UNESCO defende participação de estudantes na elaboração de currículos escolares

Em evento no Rio de Janeiro, agência da ONU afirmou que os currículos escolares precisam de adaptações para atender às novas exigências do mundo globalizado e do mercado de trabalho. A formulação das políticas escolares deve ter a participação dos alunos e de todas as partes interessadas, disse a UNESCO.

UNESCO defende participação dos alunos na elaboração dos currículos escolares. Foto: Agência Brasil

UNESCO defende participação dos alunos na elaboração dos currículos escolares. Foto: Agência Brasil

Um bom currículo pode fazer a diferença na educação? Sim, de acordo com os especialistas que participaram na semana passada (25) do painel Currículo de Qualidade: Educação para o desenvolvimento equitativo e sustentável, organizado pela UNESCO no Brasil dentro do Educação 360, um evento dos jornais O Globo e Extra. Agência das Nações Unidas defendeu participação de alunos na elaboração dos currículos.

De acordo com Fontani, participante do debate e diretor da instituição da ONU em Bruxelas, o currículo é um guia para se alcançar metas comuns. “A UNESCO define currículo como um roteiro para alcançar objetivos socialmente acordados de educação e de desenvolvimento”, explicou o dirigente durante o encontro, realizado no Museu do Amanhã do Rio de Janeiro.

O especialista acrescenta que “a visão da UNESCO sobre a revisão do currículo envolve a participação das partes interessadas em todas as áreas”.

Fontani ressaltou que os currículos atuais precisam de adaptação para atender às novas exigências do mundo globalizado. “Precisam se adaptar aos novos objetivos da educação, preparar os jovens para as demandas do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que devem atender às necessidades individuais e ensinar princípios como moral, normas e valores”, disse o analista.

Para o representante da UNESCO, as diretrizes dos projetos pedagógicos também devem reservar “um espaço para a ousadia e a adaptabilidade de cada comunidade escolar”.

Alejandra Arratia, da Fundación Educación 2030 do Chile, relatou como aconteceu o processo de discussão de um currículo comum em seu país. “Convocamos uma mesa transversal de desenvolvimento curricular, com pessoas de todos os espaços políticos do Chile, inclusive pessoas que eram contra um currículo nacional”, lembrou. O grupo trabalhou por oito meses.

Segundo Arratia, o objetivo era elaborar um documento “que recordasse uma base cultural comum, para um país altamente equitativo e pluralista”. Outra preocupação era com a inclusão dos conceitos de cidadania para o desenvolvimento sustentável e para o bem comum.

Hugo Labate, especialista do Instituto de Educação da UNESCO, apresentou os resultados de um estudo comparativo sobre o tema feito entre cinco países — Brasil, Quênia, Camboja, Peru e Finlândia.

“O IBE se ocupa em construir e manter atualizada uma base de dados sobre currículos em vários países do mundo. Tudo organizado e disponível online. Assim pode-se conhecer como os sistemas educativos estão organizados em todo o mundo em relação a seus aspectos curriculares.”

Para o especialista, é importante ter em mente a quem o currículo se destina e para que época. “Queremos focar no passado, no presente ou no futuro? Se ele é para o futuro, então precisa considerar as questões que estão emergindo, não pode ser um currículo que contenha toda a fragilidade que o sistema educacional tem hoje. Ele tem que já pensar que o sistema vai progredir e crescer, e mirar o futuro com equidade, inclusão, ao longo da vida, contemplando todas as tecnologias (de) que o mundo moderno usufrui”, ressalta Labate.

Realidade brasileira

Para o secretário de Educação do município de São Paulo, Alexandre Schneider, “o currículo tem que dar oportunidade para as pessoas serem incluídas no sistema educacional”. “Logo, tem que buscar dar oportunidades e, para isso, contemplar todos os direitos humanos”, defendeu o gestor.

São Paulo é a primeira cidade a adotar um currículo que inclui, em seu texto, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, os ODS.

“E o processo continua, não basta criar o currículo, ouvindo todos os setores. É preciso seguir num processo de aperfeiçoamento contínuo ao longo dos anos”, completa o secretário. “É importante respeitar o que veio antes e entender que o currículo é uma construção coletiva.”

Para Eduardo Deschamps, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), o currículo tem muitas funções: “ele orienta a formação de professores, a avaliação, o material didático a ser usado e até o contrato do docente”.

Na avaliação do dirigente, o currículo deve ser tratado como uma política de Estado e não de governo, sendo que em um país grande e diverso como o Brasil, “não teremos um único currículo para todo o país, teremos um currículo base, pois temos uma enorme diversidade e isso deve estar refletido no currículo”.