Somália: Mais de 58 mil crianças poderão morrer de fome se financiamento não for ampliado

Relatório da FAO alerta que situação da segurança alimentar e da desnutrição no país é “alarmante”, intensificada pelas secas decorrentes do ‘El Niño’. Coordenador humanitário da ONU disse que parceiros humanitários estão prontos para ampliar resposta, mas financiamento ainda não cobre todas as atividades. Plano humanitário pede 885 milhões de dólares para atender as necessidades mais urgentes de 3,5 milhões de pessoas.

Uma mãe cuida de seu bebê desnutrido e desidratado no Hospital de Banadir, na capital somali, Mogadíscio. Foto: ONU/Stuart Price

Uma mãe cuida de seu bebê desnutrido e desidratado no Hospital de Banadir, na capital somali, Mogadíscio. Foto: ONU/Stuart Price

Uma nova avaliação da ONU sobre segurança alimentar e nutrição alertou na última semana que a situação na Somália é “alarmante” e pode piorar, especialmente em partes de Puntlândia e Somalilândia. Estas duas áreas, lembrou a ONU, foram duramente atingidas pelas secas, que pioraram por conta do fenômeno climático ‘El Niño’.

“Estamos profundamente preocupados com o fato de que a proporção de pessoas em situação de insegurança alimentar grave continue a ser alarmante, especialmente as pessoas que são incapazes de satisfazer as suas necessidades alimentares diárias. Cerca de 3,7 milhões de pessoas estarão sofrendo com insegurança alimentar aguda até meados de 2016. Com as condições de seca severa se intensificando em Puntlândia e Somalilândia, muito mais pessoas correm o risco de serem atingidas pela crise”, disse Peter de Clercq, coordenador humanitário da ONU no país, em um comunicado de imprensa.

A análise, produzida em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), confirma os níveis persistentemente altos e alarmantes de insegurança alimentar e desnutrição na Somália, com um número estimado de 4,7 milhões de pessoas – cerca de 40% da população somali – necessitando de assistência humanitária.

Ainda de acordo com a análise, quase 950 mil dessas pessoas têm níveis de insegurança alimentar agudos e lutam todos os dias para satisfazer as suas necessidades alimentares. Pessoas internamente deslocadas constituem mais de dois terços – ou 68% – das pessoas com insegurança alimentar aguda e estão em necessidade urgente de assistência humanitária.

“O nível de desnutrição, especialmente entre as crianças, é de grande preocupação, com cerca de 305 mil crianças menores de cinco anos sofrendo de desnutrição aguda. Estimamos que 58,3 mil crianças poderão morrer se não forem tratadas. A seca poderia piorar esses números nos próximos meses. Temos de agir agora. Parceiros estão prontos para intensificar a resposta, mas o financiamento é urgentemente necessário para garantir que isso seja feito em tempo hábil”, acrescentou Clercq.

O Plano de Resposta Humanitária de 2016 para a Somália chama por um total de 885 milhões de dólares para atender as necessidades mais urgentes de 3,5 milhões de pessoas. O objetivo do Plano (acesse aqui) é reduzir as mortes evitáveis, fornecer serviços básicos e reforçar a proteção das pessoas mais vulneráveis, incluindo deslocados internos. Saiba como apoiar aqui.

Modelo eleitoral em debate

No início de fevereiro, o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Políticos, Jeffrey Feltman, visitou o país para manter o diálogo com líderes somalis na capital Mogadíscio, em uma demonstração de apoio ao processo de escolha do modelo eleitoral a ser usado ainda este ano. As eleições são um passo importante para tirar a Somália de décadas de guerra entre facções.

Feltman se reuniu com o presidente somali, Hassan Sheikh Mohamud, e com o porta-voz do Parlamento Federal, Mohamed Sheikh Osman Jawari, no dia 3 de fevereiro para entregar uma mensagem do secretário-geral, Ban Ki-moon. No texto, ele reforça o apoio da ONU à população para chegar a acordo sobre um processo eleitoral a ser adotado ainda em 2016.

O representante da ONU reconheceu que ainda há muito trabalho a ser feito para tornar o roteiro do processo eleitoral um sucesso. “O representante especial [do secretário-geral da ONU no país, Michael Keating] e eu conversamos com o presidente sobre uma série de questões de segurança, políticas e econômicas em que a ONU está trabalhando com o povo e os líderes da Somália”, disse.

O modelo prevê uma Câmara de 275 membros, com base na manutenção da fórmula de partilha de poder entre os clãs, e um Senado de 54 membros com base na representação igualitária dos Estados-membros federais existentes, futuros e emergentes, bem como a criação de cadeiras adicionais para Puntlândia e Somalilândia.

Feltman elogiou os esforços do governo de garantir que 30% dos membros das duas casas sejam mulheres, saudando também o compromisso de continuar a trabalhar para a realização de uma sistema eleitoral universal – em que cada indivíduo vota – até 2020. Mesmo não sendo o modelo ideal, o subsecretário-geral da ONU reconheceu os avanços no diálogo nacional.