Sobrinho de Sérgio Vieira de Mello lembra história do ex-comissário da ONU no Dia Mundial Humanitário

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“O trabalhador humanitário, herói da paz, anônimo, arriscando sua vida por pessoas que nunca viu e muitas vezes nem sua língua falam, é motivo de orgulho”, declarou André Simões, sobrinho do ex-alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, falecido em 19 de agosto de 2003.

A data foi escolhida pela ONU como o Dia Mundial Humanitário, lembrado anualmente. Em depoimento especial para as Nações Unidas, André lembra a relação e admiração pelo tio.

Sérgio Vieira de Mello. Foto: ONU/Ky Chung

Sérgio Vieira de Mello. Foto: ONU/Ky Chung

As Nações Unidas lembram, em 19 de agosto, o Dia Mundial Humanitário. A data foi escolhida em tributo às pessoas mortas no atentado à sede do organismo em Bagdá, no Iraque, em 2003. No ataque terrorista, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então alto-comissário para os Direitos Humanos, e outros 21 funcionários perderam a vida. Em entrevista e texto para a ONU, o sobrinho do dirigente, André Simões, lembra a tragédia.

TVs a cabo

Naquela manhã de inverno no Brasil, André estava no trabalho, no Rio de Janeiro, quando começaram a entrar os primeiros flashes de notícias das TVs a cabo internacionais sobre um ataque terrorista à ONU, em Bagdá.

André, o neto mais velho da mãe de Sérgio – a embaixatriz Gilda Vieira de Mello -, telefonou imediatamente para a residência da avó e pediu às pessoas na casa que desligassem todos os aparelhos de rádio e televisão e que tirassem o telefone do gancho. Com a confusão inicial sobre informações desencontradas, ele não queria que a mãe ficasse sabendo pelos meios de comunicação da gravidade da situação em que estava envolvido seu filho.

Foram horas e horas de agonia e incerteza que André jamais havia imaginado presenciar. “A nossa vida mudou para sempre naquele 19 de agosto”, contou ao serviço de notícias da ONU em português, a ONU News. “A partir daquela data, passei a contemplar a vida de outra forma, de uma maneira mais espiritualizada”, explica André, que era também afilhado de Sérgio Vieira de Mello.

Hotel Canal

As redes de TV internacionais com acesso ao Hotel Canal — prédio da ONU em Bagdá atingido pelo atentado — afirmavam que o chefe da Missão da ONU no Iraque havia sobrevivido e que conversava com um guarda norte-americano, que estava no local à espera do resgate. As notícias diziam que Sérgio perguntava pela gravidade do ocorrido e pelos colegas. Ele estava ferido, mas lúcido, segundo informes.

Na sede da ONU, em Nova Iorque, e em outras partes do mundo, a esperança era de que o alto-comissário e outros presos nos escombros da explosão, causada por um caminhão bomba repleto de dinamites, pudessem sobreviver.

Mas após algumas horas, o otimismo minguava, como lembra André: “Eu recebi uma ligação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, dizendo que o Sérgio havia falecido. E eu disse: ‘Como assim? Sérgio não morre’. Era o que eu pensava. E não morreu mesmo, ele continua vivo”.

Lembranças

André Simões lembra que o tio o chamava de “rapaz”, mas ele jamais teve cerimônias e só se referia a Vieira de Mello como “tio Sérgio” na frente de estranhos. “Lá em casa, era sempre Sérgio. Ele era amigo. Eu tenho saudades dos mergulhos na Praia do Arpoador e depois da feijoada na casa da vovó.”

Sérgio tinha apenas 18 anos de idade quando batizou André ainda bebê. A amizade entre os dois era sólida, bonita, ainda que não se vissem com a frequência desejada. Um dia, ele perguntou ao tio-padrinho: “Sérgio, por que você se arrisca tanto indo para esses lugares tão perigosos?”. E a resposta do trabalhador humanitário por excelência veio sem titubear: “Porque é lá que as pessoas precisam de mim”.

Sérgio e André. Foto: Arquivo pessoal

Sérgio e André. Foto: Arquivo pessoal

André lembra que a frase contundente era acompanhada de um largo sorriso e alegria contagiante. Sérgio amava cada segundo do que fazia.

Com Vieira de Mello naquele 19 de agosto de 2003, partiram mais outros 21 funcionários das Nações Unidas. Eles estavam entre os mais brilhantes e competentes servidores da Organização, que dedicaram suas vidas à construção de um mundo melhor e à própria humanidade.

Sobrinho de Vieira de Mello escreve depoimento para a ONU:

Para homenagear as vítimas do atentado de 2003 e celebrar a dedicação de todos os trabalhadores humanitários, André Simões preparou um texto especial para a ONU News, por ocasião do Dia Mundial. Leia abaixo na íntegra:

“Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2017.

Quatorze anos se passaram desde o dia que tudo mudou em nossas vidas. A bomba que explodiu o escritório da ONU em Bagdá no dia 19 de agosto de 2003 interrompeu cedo demais o trabalho do meu tio Sergio, aos 55 anos, e de seus 21 colegas mais brilhantes.

Deixou 168 feridos pelo solo e milhões de vulneráveis pelo mundo. Sua equipe se sacrificou pelos valores da Paz, da Dignidade Humana e da Reconciliação entre povos.

Sergio era meu tio e padrinho. Era padrinho meu e de milhares de pessoas que cruzaram o seu caminho de várias maneiras.

E em toda reflexão por um mundo melhor inspirada por ele.

Na ONU, suas equipes, suas missões sempre buscaram minimizar o sofrimento dos vulneráveis.

O trabalhador humanitário, herói da paz, anônimo, arriscando sua vida por pessoas que nunca viu e muitas vezes nem sua língua falam, é motivo de orgulho.

Sergio nasceu junto (no mesmo ano) com a Declaração dos Direitos Humanos, no ano de 1948, e dedicou sua carreira a dar sentido a cada um dos seus 30 artigos.

Não foi o ideal, mas conseguiu transmitir o que ele queria: a promoção do diálogo para solução do conflito como linha de pensamento Sérgio Vieira de Mello.”

Neste Dia Mundial Humanitário, a ONU lançou a campanha #NãoÉAlvo” — Not A Target, em inglês —, iniciativa de conscientização sobre a necessidade de proteger civis e profissionais humanitários em zonas de conflito. Saiba mais em http://bit.ly/DiaMundialHumanitarioONU.


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