Situação da Síria continua ‘catastrófica’ apesar da retirada de civis em Alepo, alerta ONU

Mulheres do leste de Alepo recebem refeições após deixar parte da cidade sob cerco. Foto: PMA / Hani Al-Homsh

Operações que retiraram mais de 35 mil pessoas de áreas sob cerco no leste de Alepo ao longo da semana passada podem ter aliviado o sofrimento de uma parte da população síria, mas “a situação do país em guerra continua catastrófica”.

O alerta é do diretor de operações do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), John Ging, que informou o Conselho de Segurança da ONU na última sexta-feira (23) sobre obstáculos que agências de assistência humanitária têm enfrentado para atender os sírios.

O dirigente ressaltou que, após a aprovação pelo Conselho de um mecanismo de monitoramento das evacuações em Alepo, cerca de 20 mil pessoas foram retiradas de zonas sitiadas e sob controle de grupos de oposição.

Devido à falta de aprovação pelo governo
da Síria, a equipe da ONU não teve acesso
ao leste de Alepo nos últimos meses.

Ao longo das operações, foram utilizados 308 ônibus, 62 ambulâncias e 1.231 veículos privados que conseguiram passar por pontos de vistoria das áreas sob cerco e chegar ao oeste da cidade, à zona rural e ao município de Idlib, no noroeste da Síria. Cerca de 1,3 mil sírios foram evacuados de Foah e Kefrayeh, duas localidades que também estavam sitiadas.

Apesar desses avanços positivos, 13,5 milhões de pessoas na Síria precisam urgentemente de assistência humanitária. Desse contingente, 9 milhões estão passando fome. Ging enfatizou que muitos indivíduos, sobretudo crianças, enfrentam traumas físicos e psicológicos devido à escassez de recursos, aos bombardeios e ataques.

Burocracia do governo sírio dificulta entrega de ajuda

O representante do OCHA informou ainda que agentes humanitários continuam tendo seu trabalho limitado por causa da violência e também por conta de questões administrativas envolvendo as autoridades sírias. De acordo com Ging, liberações de profissionais e comboios demoram a ser aprovadas, o que prolonga o tempo durante o qual as vítimas da guerra ficam sem acesso a comida, água e cuidado médico.

“Devido à falta de aprovação pelo governo da Síria, a equipe da ONU não teve acesso ao leste de Alepo nos últimos meses, mas, desde 15 de dezembro, (ela) assumiu uma função de observação e monitoramento, ficando estacionada próxima ao relógio que fica perto do posto de vistoria de Ramouseh, na parte de Alepo controlada pelo governo”, explicou o funcionário das Nações Unidas.

Um novo compromisso político pela paz
será necessário se quisermos que 2017 ofereça
alguma perspectiva diferente da morte e
da destruição dos últimos cinco anos.

“O que havia sido reduzido a processo de duas etapas durante o ano voltou a ser um processo de dez etapas e nós só obtivemos um aval certo do governo sírio para um comboio até o momento neste mês, alcançando 6 mil pessoas”, destacou Ging, que disse ter recebido aprovações iniciais para levar ajuda a 800 mil pessoas em dezembro.

O representante do OCHA expressou ainda estar preocupado com a situação de Idlib, que pode se tornar uma nova Alepo caso a região se torne o foco de uma nova — e mais intensa — ofensiva. A província de Idlib abriga atualmente 2 milhões de pessoas, das quais 700 mil são deslocados internas. Esse contingente inclui os 35 mil que deixaram Alepo em dezembro.

A ONU já atua na região com programas que, mensalmente, distribuem alimentos para 700 mil pessoas e prestando atendimento médico a 340 mil indivíduos, além de levar água e saneamento para outros 230 mil sírios. Ging alertou, porém, que o financiamento das ações humanitárias estão diminuindo e que esforços precisam dobrar para atender a população.

O dirigente afirmou estar otimista quanto à retomada dos diálogos de paz entre as partes da guerra, previstos para recomeçar em fevereiro. “O número dos que estão morrendo, sofrendo e sendo deslocados continua a aumentar conforme nós chegamos ao fim de 2016. Um novo compromisso político pela paz será necessário se quisermos que 2017 ofereça alguma perspectiva diferente da morte e da destruição dos últimos cinco anos”, disse.