sua bebê Branyelis, de sete dias, no colo. Como muitos venezuelanos que deixaram seu país, Yenni o fez por falta de opção. Ser forçado a deixar sua casa é, na maioria das vezes, uma experiência violenta e traumática.

“Na Venezuela, a situação piorava a cada dia e o que ganhávamos era apenas para comer. O que uma pessoa ganhava em um mês dava para uma refeição de um dia e tínhamos que sair e procurar mais e mais e nunca tínhamos o suficiente.”

Essa era a terceira vez que Yenni vinha para Boa Vista. Da primeira, veio para trabalhar e juntar dinheiro para poder comprar comida e levar para sua família na Venezuela. Ela é cozinheira e, nos fins de semana, fazia decoração e doces para festas. A venezuelana deixou os filhos Brian, de 19 anos, e Claribel, de 15, com sua mãe e veio para o Brasil com a irmã. O trajeto cansativo foi feito de ônibus, carona e a pé.

Mais de 3 milhões de venezuelanos deixaram seu país desde 2014, por conta de insegurança, escassez de comida, ausência de serviços de saúde e medicamentos e até mesmo a perda de suas casas. A maioria desses refugiados e migrantes é de famílias com crianças, mulheres grávidas e idosos.

Depois de tirar férias para retornar à Venezuela e levar ajuda para a família, Yenni voltou ao Brasil sem saber que estava grávida. Aguentou o trabalho e o calor por cinco meses, mas depois de passar mal constantemente, com enjoos e dores, decidiu voltar para sua terra natal. Mas ao longo dos dois meses seguintes, a situação se tornou insustentável.

Yenni com sua filha Branyelis, de sete dias, e seu filho Moises, de três anos, em Boa Vista, Roraima. Foto: ACNUR/Victor Moriyama

“Todo dia a coisa fica pior, nós não conseguíamos nem pagar uma passagem. Quando eu ganhava em uma semana, trabalhando de segunda a domingo, por exemplo, 1.000 bolívares, um arroz custava 1.800″, lembra.

Além da inflação alta e da falta de alimentos, não há mais medicamentos e o acesso aos serviços de saúde é precário.

“Para o parto, estavam me pedindo uma lista de medicamentos e itens médicos que eu não conseguia comprar. Eu vim porque vi vários casos de vizinhas que davam à luz e, por não terem os remédios e itens exigidos, suas crianças morriam.”

Yenni voltou, mas não conseguiu emprego e não tinha mais dinheiro. Teve que morar na rua com seu companheiro e seu filho Moises, de três anos, por duas semanas. Até que conseguiu uma vaga em um abrigo apoiado pelo ACNUR. Hoje, ela, o companheiro, Moises e a bebê dividem uma unidade habitacional com outra família.

“Eu prefiro estar aqui, onde eu tenho um teto e um colchão. Qualquer coisa é melhor do que ter que dormir na rua, onde passam os carros, onde tantos problemas acontecem. Eu vivi tantas coisas ruins lá.”

Fim de tarde em abrigo para refugiados e migrantes venezuelanos, em Boa Vista, Roraima. Foto: ACNUR/ Victor Moriyama

Apesar de ter dado à luz recentemente, Yenni aguarda ansiosa pelo fim do resguardo para voltar a trabalhar e juntar dinheiro. Como muitas outras mães venezuelanas, ela teve que deixar os dois filhos mais velhos para trás, mas seu plano é trazê-los o quanto antes.

“O que me esforcei foi pela minha família e meus filhos. Eu tenho dois filhos na Venezuela agora com minha mãe, Brian, de 19 anos, e Claribel, de 15. Estou esperando para trazê-los. Eu preciso deles perto. E esta é a minha história até agora. E agora tem ela, que é outra história, que está começando.”

O ACNUR atua no norte do Brasil, oferecendo serviços de registro e informação, abrigamento e proteção para famílias venezuelanas em situação de vulnerabilidade, apoiando o Governo Federal. Muitas vezes, a ajuda prestada salva vidas. Atualmente, mais de 6 mil venezuelanos moram nos abrigos apoiados pelo ACNUR e parceiros, como o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Nesses locais, os refugiados e migrantes têm acesso a alimentação, água potável, atendimento psicossocial e espaços seguros para crianças.

Para apoiar as atividades do ACNUR, faça uma doação — clique aqui.