Situação do Sudão do Sul é ‘desoladora e inimaginável’, alerta ator Tom Hiddleston

Tom Hiddleston conheceu os irmãos Buom, de 12 anos (à direita), e Jal, de nove (à esquerda), no campo de Bentiu, no Sudão do Sul. Eles se separaram da mãe em dezembro de 2013, mas em breve vão reencontrá-la com o apoio do programa do UNICEF de reunificação parental. Foto: UNICEF / Modola

“Todos que eu conheci viveram acontecimentos traumáticos pelos quais ninguém — muito menos crianças — jamais deveria ter de passar. É desolador ver que, após três anos, crianças inocentes ainda têm de aguentar a violência do conflito.”

É assim que o ator britânico e embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Tom Hiddleston, descreve o que viu no Sudão do Sul, após visita ao norte do país no final de novembro para conhecer crianças que conseguiram escapar de violações dos direitos humanos e do recrutamento como soldados. Hoje, elas vivem no maior campo para deslocados internos da nação africana, localizado em Bentiu.

O local é o lar de 108 mil pessoas, que recebem alimentos, água e atendimento médico da agência da ONU. Muitas dos jovens com quem Hiddleston conversou moram no acampamento desde o início dos confrontos. Mais de 860 mil crianças sul-sudanesas são consideradas “psicologicamente traumatizadas”, segundo o UNICEF.

“Do ponto de vista geográfico, quando um confronto começa, todos correm em direções diferentes. Crianças se separam de suas famílias — de suas mães, tias, irmãos, de quem quer que esteja cuidando delas — e ficam imediatamente vulneráveis a abusos físicos e psicológicos, fome e recrutamento forçado”, comentou o ator.

Em Bentiu, o embaixador do UNICEF conheceu dois irmãos que se perderam da mãe durante as hostilidades de dezembro de 2013. Os garotos passaram os últimos três anos morando com o vizinho. Com o programa de reunificação familiar da agência da ONU, conseguiram localizar a mãe e devem reencontrá-la num futuro próximo.

“Eu vi coisas no Sudão do Sul que ficarão comigo para sempre. É o país mais novo do mundo, um país que deveria ter tantas esperanças para o futuro, mas as condições nas quais aqueles meninos têm de viver, um lugar ainda arrasado pela guerra civil, são inimagináveis. Saber que eles vão rever a mãe logo é, pelo menos, um sinal de esperança na imensa batalha do povo do Sudão do Sul”, diz Hiddleston.

Crise no Sudão do Sul

Em fevereiro de 2015, o ator já havia ido ao Sudão do Sul para ver em primeira mão as ações da agência da ONU em resposta à crise humanitária. Agora, mais de um ano depois, o britânico encontrou um cenário marcado pelo aumento da insegurança, da fome e dos riscos à saúde.

Colheitas menores do que o esperado e surtos de cólera ameaçam os sul-sudaneses mais novos. Apenas em 2016, 170 mil crianças receberam tratamento para má nutrição.

Há poucas semanas, 145 crianças foram soltas por grupos armados que as usavam como soldados. Foi a segunda maior libertação de menores desde 2015, quando 1.775 jovens também se viram livres de militares que os forçavam a integrar seus efetivos.

Desde o início de guerra civil em dezembro de 2013, mais de 14 mil crianças — que estavam desaparecidas ou desacompanhadas — foram identificadas. Desse contingente, 4.484 conseguiram voltar para suas famílias por meio da iniciativa do UNICEF que rastreia parentes desses jovens. Estimativas coletadas pela agência da ONU indicam que, ao longo do conflito, 17 mil foram recrutados para atuar como crianças-soldado.

Cerca de 3 milhões de sul-sudaneses foram forçados a abandonar suas casas por conta dos confrontos, buscando segurança em outras partes do país ou em nações vizinhas. O número de deslocados inclui 1 milhão de crianças que continuam no Sudão do Sul e meio milhão de jovens que cruzaram fronteiras e se tornaram refugiados.