Síria: Primeira rodada de negociações de paz termina hoje com pouco progresso, diz enviado da ONU

Partes admitem problema do terrorismo, mas, segundo negociador da ONU e da Liga Árabe, não houve “qualquer alteração importante em posições dos dois lados”. Acesso humanitário continua sendo problema.

Partes admitem problema do terrorismo, mas, segundo negociador da ONU e da Liga Árabe, não houve “qualquer alteração importante em posições dos dois lados”. Acesso humanitário continua sendo problema.

Uma menina síria refugiada segura seu irmão bebê na frente da barraca em que estão abrigados no campo de refugiados de Domiz, perto de Dohuk, na região do Curdistão no Iraque. Foto: ACNUR/B. Sokol

Uma menina síria refugiada segura seu irmão bebê na frente da barraca em que estão abrigados no campo de refugiados de Domiz, perto de Dohuk, na região do Curdistão no Iraque. Foto: ACNUR/B. Sokol

Depois de uma “tensa mas promissora” encontro na quinta-feira (30) entre representantes do governo sírio e o principal grupo de oposição para chegar a uma solução política para a guerra civil de três anos do país, o mediador da ONU e da Liga Árabe disse que a primeira ronda de conversações terminará nesta sexta-feira (31) sem nenhum avanço sério e nenhuma grande mudança na posição de ambos os lados.

Falando a jornalistas em Genebra, após o que ele descreveu como uma “reunião bastante longa”, onde os dois lados discutiram assuntos “sensíveis” sobre a situação da segurança e do terrorismo na Síria, o representante especial conjunto das Nações Unidas e da Liga dos Estados Árabes, Lakhdar Brahimi, disse que a primeira rodada de negociações seria encerrada depois de um pouco mais de uma semana.

“Amanhã de manhã será a nossa última sessão. Espero que tentemos tirar algumas lições sobre o que fizemos e ver se podemos nos organizar melhor para a próxima sessão. Acho que isso é o suficiente para um começo”, disse Brahimi, expressando a esperança de que, quando as negociações recomeçarem, provavelmente em fevereiro, “sejamos capazes de ter uma discussão mais estruturada”.

Desde que o conflito irrompeu em março de 2011 entre o governo e vários grupos que buscavam a derrubada do presidente Bashar al-Assad, mais de 100 mil pessoas foram mortas e cerca de 9 milhões expulsas de suas casas. Mais de 9,3 milhões de pessoas no país precisam de ajuda humanitária, disse a ONU, com mais de 2,5 milhões deles vivendo em áreas onde o acesso é seriamente limitado ou inexistente.

O objetivo das negociações em andamento na Suíça desde 24 de janeiro é o de obter uma solução política para o conflito sírio através de um acordo global entre os dois lados para a plena implementação do comunicado de Genebra, adotado após a primeira reunião internacional sobre a questão, em 30 de junho de 2012, e desde então aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU.

O comunicado estabelece passos-chave em um processo para acabar com a violência. Entre outros pontos, pede o estabelecimento de um órgão de governo de transição, com plenos poderes executivos e composto por membros do atual governo e da oposição, entre outros grupos, como parte de princípios e diretrizes para uma transição política liderada pelos sírios.

Acesso humanitário: decepção sobre falta de acordo até agora

Embora observando que os dois lados concordaram que “o terrorismo de fato existe na Síria e que é um problema muito sério”, Brahimi disse que não houve acordo sobre a forma de lidar com o tema. No entanto, as delegações rivais concordaram em realizar um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da guerra civil, “não importando a qual [lado] pertençam”.

No geral, Brahimi disse “não ter notado qualquer alteração importante, para ser honesto, em posições dos dois lados”, e expressou profunda decepção de que não houve nenhum movimento para permitir que comboios de ajuda humanitária da ONU entrem em Homs, ou para permitir que os civis deixem a cidade atualmente sitiada e sem acesso a suprimentos essenciais.

Representante especial conjunto da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

Representante especial conjunto da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi. Foto: ONU/Jean-Marc Ferré

“Estou muito, muito desapontado, porque a situação em Homs é ruim e tem sido ruim durante meses, anos até. Esse é o primeiro lugar onde um terrível combate e muito destruição têm ocorrido”, disse ele, embora acrescentando que as negociações sobre o acesso humanitário ainda estão em curso.

Brahimi também informou que as negociações ainda estão em curso em relação ao campo de refugiados de Yarmouk, em Damasco. Nesta quinta-feira (30), alguma ajuda chegou ao campo. “Portanto, ocorreu uma solução parcial em Yarmouk, mas nenhuma solução ainda em Homs”, disse ele.

A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) já havia confirmado que conseguiu entregar ajuda aos moradores presos em Yarmouk.

De acordo com o porta-voz da UNRWA, Chris Gunness, a Agência distribuiu mais de mil pacotes de comida para os palestinos no campo, o primeiro auxílio desde 21 de janeiro, quando havia distribuído 138 cestas básicas.

“Estamos entusiasmados com a entrega da ajuda e da cooperação das partes no terreno. Esperamos continuar e aumentar substancialmente o montante da ajuda a ser entregue porque o número de pessoas que necessitam de assistência está na casa das dezenas de milhares de pessoas”, disse Gunness, destacando que o número inclui cerca de 18 mil palestinos, entre eles mulheres e crianças.

“Precisamos nos basear no desempenho modesto de hoje. A UNRWA e a comunidade internacional precisam urgentemente de acesso humanitário seguro, substancial e permanente”, disse.