UNICEF alerta para situação vulnerável de crianças com deficiência na Síria

O conflito na Síria continuou sem cessar durante 2017, matando o maior número de crianças desde o seu início – 50% mais que em 2016. Apenas nos dois primeiros meses de 2018, 1 mil crianças foram mortas ou feridas na intensificação da violência. O conflito é agora a principal causa de morte entre adolescentes no país.

Crianças com deficiência estão expostas a maiores riscos de violência e enfrentam dificuldades em acessar serviços básicos, incluindo saúde e educação.

O risco de violência, exploração, abuso e negligência para crianças com deficiência aumenta com a morte ou separação de seus cuidadores. O alerta foi feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Em 2013, Batoul, agora aos 10 anos, perdeu o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos em uma explosão. Ela e o irmão caçula, de 8, ficaram sob escombros, gravemente feridos . Batoul, que era destra, perdeu a mão direita no ataque. A menina, por conta própria, aprendeu a usar a mão esquerda. Ela e o irmão vivem hoje com a avó. "Minha caligrafia era engraçada, mas eu tinha um sonho: ir à escola para estudar e brincar como todas as outras crianças". Foto: UNICEF

Em 2013, Batoul, agora aos 10 anos, perdeu o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos em uma explosão. Ela e o irmão caçula, de 8, ficaram sob escombros, gravemente feridos . Batoul, que era destra, perdeu a mão direita no ataque. A menina, por conta própria, aprendeu a usar a mão esquerda. Ela e o irmão vivem hoje com a avó. “Minha caligrafia era engraçada, mas eu tinha um sonho: ir à escola para estudar e brincar como todas as outras crianças”. Foto: UNICEF

O conflito na Síria continuou sem cessar durante 2017, matando o mais alto número de crianças desde o seu início – 50% a mais do que em 2016. Apenas nos dois primeiros meses de 2018, 1 mil crianças foram mortas ou feridas na intensificação da violência. O conflito é agora a principal causa de morte entre adolescentes no país.

“Nos conflitos, as crianças com deficiência estão entre as mais vulneráveis”, disse Geert Cappelaere, diretor regional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para o Oriente Médio e o Norte da África.

“Elas muitas vezes precisam de tratamento e serviços especializados. Como crianças, suas necessidades diferem das dos adultos. Sem acesso a serviços, escolas e produtos assistivos, como cadeiras de rodas, muitas crianças com deficiência enfrentam um risco extremamente real de exclusão, negligência e estigmatização à medida que o conflito implacável continua”.

O uso de armas explosivas e os ataques indiscriminados em áreas densamente povoadas matou um número crescente de crianças que agora representam um quarto das mortes civis. Mais de 360 crianças ficaram feridas em 2017, muitas delas vivem hoje com deficiência. E esses são apenas os números que as Nações Unidas conseguiram verificar, os números reais provavelmente são muito maiores.

Estima-se que 3,3 milhões de crianças dentro da Síria estejam expostas a explosivos, incluindo minas terrestres, artilharias não detonadas e dispositivos improvisados.

Mais de 1,5 milhão de pessoas vivem agora com deficiências permanentes relacionadas à guerra, incluindo 86 mil pessoas que perderam membros. Entre os refugiados sírios no Líbano e na Jordânia, 80% das lesões são uma consequência direta da guerra. A falta de acesso a cuidados médicos e psicológicos adequados prolongou ou agravou lesões e condições incapacitantes entre crianças.

Crianças com deficiência estão expostas a maiores riscos de violência e enfrentam dificuldades em acessar serviços básicos, incluindo saúde e educação.
O risco de violência, exploração, abuso e negligência para crianças com deficiência aumenta com a morte ou separação de seus cuidadores. Durante conflitos ou crises, famílias de crianças com deficiência muitas vezes não possuem os meios ou a capacidade de fornecer o equipamento assistivo de que elas precisam.

Pressão sobre países vizinhos

Sami, de 14 anos, originário de Dera'a, no sul da Síria, é agora um refugiado na Jordânia. Ele conta: "saí para brincar na neve com meus primos. Uma bomba atingiu a gente. Eu vi as mãos do meu primo voando na minha frente. Perdi minhas duas pernas. Dois dos meus primos morreram e um também perdeu as pernas". Foto: UNICEF

Sami, de 14 anos, originário de Dera’a, no sul da Síria, é agora um refugiado na Jordânia. Ele conta: “saí para brincar na neve com meus primos. Uma bomba atingiu a gente. Eu vi as mãos do meu primo voando na minha frente. Perdi minhas duas pernas. Dois dos meus primos morreram e um também perdeu as pernas”. Foto: UNICEF

Países vizinhos, também frágeis devido à instabilidade e à estagnação econômica, hospedam mais de 90% de todos os refugiados da Síria. O fluxo de refugiados adicionou uma enorme pressão sobre a prestação de serviços, desafiando o acesso das comunidades sírias e anfitriãs aos serviços básicos. Para as famílias que têm filhos com deficiência, o desafio é dobrado.

O deslocamento colocou as crianças com deficiência mais perto de riscos como tráfego rodoviário e dispositivos remanescentes de guerra não detonados. Destruição generalizada e ataques a instalações médicas e educacionais dizimaram os sistemas de saúde e educação do país.

Em 2017, as Nações Unidas verificaram 175 ataques contra instalações e pessoal de educação e saúde. Isso atingiu de forma mais forte as crianças com deficiência, deixando muitas sem acesso a cuidados especializados e instalações de educação acessíveis de que precisam para transformar suas ambições em realidade.

“À medida que as cirurgias progridem para crianças que foram incapacitadas ou desfiguradas pela guerra, você pode ver que elas se tornam mais confiantes, como se finalmente se tornassem completamente parte deste mundo”, disse o Ghassan Abu Sitti, cirurgião plástico e reconstrutivo da Universidade Americana do Centro Médico de Beirute.

Mas o dano devastador de sete anos de guerra não derrotou a determinação das crianças da Síria. “Apesar das lesões e deslocamentos, a ambição das crianças da Síria não conhece fronteiras”, disse Cappelaere.

“Quando as crianças com deficiência e suas famílias recebem o apoio e os serviços de que precisam, elas superam os desafios que enfrentaram e realizam feitos extraordinários para recuperar sua infância, dignidade e sonhos”.

A crise na Síria é sem precedentes em sua complexidade, brutalidade e duração e não pode continuar sendo tratada como tem sido até hoje. Em nome das crianças com deficiência e de todas as crianças afetadas pelo conflito na Síria, o UNICEF solicita às partes em guerra, àqueles que têm influência sobre elas e à comunidade internacional que tomem uma série de ações pelas crianças dentro da Síria e nos países que recebem os refugiados.

Entre elas, está investir no fornecimento de apoio vital e serviços de reabilitação de longo prazo, incluindo apoio psicossocial e cuidados de saúde mental para as crianças; melhorar o acesso a serviços básicos inclusivos, incluindo saúde e nutrição, educação, proteção infantil e água; projetar programas para e com a participação de crianças com deficiência.

Outras sugestões incluem dedicar recursos para tornar os serviços públicos efetivamente inclusivos; aumentar a assistência financeira às famílias com crianças com deficiência para ajudar a fornecer acesso a produtos assistivos, como cadeiras de rodas, bengalas e próteses; trabalhar com comunidades para incluir crianças com deficiência para enfrentar o estigma; fornecer fundos flexíveis, sem restrições e plurianuais para atender às necessidades das crianças, incluindo aquelas com deficiência e suas famílias, para aumentar seu acesso a serviços especializados.

Para apoiar as crianças afetadas pela guerra dentro da Síria e países vizinhos, o UNICEF precisa de 1,3 bilhão de dólares para seus programas em 2018. Além de tijolos e pedras, para a recuperação e a paz permanente, são necessárias a costura do tecido social rasgado e a volta de uma cultura de tolerância e diversidade para manter as comunidades juntas.

O UNICEF também pede o fim de violações contra crianças, incluindo assassinato, mutilação, recrutamento e ataques a escolas e hospitais, assim como acabar com a guerra por meio de uma solução política e por fim a todas as restrições à entrega de ajuda humanitária.

Nota para os editores

Drenados e esgotados após sete anos de guerra, os recursos das famílias dentro da Síria e nos países vizinhos estão perigosamente baixos, levando as famílias a medidas extremas apenas para sobreviver. O casamento precoce, o recrutamento de crianças e o trabalho infantil estão em ascensão de maneira geral. Em 2017, três vezes mais crianças foram recrutadas para a luta do que em 2015.

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