Trabalhadora humanitária escreve diário sobre vida cotidiana em Alepo, na Síria

A japonesa Yumiko Takashima trabalha para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na Síria — a mais de 8,7 mil km de sua cidade natal, Tóquio. Ela se juntou à organização vinte anos atrás e trabalhou em lugares como Timor Leste, Sudão, Tailândia, Afeganistão, entre outros. Desde 2018, está em Alepo.

Mais de 5,6 milhões de pessoas fugiram da guerra na Síria desde 2011, buscando segurança em Turquia, Líbano, Jordânia e outros países. Milhões estão deslocados dentro da Síria.

Yumiko contou à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) como é viver e trabalhar em um país que enfrenta um dos mais sangrentos conflitos armados do mundo.

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A japonesa Yumiko Takashima trabalha para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na Síria — a mais de 8,7 mil km de sua cidade natal, Tóquio. Ela se juntou à organização vinte anos atrás e trabalhou em lugares como Timor Leste, Sudão, Tailândia, Afeganistão, entre outros. Desde 2018, está em Alepo.

Mais de 5,6 milhões de pessoas fugiram da guerra na Síria desde 2011, buscando segurança em Turquia, Líbano, Jordânia e outros países. Milhões estão deslocados dentro da Síria.

Yumiko contou à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) como é viver e trabalhar em um país que enfrenta um dos mais sangrentos conflitos armados do mundo.

Leia abaixo seu relato.

05:00 O despertador do telefone toca e eu me arrasto para fora da cama para correr. O exercício é realmente importante, especialmente em uma cidade como Alepo, onde a comida local é tão deliciosa. Meu novo amor é ‘Kabab bil Karaz’ (kebab de cereja). Antes da crise, Alepo costumava ser o centro econômico da Síria e era bem conhecida por seu grande mercado coberto, produtos tradicionais como sabonetes e iguarias como ‘Kebeh’ e ‘Mahashi’ (berinjela e abobrinha recheada com carne moída).

Atualmente, temos que morar em um hotel por causa da situação de segurança, então, eu corro algumas voltas no pequeno jardim. A vida em um hotel não é tão glamorosa quanto parece, e você logo começa a sentir falta daquelas coisas que fazem de um lugar um “lar”, como poder cozinhar e desfrutar de uma refeição em sua própria cozinha. Mas nós tentamos fazer o melhor possível, como criar uma pequena cozinha em uma área comum, onde podemos preparar refeições.

08:00 Depois de um rápido café da manhã, estou em um veículo, pronta para ir ao escritório. Fica a apenas dez minutos de carro, mas em alguns dias precisamos tomar uma rota diferente por razões de segurança. Independentemente de onde precisamos ir, estamos sempre em veículos blindados.

Metade de Alepo foi destruída devido à crise. A outra metade está intacta. Uma rua divide os dois lados. Quando a atravesso, sinto que estou em um filme — um lado sendo destruído e o outro intacto — é tão irreal, mas é real.

As necessidades aqui são enormes. Mais de 990 mil pessoas em Alepo e nos arredores foram deslocadas à força de suas casas. Atualmente, cerca de 161 mil pessoas já voltaram. O ACNUR está apoiando as famílias que optam por retornar, com programas de ajuda com o objetivo de melhorar as condições de retorno. Estimamos que existam cerca de 1,4 milhão de pessoas necessitadas em Alepo e arredores. Por trás de cada um desses números, há pessoas reais, com vidas reais.

É por isso que estou aqui: é sobre como nós humanos podemos nos ajudar. O que me impressiona é a resiliência das pessoas. O que você pode ter ouvido sobre Alepo não é totalmente verdade. As pessoas aqui enfrentaram situações muito difíceis, mas não olham para trás, apenas querem avançar e ter normalidade em suas vidas. Nós, como humanitários, podemos ajudar nossos semelhantes, os quais estão caindo em crises constantes, a seguir em frente.

08:15 Desde que comecei a trabalhar, levo 15 minutos para entender tranquilamente o que vai acontecer durante o dia, para priorizar o trabalho e pensar em como lidar com qualquer reunião difícil. Esses 15 minutos são muito importantes para mim, eles me ajudam a focar. Inicialmente, temos uma reunião de equipe. Existem cerca de 60 pessoas trabalhando aqui em Alepo no momento, incluindo 52 colegas nacionais. Muitos perderam familiares e amigos por causa da crise. Ainda assim, eles continuam. Estou muito honrada por fazer parte de uma equipe tão forte, confiante e apaixonada.

11:00 Saio com meu colega Mustafa para visitar um centro comunitário dirigido pelo ACNUR, para garantir que nossas atividades estejam no caminho certo. Nesses centros, oferecemos diferentes serviços, como assessoria jurídica, aconselhamento, treinamento profissionalizante e aulas de recuperação para crianças que perderam a escola por causa da crise. As crianças são o futuro da Síria e queremos garantir que elas não sejam deixadas para trás.

Um centro comunitário é mais do que apenas um prédio onde as pessoas podem acessar serviços e informações de proteção. É um espaço onde as pessoas se encontram e discutem o que querem fazer por si mesmas em suas comunidades.

Atualmente, o ACNUR apoia 22 centros comunitários e dez centros menores em Alepo. Também temos 28 equipes móveis que vão a pequenos vilarejos remotos para garantir que as famílias recebam o apoio de que precisam. Essas equipes consistem em voluntários locais que conhecem melhor suas comunidades.

14:00 Encontro o pessoal de uma organização nacional que está ajudando o ACNUR a distribuir suprimentos de inverno. Ainda estamos lidando muito com emergências em várias partes de Alepo. Estamos lá para ajudar, para fornecer abrigo e itens básicos, como cobertores, galões para armazenar água e muito mais. Durante o inverno, é extremamente frio aqui. É por isso que fornecemos materiais como folhas de plástico transparente para ajudar as famílias a cobrir janelas e portas destruídas para evitar o frio. No inverno passado, ajudamos mais de 215 mil pessoas na área com itens essenciais, como sacos de dormir, jaquetas de inverno, cobertores e lonas plásticas.

18:00 A maioria dos funcionários sai do escritório antes de escurecer por conta da segurança. Quando volto ao hotel, continuo trabalhando, respondendo e-mails e me preparando para o dia seguinte, às vezes até tarde da noite. Se você me pedisse para descrever este trabalho, eu diria que não é um trabalho, é uma vocação. É algo que eu tenho muita sorte de poder fazer. Mesmo que seja difícil estar longe da minha família e amigos.

Muitos de nós queremos fazer algo quando vemos alguém sofrendo. Podemos nem sempre ser capazes de fazer o que quisermos, mas até mesmo ouvir as pessoas mostra que nos importamos. Temos sorte de poder fazer isso aqui em Alepo.

Espero que as pessoas não se esqueçam das famílias deslocadas que precisam de ajuda. São pessoas como eu e você, que por acaso estão nessa situação difícil. Eu sei que é tão fácil esquecer o que está acontecendo em outra cidade, país, continente, mas eu vejo o que acontece quando ajudamos. As pessoas são fortes. Com um pouco de apoio, eles podem continuar suas vidas.

Há um tempo atrás, o ACNUR ajudou a instalar luzes nas ruas em uma área de Alepo. Iluminar as ruas significa que a vida pode continuar após o anoitecer: as pessoas se sentem mais seguras e podem se movimentar com mais facilidade, as crianças podem fazer sua lição de casa à noite, as famílias não precisam mais ficar sentadas no escuro. Então não é apenas a luz, é a esperança que ela proporciona às pessoas. Quando as luzes se acenderam, uma senhora idosa saiu de casa e me abraçou, chorando e apontando o dedo para as luzes. Ela não falava inglês e meu árabe era terrível, mas não precisávamos de palavras para nos entendermos. Em tempos assim, sinto-me muito privilegiada por trabalhar em Alepo.