UNICEF: 70% de crianças na República Centro-Africana ainda estão fora da escola

Medo da violência é a principal razão dos alunos para não voltar à escola. Conflito que teve início em dezembro de 2012 prejudicou 65% das escolas. ONU mantém trabalhadores humanitários em pontos críticos.

Um menino na República Centro-Africana em sala de aula. Foto: UNICEF/Gabrielle Menezes

Um menino na República Centro-Africana em sala de aula. Foto: UNICEF/Gabrielle Menezes

Sete em cada 10 alunos do ensino básico na República Centro-Africana (RCA) ainda não voltaram para a escola desde que o conflito começou em dezembro de 2012, de acordo com uma pesquisa recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) com parceiros.

Cerca de 65% das escolas pesquisadas foram saqueadas, ocupadas ou danificadas por balas ou bombas, disse a agência em um comunicado à imprensa sobre a pesquisa, realizada em agosto em 11 das 17 províncias do país.

“A escola deveria ser um espaço seguro para o ensino e a aprendizagem, mas em algumas áreas não há mais nada”, disse o representante do UNICEF na RCA, Souleymane Diabaté. “Sem professores, mesas, livros, como uma criança pode aprender?”

Quatro em cada cinco pessoas disseram que o medo da violência é a principal razão dos alunos para não voltar à escola. Quase metade das escolas permanecem fechadas e os alunos perderam uma média de seis meses de estudo.

“Tanto o acesso quanto a qualidade da educação básica na República Centro-Africana se deteriorou severamente desde o início da crise”, disse Diabaté. “E se não agirmos agora, mais crianças vão perder todo o ano escolar e estão em risco de abandonar a escola.”

O UNICEF apelou às autoridades da RCA para tomar medidas concretas para apoiar o regresso permanente e seguro de todos os professores e alunos à escola.

Assolado por décadas de instabilidade e conflito, o país assistiu a uma retomada da violência em dezembro de 2012, quando a coalizão rebelde Seleka realizou uma série de ataques. Foi alcançado um acordo de paz em janeiro de 2013, mas os rebeldes tomaram a capital Bangui em março, forçando o presidente François Bozizé a fugir.

O governo atual – de transição – está encarregado de restaurar a lei e a ordem e abrir caminho para eleições democráticas. No entanto, os confrontos armados no nordeste do país têm aumentado desde o início de agosto, com o país enfrentando uma terrível situação humanitária que afeta toda a população de cerca de 4,6 milhões.

O UNICEF informou que cerca de 25 mil crianças afetadas pelos conflitos estão no momento se preparando para os exames finais deste ano, com 40 mil outras crianças se preparando para voltar às aulas nas próximas semanas.

Quase 20 mil alunos receberam material escolar. O UNICEF pretende apoiar outras 105 mil crianças até o final do ano. No entanto, o apelo de emergência do Fundo, que era de 11,5 milhões de dólares antes da crise, quase triplicou, totalizando agora 32 milhões de dólares. O UNICEF recebeu apenas um terço do financiamento solicitado.

A crise já deslocou mais de 394 mil pessoas dentro do país e outras 64 mil pessoas para países vizinhos. A insegurança persistente, a ausência do Estado de Direito e os ataques contra o pessoal humanitário continuam a impedir a assistência às pessoas em necessidade.

No entanto, a ONU mantém trabalhadores humanitários em cinco localidades fora de Bangui, além de equipes móveis Bossangoa, onde combates foram recentemente retomados.

Parceiros humanitários já conseguiram alcançar 180 mil pessoas com assistência alimentar e programas de nutrição; 573 mil pessoas foram beneficiadas com programas de água e saneamento; enquanto mais de 200 mil receberam apoio de saúde.