‘Tempo faz esquecer tudo, menos o Holocausto’, diz sobrevivente no Rio de Janeiro

Freddy Siegfried Glatt nasceu em Berlim, na Alemanha, em 1928. Após a ascensão do regime nazista, perdeu seus dois irmãos mais velhos e avós maternos, assassinados no campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau*, na Polônia ocupada.

Em 1947, conseguiu fugir com a mãe para o Brasil, onde reconstruiu sua vida. Hoje, aos 92 anos, ele contou sua história em cerimônia para o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, realizada na terça-feira (28), no Rio de Janeiro (RJ).

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Freddy Siegfried Glatt nasceu em Berlim, na Alemanha, em 1928. Após a ascensão do regime nazista, perdeu seus dois irmãos mais velhos e avós maternos, assassinados no campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau*, na Polônia ocupada.

Em 1947, conseguiu fugir com a mãe para o Brasil, onde reconstruiu sua vida. Hoje, aos 92 anos, ele contou sua história em cerimônia para o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, realizada na terça-feira (28), no Rio de Janeiro (RJ).

“Há um ditado que diz que o tempo faz esquecer. Isso se aplica a tudo, menos à lembrança do Holocausto”, disse Glatt na presença de mais de 100 pessoas no evento organizado por Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), Consulado Geral da Alemanha e Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) no Centro Cultural da Justiça Federal.

Atual presidente da Associação dos Sobreviventes do Holocausto do Rio de Janeiro, Glatt já relatou em centenas de palestras como superou as barbáries do genocídio. Em 2018, lançou o livro “Roubaram minha infância”.

“Com profunda emoção, lembro os milhões de mortos que nunca terão uma sepultura digna, entre os quais meus dois irmãos, meus avós, tios, tias, meus colegas da escola. Lembro os carrascos e seus ajudantes, assim como aqueles que assistiram em silêncio sem tomar uma atitude.”

O tema deste ano do Dia Internacional é “75 anos depois de Auschwitz – Educação sobre o Holocausto e Memória para Justiça Global”. A data reflete a importância da ação coletiva contra o antissemitismo e outras formas de preconceito, de forma a prevenir o genocídio e garantir o respeito à dignidade e aos direitos humanos.

Quase 1 milhão de homens, mulheres e crianças foram mortos em Auschwitz por serem judeus. Milhares de ciganos, prisioneiros de guerra soviéticos, oponentes políticos e outras pessoas perseguidas foram presas lá ou lá morreram. No total, 1,5 milhão de pessoas foram assassinadas no maior campo de extermínio do nazismo.

O evento no Rio também foi a ocasião do lançamento da exposição “Alguns eram vizinhos: escolha, comportamento humano e o Holocausto”, que fica em cartaz até 20 de fevereiro no Centro Cultural da Justiça Federal. A mostra traz reflexões sobre o que as pessoas fizeram — ou deixaram de fazer — durante a Segunda Guerra Mundial, em atitudes que ajudaram — ou não — vítimas do antissemitismo e do nazismo.

“Quando pensamos no Holocausto, a primeira pessoa em quem pensamos é Hitler e a responsabilidade do governo nazista. Mas esta exposição nos inspira a pensar como os nazistas conseguiram ter tanto apoio de pessoas comuns. Levanta a questão sobre as razões que levaram algumas pessoas a ajudar os nazistas durante o Holocausto, enquanto outras decidiram ajudar os judeus”, explicou a diretora do UNIC Rio, Kimberly Mann.

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A mostra é produzida em parceria com o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos e o Programa Educacional da ONU sobre o Holocausto. Na opinião do cônsul-geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, Scott Hamilton, a missão de todos os países deve ser tornar vívidas as memórias dos assassinatos em massa cometidos durante a Segunda Guerra Mundial.

“Contamos as histórias para que todos entendam as atrocidades do Holocausto e a imensidão do que ocorreu. Não se trata de uma história estanque de 75 anos atrás. O antissemitismo está crescendo no mundo. Nos EUA, houve ataques a sinagogas em Pittsburgh, em comunidades judaicas de Nova Iorque e New Jersey”, lembrou.

O vice-cônsul-geral da Alemanha no Rio de Janeiro, Johannes Bloos, afirmou que a Shoá – nome em hebraico para o Holocausto – envergonha a sociedade alemã. “Lembrar os crimes, nomear os autores e preservar uma memória digna das vítimas é uma responsabilidade que nunca terá fim. (…) Estar ciente dessa responsabilidade compõe nossa identidade nacional.”

Presente no evento, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, disse que “a ONU fez justiça histórica quando instituiu o Dia Internacional de Memória às Vítimas do Holocausto”. “Que essa barbárie nunca mais se repita. Que nenhum povo tenha que passar pelas atrocidades enfrentadas pelo povo judeu”, declarou.

Para o cônsul honorário de Israel, Osias Wurman, “o nazismo foi derrotado, mas não os nazistas”. “No momento em que renascem em nível mundial atentados e manifestações de ódio racista, principalmente contra judeus, é fundamental que sejam promovidos eventos e campanhas de esclarecimento, principalmente para os mais jovens.”

Com o objetivo de lembrar a responsabilidade coletiva diante de atrocidades, o desembargador federal e diretor do Centro Cultural da Justiça Federal, Ivan Athiè, citou a frase atribuída ao ativista pelos direitos civis Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

A cerimônia foi marcada por preces judaicas em homenagem às vítimas do Holocausto, conduzidas pelo hazan André Nudelman. Também houve uma apresentação das violinistas Isabel Belém e Raquel Belém.

Segundo o presidente da FIERJ, Arnon Velmovitsky, eventos como este visam evitar novas tragédias. “É nosso dever combater diuturnamente esta chaga, unindo esforços e bradar bem alto: Holocausto nunca mais!”

*Auschwitz-Birkenau, campo de concentração e extermínio da Alemanha nazista (1940-1945).

Assista à mensagem do secretário-geral da ONU para o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: