UNAIDS: insegurança alimentar prejudica adesão ao tratamento do HIV

Entre as pessoas que fazem uso de medicamentos antirretrovirais, a insegurança alimentar também pode afetar a adesão ao tratamento. Foto: UNAIDS

A insegurança alimentar e o HIV estão entrelaçados em um ciclo que aumenta a vulnerabilidade. No Sul da África, região mais afetada pela crise de fome atualmente, esta pode estar associada ao aumento dos comportamentos de risco de transmissão e à diminuição do acesso ao tratamento e a cuidados com o HIV.

Entre as pessoas que fazem uso de medicamentos antirretrovirais, a insegurança alimentar também pode afetar a adesão ao tratamento.

Segundo os dados mais recentes do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), os avanços continuam, mas a meta 90-90-90 para o fim da epidemia de AIDS ainda está longe de ser alcançada.

No Sul da África, por exemplo, estima-se que 20,6 milhões de pessoas vivam com HIV. Nos últimos anos, houve uma diminuição no número de novos casos de infecções por HIV e de mortes relacionadas à AIDS. Entretanto, o progresso é frágil, e varia consideravelmente dentro da região.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável reflete a interdependência e a complexidade de um mundo em mudança e que necessita de ação coletiva global. Como um conjunto de metas inseparáveis, os ODS dão um mandato para a integração de esforços de todas as partes envolvidas.

O objetivo 2, “fome zero”, inclui o “ fim da fome, o alcance à segurança alimentar e melhoria da nutrição e promoção da agricultura sustentável”.

O UNAIDS alerta que a fome prejudica a adesão ao tratamento do HIV e acelera a progressão para a AIDS. Além disso, o apoio nutricional às famílias vulneráveis e sistemas integrados a serviços de HIV ajudam a melhorar a saúde das pessoas.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) informou, na última quinta-feira (16), que tem apenas 41% disponível dos 489 milhões de dólares necessários para alimentar pessoas em situação de “crise” ou em situação de “emergência” nos oito países do Sul da África mais atingidos pela fome: Zimbábue, Zâmbia, Moçambique, Madagascar, Namíbia, Lesoto, Suazilândia e Malauí. O alerta do PMA também chama atenção para os desafios ao tratamento do HIV.

A agência explica que a crise é agravada por diversos fatores, entre eles o preço dos alimentos e o desemprego e que, à medida que a crise se aprofunda, o mundo precisa avançar para salvar vidas e permitir que as comunidades se adaptem também às mudanças climáticas. Para as pessoas vivendo com HIV, as preocupações com a saúde e acesso a medicamentos agravaram uma situação que já era difícil.

“Esta crise da fome está em uma escala que nunca vimos antes e as evidências mostram que vai piorar”, disse Lola Castro, diretora regional do PMA para a África Austral. “A temporada anual de ciclones começou e simplesmente não podemos permitir uma repetição da devastação causada pelas tempestades sem precedentes do ano passado”.

Os grupos de pessoas vulneráveis, incluindo pessoas vivendo com HIV e afetadas pelo vírus, estão particularmente expostas ao aumento da intensidade de eventos climáticos extremos que acontecem em áreas do mundo onde os mecanismos de enfrentamento já estão desgastados.

Pessoas que vivem com HIV muitas vezes estão em comunidades frágeis e são mais afetadas pela desigualdade e instabilidade. As preocupações dessas pessoas devem estar no centro dos esforços para o desenvolvimento sustentável.

O UNAIDS pede que os países cumpram o compromisso assumido na Declaração Política das Nações Unidas sobre o Fim da AIDS para que a prestação de serviços liderada por comunidades seja expandida para cobrir pelo menos 30% de toda a prestação de serviços até 2030.

Investimentos adequados devem ser feitos na construção da capacidade das organizações da sociedade civil para prestar serviços de prevenção e tratamento do HIV que sejam livres de discriminação, baseados em direitos humanos e voltados para as pessoas nas comunidades mais afetadas pelo vírus.

O mandato do PMA no UNAIDS

O alerta do PMA, que chama atenção para os desafios ao tratamento do HIV, também está ligado ao mandato do PMA no UNAIDS. A nutrição e a segurança alimentar são componentes essenciais de cuidados e apoio para pessoas vivendo com HIV e doentes de tuberculose.

O trabalho do PMA em relação ao HIV é focado em conectar a alimentação e a saúde pelo fornecimento de nutrição e assistência alimentar para melhores resultados em saúde, tais como a recuperação nutricional para pessoas subnutridas que vivem com HIV e pacientes com tuberculose, retenção em programas de cuidados e sucesso do tratamento.

O PMA fornece suporte para indivíduos e famílias — incluindo alimentos, mas também dinheiro e vales-alimentação — a permitir um melhor acesso e adesão ao tratamento do HIV.