Sudaneses enfrentam medo e insegurança ao voltar para casa

Rawda Yusuf, de 42 anos, está entre os cerca de 4.000 refugiados sudaneses que retornaram do Chade desde 2017. Mas a falta de serviços básicos, como hospitais, água e escolas, tornou mais difícil a tarefa de reconstruir suas vidas e os temores de novos ataques ainda persistem. Leia o relato da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Rawda Yusuf fugiu do Sudão para o Chade em 2005. Ela retornou para seu país e vive em um campo para deslocados internos no Sudão, mas ainda deseja voltar para casa. Foto: ACNUR/Modesta Ndubi

Rawda Yusuf fugiu do Sudão para o Chade em 2005. Ela retornou para seu país e vive em um campo para deslocados internos no Sudão, mas ainda deseja voltar para casa. Foto: ACNUR/Modesta Ndubi

Há 15 anos, criminosos armados forçaram a família da sudanesa de Rawda Yusuf a fugir para o Chade. A família morava em uma aldeia no estado de Darfur do Norte, no Sudão. Desde então, seu país natal esteve sempre seus pensamentos, mas o retorno não está sendo fácil.

A provação começou em uma tarde durante a estação da colheita na aldeia de Kurgei West. “Saí para ver o que estava acontecendo e vi homens armados”, lembra a mulher de 42 anos. “Havia nuvens de fumaça e muita agitação”. Ela fugiu do ataque com seus dois filhos.

Mais de 600 mil refugiados escaparam do conflito na região de Darfur, no Sudão, que começou em 2003. Metade foi para o Chade e outros 1,9 milhão são deslocados internos no próprio Sudão.

A assinatura de um acordo tripartite em 2017 entre Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Sudão e Chade trouxe esperança para Rawda e milhares de deslocados do país.

Hoje, Rawda tem quatro filhos e em novembro do ano passado escolheu voltar para casa. “Eu vi isso como um novo começo para mim e meus filhos”, diz Rawda, que esperava retomar sua vida como agricultora.

Mas, por enquanto, devido à falta de segurança e de serviços básicos, ela está vivendo em um campo no Sudão para deslocados internos.

“Quando chegamos ao Sudão, eu estava pronta para voltar para casa, mas fui informada pelos vizinhos de que haviam retornado à minha vila e que minha terra estava ocupada por outras pessoas”, diz.

Rawda está entre os cerca de 4.000 refugiados sudaneses que retornaram do Chade desde 2017. Mas a falta de serviços básicos, como hospitais, água e escolas, tornou mais difícil a tarefa de reconstruir suas vidas e os temores de novos ataques ainda persistem.

O país também abriga mais de 1,1 milhão de refugiados —  a maioria deles do Sudão do Sul. São necessários recursos para refugiados que vivem na República Centro-Africana, Chade, República Democrática do Congo, Eritreia, Etiópia, Somália, Sudão do Sul, Síria e Iêmen.

O Sudão também continua recebendo refugiados e retornados.

O número de refugiados da República Centro-Africana e de partes remotas dos estados centrais e do sul de Darfur cresceu de pouco mais de 5 mil para quase 17 mil no último trimestre de 2019.

O Sudão já enfrenta uma grave crise econômica que pressiona as comunidades anfitriãs, uma vez que os recursos locais são escassos.

O ACNUR lançou um apelo de financiamento de 477 milhões de dólares para a resposta aos refugiados. A agência das Nações Unidas, juntamente com mais de 30 parceiros, está pedindo mais suporte internacional para apoiar a construção da paz e ajudar milhões de deslocados e seus generosos anfitriões em todo o Sudão.

“O Sudão tem uma longa história de acolhimento de refugiados e solicitantes de refúgio, mas também luta com seu próprio deslocamento interno, enquanto enfrenta uma grave crise econômica. Nosso chamado acontece em um momento em que o país está passando por uma transição política histórica e exige solidariedade internacional para alcançar a paz e a estabilidade”, disse o porta-voz do ACNUR, Babar Baloch.

No ano passado, a operação do ACNUR no Sudão foi uma das menos financiadas do mundo e apenas 32% dos 269 milhões de dólares necessários foram arrecadados.

Faça uma doação agora e ajude famílias como a de Rawda a recomeçar suas vidas em segurança.