UNFPA e Fiocruz ampliarão parceria para promover direitos reprodutivos e inclusão da juventude

Organismos já tem atuado de forma conjunta para orientar comunidades afetadas pela epidemia de zika. Cooperação vai se estender pelos próximos cincos anos e vai desenvolver iniciativas em diferentes partes do país para mobilizar mulheres, homens e jovens em torno de temas como contracepção, planejamento da gravidez e acesso à saúde. Oportunidades de desenvolvimento para a juventude também estão na pauta.

Índices de gravidez na adolescência permanecem altos no Brasil. Foto: EBC

Índices de gravidez na adolescência permanecem altos no Brasil. Foto: EBC

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Fundação Oswaldo Cruz devem ampliar parcerias para promover os direitos sexuais e reprodutivos no Brasil, bem como oportunidades de desenvolvimento para os jovens.

Desde o início do ano, os dois organismos atuam em conjunto para mobilizar comunidades afetadas pelo zika em torno de temas como planejamento familiar e contracepção.

Embora no Brasil seja registrada uma taxa relativamente baixa de demanda não atendida por contraceptivos — de 6 a 7,7% —, quase metade das gestações no país não é planejada, alertou o representante da agência da ONU, Jaime Nadal, durante encontro em agosto (15) para definir os rumos da cooperação entre UNFPA e Fiocruz.

“Isso possivelmente tem a ver com o fato de que as mulheres não estão conseguindo acessar o setor público de saúde e estão se automedicando, usando de forma inadequada, descontinuada, o que aumenta a taxa de falha dos contraceptivos. Elas não estão tendo o aconselhamento adequado, não estão usando o método de sua escolha”, explicou.

Para Valcler Rangel, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz e responsável pela parceria com o Fundo das Nações Unidas, a pauta dos anticoncepcionais envolve não apenas o aumento da produção de métodos, mas também “o acesso à boa orientação para o planejamento da gravidez”.

Segundo o especialista, Fiocruz e UNFPA vão delinear um mapa de trabalho em outubro, para definir ações em todo o país através das unidades regionais da instituição de pesquisa. Um memorando de entendimento firmado entre os dois organismos no início do ano prevê que a cooperação se estenda até 2021.

A agência da ONU já tem trabalhado com as Fundações em Pernambuco e Bahia, devido à gravidade da epidemia de zika nos estados. A perspectiva é ampliar iniciativas para Minas Gerais e Brasília.

Também presente no encontro, a representante auxiliar do UNFPA, Fernanda Lopes, alertou para o uso inadequado da contracepção de emergência como método contraceptivo, o que causa preocupação pelas consequências da alta dosagem hormonal.

“Isso é resultado de uma série de barreiras que afetam especialmente as adolescentes: a ausência de investimentos para garantir acesso à informação, orientação, a retirada da educação em sexualidade dos currículos escolares, a falta de educação em direitos humanos”, disse.

Juventude em risco

A cooperação entre UNFPA e Fiocruz deverá ser voltada também para garantir a inclusão e o desenvolvimento da juventude brasileira.

Nadal explicou que “o crescimento econômico (do país) vai depender da qualidade do capital humano, dos investimentos que forem feitos nos jovens”. “Estamos promovendo esse tema junto aos governos, para que este investimento aconteça, promovendo uma educação transformadora baseada no desenvolvimento de habilidades para a vida.”

As crianças sobrevivem à primeira
infância e são mortas depois
na adolescência e juventude.

O dirigente lamentou que, embora o Brasil tenha conquistado avanços no combate à mortalidade infantil devido a recursos liberados para a saúde, a violência contra jovens, especialmente os negros, permanece elevada.

“Então, as crianças sobrevivem à primeira infância e são mortas depois na adolescência e juventude”, alertou.

Investimento na juventude será um dos eixos da parceria entre UNFPA e Fiocruz. Imagem dos Festivais de Integração do Projeto Esporte, Lazer e Cidadania mobilizam comunidades de Vasco da Gama e Ondina. Foto: Flickr/ Amanda Oliveira/GOVBA (Creative Commons)

Investimento na juventude será um dos eixos da parceria entre UNFPA e Fiocruz. Imagem dos Festivais de Integração do Projeto Esporte, Lazer e Cidadania mobilizam comunidades de Vasco da Gama e Ondina. Foto: Flickr/ Amanda Oliveira/GOVBA (Creative Commons)

Para Valcler Rangel, políticas para os mais novos devem contemplar novas áreas nem sempre associadas às demandas dos jovens, como direito à cidade, à vida rural, proteção ambiental.

“Os jovens e adolescentes muitas vezes são esquecidos, são vistos como estudantes, o que existe para eles é oferta de escolas”, disse.

Cooperação Sul-Sul

A parceria entre as duas entidades poderá levar, no futuro, a projetos em nível internacional. “Temos trabalhado com a ideia de uma cooperação estruturante em saúde, que seja de fato uma troca entre os países, que não tenha a visão tradicional, vertical, de cooperação”, explicou a vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz (VPEIC), Nísia Trindade Lima.

A dirigente lembrou o trabalho realizado pela Fundação em Moçambique, país onde o UNFPA também desenvolve um projeto de cooperação Sul-Sul.