‘Transformar as relações de poder é essencial’, diz chefe da ONU no dia das mulheres

Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lançou um chamado “forte e urgente” por ação em prol da igualdade de gênero. Para ele, a desigualdade representa uma “injustiça esmagadora” de nosso tempo.

Guterres defendeu a igualdade de gênero como uma questão de poder, afirmando ser preciso transformar e redistribuir o poder, de forma urgente, caso o mundo queira salvaguardar seu próprio futuro no planeta. “A misoginia está em todas as partes”, acrescentou, em mensagem em vídeo (assista aqui).

Celebração antecipada nesta sexta-feira (6), na Assembleia Geral, lembra criação da Plataforma de Ação de Pequim, há 25 anos. Em 2020, o tema é “Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”.

Uma série de eventos nas Nações Unidas, nesta sexta-feira (6), marca de forma antecipada o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. Em 2020, o tema é “Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”.

Em mensagem em vídeo (acima), o secretário-geral da organização, António Guterres, faz um chamado urgente para ação que leve à igualdade de gênero. Para alcançar essa meta, o chefe da ONU diz que é essencial transformar as relações de poder quando a misoginia – o ódio às mulheres –, está em todas as partes.

Tabus

Essas manifestações são presentes, segundo o chefe da ONU, “desde o ridicularizar das mulheres como histéricas ou ‘hormonais’, até o julgamento sobre sua aparência, passando por mitos e tabus sobre as funções corporais delas, a atribuição da culpa e as chamadas ‘aulas de explicação’ (mansplaining) que os homens gostam de oferecer às mulheres sobre os mais variados tópicos”.

No pronunciamento, o secretário-geral sublinha que “o século 21 deve ser o século da igualdade para as mulheres”. O apelo a todos é que façam sua parte para torná-lo uma realidade.

Nesta sexta-feira, o chefe da ONU participa da celebração antecipada na sede da organização com representantes de várias gerações de ativistas que contribuíram na criação da Plataforma de Ação de Pequim que celebra 25 anos.

Roteiro

Foi a 4ª Conferência Mundial sobre as Mulheres, realizada em 1995 na capital chinesa, que adotou o roteiro que é considerado o mais progressista para dar poder a este grupo em nível global.

Um dos destaques da comemoração do Dia Internacional da Mulher nas Nações Unidas é o debate de questões ainda por resolver para o empoderamento feminino.

A professora Nina Ranieri, que coordena a Cátedra UNESCO de Direito à Educação da Universidade de São Paulo, relatou à ONU News, em Nova Iorque, como a desigualdade de gênero se reflete na carreira acadêmica.

Filhos

“As meninas, quando terminam o doutorado, estão na hora de ter filhos. É o começo da década delas, dos 30 anos. Isso retarda, atrasa a carreira, até ter os filhos. Que foi o que me aconteceu. A minha carreira docente começa aos 40 anos. É uma carreira tardia quando comparada com a dos meus colegas que antes dos 60 anos já chegaram a professor titular. Muito antes, com 40, 50 anos. E as mulheres não. Acaba se prolongando em virtude desses atrasos na carreira.”

Um novo relatório lançado pelas Nações Unidas que lidera o tema, a ONU Mulheres, destaca que o progresso rumo à igualdade de gênero está atrasado e os difíceis ganhos enfrentam ameaças.

O estudo lançado para marcar a celebração aponta que menos de dois terços das mulheres entre 25 e 54 anos exercem trabalho remunerado, em comparação com mais de 93% dos homens.

As mulheres continuam realizando grande parte dos cuidados não remunerados e domésticos, recebendo em média 16% a menos que os homens.

Soluções

Quanto à violência, 18% das mulheres sofreram esse tipo de atos de um parceiro íntimo no ano passado. As novas tecnologias aumentam a exposição a novas formas de violência como o assédio cibernético, sem soluções políticas à vista.

As desigualdades no setor de educação se refletem numa realidade de 32 milhões de meninas que continuam fora da escola. Na política, os homens ocupam três quartos dos assentos parlamentares.

O relatório destaca ainda a exclusão de figuras de sexo feminino dos processos de paz. As mulheres representam apenas 13% dos negociadores e 4% dos assinantes desses acordos.

As celebrações deste ano marcam ainda o 20º aniversário da resolução 1325 do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre mulheres, paz e segurança e a primeira década depois da criação da ONU Mulheres.

(Matéria da ONU News, de Nova Iorque)