Sob cerco e ataques, Alepo pode se tornar ‘enorme cemitério’, alerta ONU

No leste de Alepo, porção sitiada da cidade na Síria, cirurgias médicas são realizadas em porões sem as condições sanitárias adequadas e sem anestesia. Quatrocentas pessoas precisam ser evacuadas imediatamente da região para receber cuidados médicos. Ataques nas duas últimas semanas forçaram deslocamento de 25 mil pessoas.

Criança na frente de escola destruída após bombardeio na vila de Ainjara em Alepo, na Síria: Foto: UNICEF/Khalil Alshawi

Criança na frente de escola destruída após bombardeio na vila de Ainjara em Alepo, na Síria: Foto: UNICEF/Khalil Alshawi

No leste de Alepo, porção sitiada da cidade na Síria, cirurgias médicas são realizadas em porões sem as condições sanitárias adequadas e sem anestesia. A informação foi divulgada nesta semana (1) pelo assessor especial da ONU para o país, Jan Egeland, um dia após o Conselho de Segurança das Nações Unidas ser alertado por funcionários da própria Organização de que a região pode se tornar “um enorme cemitério”, caso os cercos não sejam suspensos.

“No mês inteiro de novembro, um mês crucial para a reposição de suprimentos (antes do inverno chegar), alcançamos apenas 8% das pessoas nas zonas sitiadas”, disse Egeland durante coletiva de imprensa em Genebra. O dirigente afirmou também que o plano humanitário para dezembro ainda carecia de uma aprovação do governo, mesmo o mês já tendo começado.

Atualmente, segundo Egeland, 400 pessoas precisam ser evacuadas imediatamente do leste de Alepo para receber tratamento médico.

O assessor especial informou ainda que campanhas de imunização em toda a Síria obtiveram resultados “desesperadamente inferiores” aos esperados: apenas 17% e 25% das crianças tomaram vacinas em novembro e outubro, respectivamente.

Conselho de Segurança deve suspender hostilidades

Também presente na coletiva, o enviado da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, enfatizou que “a necessidade mais urgente é de abrigos, particularmente com o inverno que se aproxima”.

O representante das Nações Unidas também solicitou que combatentes da Frente Al-Nusra deixem Alepo. “Isso contribuiria para evitar (novos) derramamentos de sangue e aumentar nossa influência para insistir por uma pausa (humanitária)”, disse.

Na véspera, em sessão do Conselho de Segurança, Mistura alertou os Estados-membros que integram o organismo de que a “tragédia humanitária” na cidade sitiada se deteriorou com os ataques aéreos e por terra ao longo das últimas duas semanas. Ofensivas forçaram cerca de 25 mil pessoas a abandonar suas casas.

Mistura também chamou atenção para o fato de que a guerra continua em outras regiões da Síria, como Idlib, Hama, al-Waer, Homs, o norte de Latakia, a Ghouta Ocidental e Ocidental e o noroeste de Damasco.

O chefe humanitário da ONU, Stephen O’Brien, disse aos membros do Conselho que em nenhum outro lugar da Síria a crueldade do conflito foi tão terrivelmente testemunhada como em Alepo, como bombas e mísseis atingindo escolas, hospitais, casas, mercados públicos, estações de armazenamento de água e geração de eletricidade.

Lamentando que nesta semana dezenas de civis foram mortos por novos ataques, O’Brien disse que “pode ser tarde demais para muitas pessoas do leste de Alepo, mas certamente esse Conselho pode se unir, interromper as hostilidades e também prevenir que um destino similar recaia sobre outros sírios”.

O que deve ser feito, segundo o dirigente, é garantir o respeito e a proteção reais de civis e da infraestrutura civil, o acesso rápido, livre e seguro da ajuda humanitária e o fim de cercos brutais de uma vez por todas.