Síria: ONU e parceiros querem levar assistência a 1,1 milhão de pessoas antes do final de abril

Organizações humanitárias enfrentam obstáculos, como a apreensão de material de saúde e a proibição da entrada de equipes médicas mesmo em áreas já liberadas. Governo ainda mantém seis áreas sob cerco, como Daraya e Douma. Negociações de paz obtiveram avanços, mas aspirações dos lados opostos do conflito continuam distantes.

Crianças sírias buscam abrigo em campo na província de Aleppo. Foto: UNICEF / Giovanni Diffidenti

Crianças sírias buscam abrigo em campo na província de Aleppo. Foto: UNICEF / Giovanni Diffidenti

Organizações humanitárias permanecem sem permissão do governo da Síria para chegar a seis áreas ainda sob cerco no país. Mesmo nas regiões onde o acesso já foi liberado, pessoas estão morrendo, porque “nós não conseguimos passar com equipes médicas”, medicamentos, antibióticos e outros materiais de saúde, que são retirados dos comboios antes que eles consigam alcançar as populações sitiadas.

Este foi o alerta do conselheiro especial do enviado das Nações Unidas para a Síria, Jan Egeland. “No total, a meta é alcançar um número expressivo de 1,1 milhão de pessoas antes do final de abril, incluindo aquelas que continuam em áreas sob cerco, que são as seis sem permissão (do governo)”, afirmou na semana passada (17).

Entre os locais interditados à entrega de assistência humanitária, estão Daraya e Douma. A liberação do acesso a estas regiões não estava prevista pelo acordo de Munique, que autorizou a entrada em apenas 12 áreas sitiadas, além de estabelecer uma cessação de hostilidades desde o final de fevereiro.

Egeland espera que negociações com o governo facilitem a entrada nos enclaves restantes.

O conselheiro destacou que as quatro cidades – Madaya, Zabadani, Kefraya e Foah – já receberam o terceiro comboio humanitário desde o fim dos cercos. Permissões para outras 15 áreas consideradas de “difícil acesso” também foram emitidas, contemplando localidades em Aleppo e Homs, onde a população não recebia assistência há meses.

“Em termos de serviços médicos, eu também não consigo entender por que não podemos ir lá e ajudar os civis. Mesmo combatentes feridos têm o direito de serem tratados, de acordo com o direito internacional”, destacou Egeland a respeito das restrições impostas à entrega de assistência médica.

O representante da ONU espera dar início, ao final de abril, a uma campanha de vacinação que vai imunizar todas as crianças sírias ainda não vacinadas.

Egeland também falou sobre as tentativas de levar suprimentos para civis vivendo sob o cerco do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL), em Deir ez-Zor. O plano inicial da ONU era entregar mantimentos por lançamentos aéreos.

Devido ao temor de que o grupo terrorista talvez tenha mísseis terra-ar, as operações precisam ser realizadas de altitudes muito elevadas. Até o momento, duas tentativas fracassaram, pois os paraquedas não funcionaram. O conselheiro expressou esperança de que os lançamentos sejam realizados com sucesso num prazo de dez dias.

Liberação de detentos foi destaque de apelo e de negociações de paz

Quanto aos prisioneiros de guerra, Egeland ressaltou que “nada seria mais importante agora do que libertar alguns grupos, particularmente, mulheres, crianças, os doentes e os feridos entre os detidos”. A questão também foi mencionada pelo enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura.

Em pronunciamento na sexta-feira (18), Mistura destacou que é crucial negociar a volta de prisioneiros para suas famílias, independentemente do lado conflito ao qual pertencem.

O enviado informou ainda que os diálogos de paz obtiveram avanços ao longo da semana passada, principalmente devido ao engajamento das mulheres sírias participantes. Segundo Mistura, elas “têm sido muito ativas na tentativa de construir pontes entre as integrantes de diferentes delegações”.

O representante da ONU também elogiou o compromisso do Comitê de Altas Negociações dos grupos de oposição sírios. “Tenho que confessar que estou bastante impressionado pelo nível de profundidade com o qual eles têm estado prontos para negociar com os facilitadores, o mediador, minha equipe, com pontos substanciais no que diz respeito a sua própria visão de governança, portanto, de transição política”, disse Mistura.

Apesar de distantes, o enviado especial espera conseguir aproximar as aspirações da oposição e do governo ao longo dessa semana. O processo de transição política será um dos principais temas a ser debatido. A segunda rodada de negociações está prevista para se encerrar na próxima sexta-feira (25).