UNICEF: lacunas de vacinação deixaram 169 milhões de crianças no mundo sem proteção contra sarampo

Bebê recebe vacina contra o sarampo na cidade de Taguig, nas Filipinas. Foto: UNICEF/Noorani

De 2010 a 2017, 169 milhões de crianças no mundo não receberam a primeira dose da vacina contra o sarampo, afirmou nesta quinta-feira (25) o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). No Brasil, segundo dados do Programa Nacional de Imunizações, foram pouco mais de 940 mil crianças que não receberam a primeira dose da tríplice viral em 2010-2017, para a prevenção do sarampo, caxumba e rubéola.

A agência da ONU estima que, globalmente, 21,1 milhões de meninos e meninas por ano deixem de receber a imunização necessária para se proteger do sarampo. O aumento dos bolsões de crianças não vacinadas criou um caminho para os atuais surtos da enfermidade, registrados em vários países. Em 2018, o Brasil notificou 10.326 casos confirmados da infecção.

“O terreno para os surtos globais de sarampo que estamos testemunhando hoje foi estabelecido anos atrás”, afirmou a diretora-executiva do UNICEF, Henrietta Fore.

“O vírus do sarampo sempre encontrará crianças não vacinadas. Se levamos a sério a prevenção da disseminação dessa doença perigosa, mas evitável, precisamos vacinar todas as crianças, tanto em países ricos quanto em países pobres.”

Apenas nos primeiros três meses de 2019, mais de 110 mil casos de sarampo foram registrados em todo o mundo – um aumento de quase 300% em relação ao mesmo período do ano passado. Estima-se que 110 mil pessoas, a maioria crianças, morreram de sarampo em 2017. O número de óbitos representa um aumento de 22% em relação a 2016.

As duas doses da vacina contra o sarampo são essenciais para proteger as crianças da patologia. Mas devido à falta de acesso, sistemas de saúde precários, complacência das autoridades e, em alguns casos, medo ou ceticismo em relação às vacinas, a cobertura global da primeira dose foi de 85% em 2017. O índice se manteve relativamente constante na última década, apesar do crescimento populacional. A cobertura global para a segunda dose é muito menor — 67%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a meta mínima de 95% da cobertura para evitar surtos e alcançar a imunidade coletiva ou o chamado “efeito rebanho”.


Ranking dos dez países de renda alta onde as crianças não receberam a primeira dose da vacina contra o sarampo entre 2010 e 2017
1. Estados Unidos: 2.593.000
2. França: 608.000
3. Reino Unido: 527.000
4. Argentina: 438.000
5. Itália: 435.000
6. Japão: 374.000
7. Canadá: 287.000
8. Alemanha: 168.000
9. Austrália: 138.000
10. Chile: 136.000


Em países de renda alta, a cobertura da primeira dose é de 94%. A da segunda cai para 91%, de acordo com os dados mais recentes.

Os Estados Unidos encabeçam a lista de nações ricas com o maior número de crianças que não receberam a primeira dose da vacina entre 2010 e 2017 — foram mais de 2,5 milhões. O país é seguido pela França e pelo Reino Unido, com mais de 600 mil e 500 mil crianças não vacinadas, respectivamente, durante o mesmo período.

Em países de renda baixa e média, a situação é crítica. Em 2017, por exemplo, a Nigéria teve o maior número de crianças com menos de um ano de idade sem receber a primeira dose da vacina: quase 4 milhões. Atrás do país africano, vêm Índia (2,9 milhões), Paquistão e Indonésia (1,2 milhão em cada nação) e a Etiópia (1,1 milhão).

A cobertura da segunda dose da vacina contra o sarampo tem números ainda mais alarmantes. Dos 20 países com mais crianças não vacinadas em 2017, nove não introduziram a segunda etapa da imunização. Na África Subsaariana, existem 20 Estados que não incluíram a segunda dose no calendário nacional de vacinação, colocando mais de 17 milhões de crianças por ano em alto risco de contrair o sarampo na infância.

O UNICEF — e parceiros como a Iniciativa contra o Sarampo e a Rubéola e a Aliança de Vacinas (GAVI) — lutam com o sarampo em várias frentes:

  • Negociando preços de vacinas: o custo da vacina contra o sarampo é agora o menor em toda a história;
  • Ajudando os países a identificar áreas carentes e crianças não alcançadas;
  • Comprando vacinas e outros suprimentos de imunização;
  • Apoiando campanhas suplementares de vacinação para superar as lacunas na cobertura de imunização de rotina;
  • Trabalhando com os países relevantes para introduzir a segunda dose da vacina contra o sarampo no calendário nacional de vacinação. Camarões, Libéria e Nigéria estão no caminho para conseguir esse feito já em 2019;
  • Introduzindo inovações como o uso de energia solar e tecnologias móveis para manter as vacinas na temperatura certa.

“O sarampo é muito contagioso”, lembra Henrietta.

“É fundamental não apenas aumentar a cobertura, mas também manter as taxas de vacinação nas doses certas para criar um guarda-chuva de imunidade para todos.”