Situação de segurança na Síria se agrava e impede acesso de ajuda humanitária

Comboios de suprimentos do ACNUR tiveram de ser cancelados ou atrasados. A ONU também decidiu reduzir temporariamente a presença de pessoal internacional na capital, Damasco.

Refugiados sírios esperam em um centro de distribuição do ACNUR no campo de refugiados de Za'atari, na Jordânia. Foto: ACNUR/J. Tanner

Refugiados sírios esperam em um centro de distribuição do ACNUR no campo de refugiados de Za’atari, na Jordânia. Foto: ACNUR/J. Tanner

O Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) reiterou nesta terça-feira (26) o seu apelo a todas as partes do conflito na Síria para garantir a passagem segura de comboios que transportam ajuda humanitária aos civis.

“No atual ambiente de segurança, vários comboios tiveram de ser cancelados ou atrasados. Isto está privando muitas sírios de ajuda essencial”, afirmou o porta-voz do ACNUR, Adrian Edwards.

O ACNUR tem trabalhado para expandir suas operações e está trabalhando com as partes governamentais e não governamentais para que o socorro chegue a quem precisa. “No entanto, no momento a assistência alcança apenas uma fração dos necessitados”, observou Edwards.

A ONU estima que pelo menos 3,6 milhões de pessoas estejam deslocadas internamente na Síria como resultado do conflito que começou há dois anos.

Na segunda-feira (25), a ONU decidiu reduzir temporariamente a presença de pessoal internacional na capital, Damasco, devido às condições de segurança. A maior parte dos funcionários que ficavam no Escritório do Representante de Conjunto para a Síria, Lakhdar Brahimi, está sendo temporariamente transferida para Beirute, no Líbano, e para a sede do Escritório Principal do Representante Especial Conjunto no Cairo. Os funcionários sírios do escritório devem trabalhar a partir de casa, até novo aviso.

“Desde o início deste ano conseguimos entregar ajuda humanitária em Deir Ezzor, Dara’a, Raqqah, Idlib e Hama. Em 2012 ampliamos nossa já existente presença em Damasco, Aleppo e Al-Hassakeh com novas instalações em Al-Nabek e Homs. Isto nos aproximou dos locais onde se concentram os deslocados e outras populações afetadas.”

O porta-voz do ACNUR afirmou ainda que o objetivo da agência é entregar itens emergenciais a pelo menos um milhão de pessoas até junho de 2013. Até a última quarta-feira (20), o ACNUR já tinha distribuído kits para 437 mil pessoas nas principais províncias afetadas, incluindo Aleppo, Al-Hassakeh, Raqqah, Damasco, Dara’a, Deir Ezzor, Hama e Idlib.

Em 2013 o ACNUR entregou itens de emergência a mais de 437 mil pessoas nas províncias mais afetadas pelo conflito sírio, como Aleppo, Al-Hassakeh, Raqqah, Damasco, Dara'a, Deir Ezzor, Hama e Idlib. Gráfico: ACNUR

Em 2013 o ACNUR entregou itens de emergência a mais de 437 mil pessoas nas províncias mais afetadas pelo conflito sírio, como Aleppo, Al-Hassakeh, Raqqah, Damasco, Dara’a, Deir Ezzor, Hama e Idlib. Gráfico: ACNUR. Clique sobre a imagem para ampliá-la.

Entre os itens estão camas, material para abrigo, equipamentos domésticos e roupas. Eles foram entregues diretamente pelo ACNUR, por ONGs locais e pelo Crescente Vermelho Árabe Sírio (SARC, na sigla em inglês). Desde o início do ano quatro comboios seguiram para o norte do país, um deles organizado conjuntamente por diversas agências das Nações Unidas.

O mais recente partiu de Damasco para Tal Abiyad, na província de Raqqah. Organizado pelo SARC, o comboio de sete caminhões levou 130 toneladas de material e chegou ao seu destino em 18 de março. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) também enviou quatro caminhões com 5 mil cestas básicas.

Em 2012, assistência financeira do ACNUR chegou a 14.607 famílias em Damasco

A assistência financeira para os deslocados continua sendo prioridade na Síria. Em 2012, o ACNUR conseguiu distribuí-la a 14.607 famílias em Damasco. No entanto, os planos de expansão deste programa em Homs foram atrasados pela falta de segurança. O ACNUR espera reativar o programa nas próximas semanas.

A coordenação do trabalho humanitário na Síria é feita pela Agência das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA). O ACNUR administra três setores: a distribuição de itens domésticos, apoio para albergamento e serviços comunitários – como visitas domiciliares, administração de centros comunitários e linhas telefônicas de emergência. Está envolvido ainda nos grupos de agências que trabalham com educação, saúde, água e saneamento.

Os 70 mil refugiados do Iraque, Afeganistão e Somália que vivem na Síria estão enfrentando os mesmos perigos e dificuldades que os sírios deslocados no país. Muitos destes refugiados possuem recursos limitados, uma vez que perderam seus empregos e também foram deslocados em virtude do conflito sírio.

O porta-voz do ACNUR afirmou que a agência tem recebido relatos de ameaças contra refugiados e sequestros. Um afegão foi morto quando um morteiro atingiu sua casa.

“As crianças refugiadas são particularmente vulneráveis, algumas enfrentam questões psicossociais e muitas precisam abandonar a escola”, disse ele, acrescentando que a assistência aos refugiados inclui auxílio financeiro e acesso à saúde. “O reassentamento é a uma prioridade importante para aqueles que não podem voltar ao seu país de origem”, disse citando os refugiados do Iraque, Somália, Afeganistão, assim como os palestinos.

Pelo menos 76 mil refugiados iraquianos voltaram para casa desde o início do conflito na Síria, apesar de as condições em seu país de origem estarem longe do ideal. Após a chegada ao Iraque e o registro das autoridades, o ACNUR provê a estes retornados itens domésticos e uma assistência única de US$ 400 por família ou US$ 200 para solteiros. De novembro de 2012 até o final de janeiro deste ano, 3.116 famílias – cerca de 18 mil pessoas – tinham sido beneficiadas pela assistência.