Soldados malineses estão perseguindo minorias étnicas, alerta ONU

Violência seria represália por suposto apoio a grupos armados. Situação foi agravada por mensagens provocativas estigmatizando as comunidades. Milhares fugiram.

Vice-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Kyung-wha Kang. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

Vice-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Kyung-wha Kang. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

A recente intervenção militar no norte do Mali foi seguida por uma grave intensificação da violência retaliativa, por parte do Exército do país, aparentemente direcionada aos membros de etnias tidas como apoiadoras de grupos armados – peul, tuaregue e árabe -, alertou na terça-feira (12) a Vice-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Kyung-wha Kang.

“A situação foi agravada pela propagação de mensagens provocativas, também por meio da mídia, estigmatizando membros dessas comunidades, das quais milhares fugiram por medo de represália por parte do Exército do Mali”, afirmou Kang ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, na Suíça.

“Aqueles que permaneceram no país estão com medo de serem alvos não pelo que fizeram, mas por quem são”, acrescentou Kang, ao apresentar relatório sobre os direitos humanos no Mali.

O documento é baseado nos relatos de duas missões enviadas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) ao país no fim do ano passado, abrangendo o período de 17 de janeiro até 20 de novembro de 2012.

O estudo destaca as violações dos direitos humanos cometidos, principalmente, pelos vários grupos armados que controlavam as três principais regiões do norte do Mali – Kidal, Gao e Timbuktu -, mas também levanta algumas questões de preocupação no sul.

O relatório também mostra que, nos territórios controlados pelo Governo, a situação em relação à administração da justiça, liberdade de expressão e direito à informação continua preocupante. O documento refere-se a casos de integrantes das forças militar e policial que teriam sido detidos e torturados em Bamako, capital do país, sem quaisquer garantias judiciais reais. Apesar da boa fé expressada pelas autoridades, alarmantemente, inquéritos judiciais estão parados.

Entre as questões de direitos humanos que necessitam de uma atenção mais urgente estão o deslocamento de populações no norte do Mali, o aumento na incidência das violações de direitos humanos por motivos étnicos, incluindo a violência; e a insuficiência contínua de resposta do Governo às violações de direitos humanos, incluindo os desafios na administração da justiça.

O norte do Mali foi ocupado por radicais islâmicos após o início dos combates entre as forças governamentais e os rebeldes tuaregues em janeiro de 2012. O conflito deslocou centenas de milhares de pessoas e levou o Governo do Mali a solicitar a assistência da França para deter o avanço militar de grupos extremistas. Tropas francesas chegaram ao país no início deste ano.

Para ler o relatório em inglês, clique aqui.