UNICEF e OMS alertam sobre falta de recursos para iniciativas no Iêmen

Conflito no país, que entrou em seu segundo ano, matou mais de 900 crianças em 2015, segundo o UNICEF, que pediu mais recursos para a assistência em território iemenita. A agência de saúde da ONU alertou para as precárias condições de atendimento médico no Iêmen.

Menino de 6 anos pega água em Musaik, um bairro de Sana'a. Foto: ONU.

Menino de 6 anos pega água em Musaik, bairro de Sana’a. Foto: ONU.

Seis crianças são mortas ou feridas todos os dias no Iêmen e meninos e meninas de até 10 anos são recrutados para o conflito, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que junto à Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu mais recursos para auxiliar as vítimas da guerra em um país sob o risco de se tornar um Estado falido.

O relatório do UNICEF mostrou ainda o forte impacto que a violência no Iêmen está tendo sobre as crianças e a deterioração da já precária situação humanitária.

A agência verificou mais de 1.560 incidentes de graves violações contra crianças no país. Mais de 900 crianças foram mortas e outras 1,3 mil ficaram feridas somente no último ano — em média, ao menos seis crianças foram mortas ou ficaram feridas diariamente.

Esses números são quase sete vezes maiores que os de 2014 inteiro, segundo o relatório. Com mais de 50 ataques verificados contra escolas, as crianças morrem quando vão ao colégio ou retornam para casa. Segundo o UNICEF, esses dados representam apenas a ponta do iceberg, já que indicam somente os casos que a agência pôde verificar.

“As crianças estão pagando o preço mais alto por um conflito que não promoveram”, disse o representante do UNICEF no país, Julien Harneis, em comunicado à imprensa. “Elas foram mortas ou mutiladas e não estão seguras em nenhum lugar no Iêmen. Mesmo brincando ou dormindo estão em perigo.”

Recrutamento de crianças

Enquanto a guerra registra uma escalada, o recrutamento e o uso de crianças no confronto continuam a aumentar, disse o relatório. As crianças estão assumindo papéis mais ativos, como gerenciamento dos postos de controle e carregando armamentos. No ano passado, o UNICEF verificou 848 casos de recrutamento de crianças.

O UNICEF estimou mais de 10 mil mortes por doenças evitáveis entre crianças com menos de 5 anos no último ano como resultado do declínio dos serviços de saúde incluindo imunização e tratamento de diarreia e pneumonia. Esse número se soma às cerca de 40 mil crianças que morrem todos os anos no Iêmen antes de completar 5 anos.

Aproximadamente 10 milhões de crianças ou 80% da população infantil do país precisam de assistência humanitária urgente. Mais de 2 milhões de crianças enfrentam a ameaça de diarreia e 320 mil estão sob o risco de desnutrição severa.

Nesse cenário, o UNICEF alertou para a falta de recursos. A agência recebeu até o momento somente 18% do total de seu orçamento para 2016, de 180 milhões de dólares.

Situação precária na saúde

Enquanto o conflito no Iêmen entra em seu segundo ano, a agência de saúde das Nações Unidas pediu mais financiamento e acesso a mais de 80% da população que precisa urgentemente de ajuda humanitária.

“Apesar de nossos esforços até agora, é necessário muito mais para responder às necessidades de saúde da população do Iêmen”, disse o diretor regional da OMS para o Mediterrâneo Oriental, Ala Alwan.

Ele expressou preocupação com o limitado financiamento à agência de saúde, que até agora só recebeu 6% de seu orçamento de 2016.

Alwan também lembrou todas as partes de “suas obrigações com as leis humanitárias internacionais para facilitar o acesso a todas as regiões do Iêmen, e o respeito à segurança dos trabalhadores de saúde e unidades médicas que já atuam em condições extremamente desafiadoras”.

A situação da saúde no Iêmen já era difícil antes do conflito atual, mas se deteriorou ainda mais após a onda de violência que forçou um quarto de todos os hospitais a fechar devido a danos ou falta de profissionais, remédios e outros produtos.

Cerca de 19 milhões de pessoas não têm acesso a água limpa e saneamento, o que as coloca sob o risco de contrair doenças infecciosas como dengue, malária e cólera, disse a OMS.

“Enviamos remédios e suprimentos via barco quando as rodovias estavam bloqueadas, e transportamos água segura para hospitais por meio de animais devido à falta de combustível”, disse Alwan, completando que 450 toneladas de remédios e suprimentos foram entregues, junto com 1 milhão de litros de combustíveis para hospitais e 20 milhões de litros de água para unidades de saúde e campos de refugiados.