Síria: ONU promete avançar com esforços para retirar de Alepo pessoas em necessidade

“Não estamos desistindo. Não podemos dizer a Fátima – uma criança síria de oito anos de idade – que ela não pode receber tratamento fora da área sitiada porque as condições não foram cumpridas em muitas outras áreas”, disse o conselheiro especial do enviado da ONU para a Síria. Suprimentos humanitários não são entregues no leste da cidade de Alepo desde final de junho.

“Os relatos dos ataques a escolas em Douma e na parte ocidental de Alepo devem aprofundar a nossa repulsa e indignação. Atacar escolas e matar crianças é simplesmente desumano. Se os perpetradores não conseguem encontrar o seu próprio senso de humanidade, eles deveriam prestar atenção à condenação do mundo”, disse o chefe do UNICEF.

Crianças andam por casas destruídas depois do primeiro dia de aula, no leste de Alepo, na Síria. Foto: UNICEF/Rami Zayat

Crianças andam por casas destruídas depois do primeiro dia de aula, no leste de Alepo, na Síria. Foto: UNICEF/Rami Zayat

Expressando profunda decepção com o fato dos doentes e feridos ainda não terem sido evacuados de Alepo, na Síria, o enviado especial da ONU para o país, Staffan de Mistura, prometeu na quinta-feira (27) avançar com os esforços para evacuar as pessoas com necessidades médicas urgentes e entregar assistência na região aos civis.

De acordo com a ONU, suprimentos humanitários não são entregues no leste da cidade desde final de junho.

“Esta é uma guerra feia, suja e horrível, por isso nunca ficamos surpresos quando as coisas dão erradas, com a falta de confiança ou pré-condições colocadas pelas partes em conflito”, disse Staffan de Mistura à imprensa, após uma reunião em Genebra da força-tarefa humanitária sobre a Síria.

Mistura também falou sobre o apoio dos países na reunião do grupo de trabalho e acerca da importância dos atores humanitários da ONU que atuam em campo, incluindo o coordenador humanitário Ali Al-Za’tari.

O conselheiro especial do enviado da ONU para a Síria, Jan Egeland, endossou a promessa de Mistura e disse que a organização não desistirá de retirar os necessitados de Alepo.

“Não estamos desistindo. Não podemos dizer a Fátima – uma criança síria de oito anos de idade – que ela não pode receber tratamento fora da área sitiada porque as condições não foram cumpridas em muitas outras áreas”, ressaltou.

Egeland informou que houve algum progresso em outras áreas, com mais de 180 mil pessoas alcançadas em regiões sitiadas em Al Waer, Moadamiyeh, Duma e Deir-ez-Zor. No entanto, ele acrescentou que os suprimentos cirúrgicos ainda não foram autorizados a ser entregues.

Diante da situação, o conselheiro especial pediu a todas as partes envolvidas no conflito que ajudem os atores humanitários a aliviar o sofrimento das pessoas, sobretudo tendo em conta que o inverno se aproxima.

“As evacuações médicas e a entrega de medicamentos e de suplementos alimentares são essenciais para os civis na cidade, e a proibição da assistência representa violação da lei humanitária”, frisou.

UNICEF condena ataque contra complexo escolar na Síria

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) condenou na quinta-feira (27) o ataque a uma escola na Síria que matou mais de 20 pessoas. O bombardeio ocorreu em Idlib, no noroeste do país árabe.

“Pensamos que tínhamos visto as profundezas da perversidade”, disse o diretor-executivo do UNICEF, Anthony Lake, referindo-se ao atentado.

“Os relatos dos ataques a escolas em Douma e na parte ocidental de Alepo devem aprofundar a nossa repulsa e indignação. Atacar escolas e matar crianças é simplesmente desumano. Se os perpetradores não conseguem encontrar o seu próprio senso de humanidade, eles deveriam prestar atenção à condenação do mundo”, acrescentou.

De acordo com Lake, desde 11 de outubro, cinco escolas foram atingidas por atentados.

ONU pede ação do Conselho de Segurança para pôr fim a ‘derramamento de sangue’

O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Stephen O’Brien, pediu na quarta-feira (26) ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para que aja imediatamente para pôr fim à violência na Síria e ao derramamento de sangue do povo sírio.

Desde o seu último apelo ao órgão da ONU, realizado em 29 de setembro, mais 400 sírios foram mortos e, pelo menos, 2 mil civis ficaram feridos em Alepo.

“Está nas mãos de vocês o poder de tomar o caminho certo e evitar essa tragédia irreversível de nosso tempo. Se vocês não agirem o quanto antes, não haverá povo sírio nem a Síria para salvar. Esse será o legado deste Conselho. A vergonha da nossa geração”, alertou aos membros do órgão.

Menino deslocado do conflito em curso na Síria lendo um livro em meio aos escombros de um edifício. Foto: UNICEF / Al-Issa

Menino deslocado do conflito em curso na Síria lendo um livro em meio aos escombros de um edifício. Foto: UNICEF / Al-Issa

Citando a catástrofe humanitária no leste de Alepo – região que não recebeu assistência da ONU em quase quatro meses e enfrenta bombardeio regular das forças sírias e russas –, ele disse que as práticas empregadas na cidade são “tão óbvias quanto inconcebíveis”.

“A estratégia é tornar a vida das pessoas em Alepo intolerável. Tornar a morte provável. Levar as pessoas da fome ao desespero”, frisou.

Diante da situação, o subsecretário-geral pediu que os moradores da cidade a deixem o quanto antes. “Esta é a última esperança. Se vocês não deixarem essas áreas com urgência, vocês serão aniquilados”, apelou aos moradores da região.

Ele observou ainda que as restrições de acesso das partes envolvidas no conflito continuam impossibilitando a entrega eficaz de ajuda, notadamente no leste da cidade de Alepo e em regiões de Damasco Rural.

Além disso, O’Brien destacou que as remoções de medicamentos essenciais e suprimentos médicos por parte das autoridades sírias continuam inabaláveis.

Ele observou que essas atitudes representam violações do direito internacional e das resoluções do Conselho, e têm a intenção deliberada de impor o sofrimento aos civis que vivem em áreas sitiadas e de difícil alcance.

Segundo o subsecretário-geral, a situação das crianças no país também é bastante crítica. Quase 8 milhões já perderam os pais, as suas casas, suas escolas e sofrem imensos traumas físicos e emocionais.