Sem educação, histórias de vida se repetem da pior forma, diz integrante do Dream Team do Passinho

Surgido em 2013, o grupo de funk do Rio Dream Team do Passinho tem um álbum lançado, o “Aperte o Play”, cuja música-título já teve mais de 15 milhões de visualizações no YouTube. Dois de seus integrantes, Rafael Mike e Lellêzinha, falaram ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) sobre seus sonhos e quais são, na opinião deles, os principais desafios da juventude brasileira, especialmente para os moradores das favelas.

Lellêzinha, 18 anos, disse ao UNFPA que seu sonho quando criança era ser igual à Beyoncé. Foto: UNFPA

Lellêzinha, 18 anos, disse ao UNFPA que seu sonho quando criança era ser igual à Beyoncé. Foto: UNFPA

Integrantes do grupo de funk Dream Team do Passinho, Lellêzinha e Rafael Mike, falaram ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) sobre o início de suas carreiras, seus sonhos e os principais desafios da juventude brasileira, especialmente nas regiões mais pobres do país.

O grupo, surgido em 2013, tem um álbum denominado “Aperte o Play”, cuja música-título já teve mais de 15 milhões de visualizações no site de compartilhamento de vídeos YouTube.

Aos 18 anos, Lellêzinha é a única menina e a integrante mais jovem do grupo de dançarinos. Nascida na zona oeste do Rio de Janeiro, ela começou a dançar aos 6, e seu sonho era ser igual à Beyoncé. “Eu era muito fã dela, ficava vendo o DVD e não sossegava enquanto não fazia igualzinho. Foi assim que cresci na dança, sempre amei dançar”, diz.

Aos 11 anos, ela começou a se interessar pelo Passinho, coreografias feitas ao som de funk. “Mas era um movimento bem masculino, não havia nenhuma menina e muitas pessoas me criticavam, diziam que não era coisa de mulher”, afirma. “Mas eu gostava daquilo! Não estava nem aí se era coisa de homem ou não”.

Lellêzinha participou, então, da Batalha do Passinho — um concurso de dançarinos de funk no Rio. “A gente tinha que criar a versão funk da música que seria o tema oficial da Copa para o Brasil inteiro pegar. Em uma semana a coreografia teve 1 milhão de visualizações e os contratantes começaram a ligar pedindo show de uma hora, só que a gente não era um grupo. Foi aí que a gente sentou e conversou: será que a gente vira um grupo?”.

Agora, três anos depois, ela diz que o sonho do Dream Team — também integrado por Diogo Breguete, Pablinho e Hiltinho — é levar o Passinho para o mundo e “elevá-lo como cultura, assim como o samba e o frevo”. “Levar a cultura do Passinho para o mundo é o meu sonho e é o sonho de todos os molequinhos da favela”, diz. O grupo tem contrato com a gravadora Sony Music.

Lellêzinha lembra que o zika tem afetado fortemente as favelas e que sua mãe contraiu o vírus. “Eu fico muito assustada, porque são pessoas, são seres humanos que trabalham, não podem ficar em casa, são pessoas que têm que correr atrás para colocar comida dentro de casa, e o zika exige repouso”.

“Eu acho que foi uma falta de cuidado, falta de saneamento, a gente passa muito isso dentro da comunidade”, diz. “O que mais me preocupa no Brasil é a educação e a saúde, é a falta de respeito pelas pessoas”. Segundo a artista, o grupo utiliza a arte para tratar de questões sociais e se manifestar no palco. “Mas e as pessoas que não têm onde se manifestar vão fazer o quê?”, questionou.

Conseguir se expressar pela arte

Aos 36 anos, Rafael Mike é o integrante mais velho do grupo. Músico, compositor, dançarino e apresentador, ele diz ter tido uma infância muito pobre e, por meio da arte, conseguiu se expressar e “buscar seu caminho”.

Rafael Mike afirma que pela arte conseguiu se expressar. Foto: UNFPA

Rafael Mike afirma que pela arte conseguiu se expressar. Foto: UNFPA

“Achei meus mapas, esses que me levariam a sobreviver a tudo que vem junto com o pacote da pobreza, suportando todas as tentações desse universo periférico, muitas vezes injusto e desequilibrado”, conta. “Hoje eu sou uma referência para outras gerações no país tendo como ferramenta a música e a dança”.

Para Rafael, a educação é o que mais lhe preocupa em relação à realidade brasileira. “Sem ela, as histórias de vida se repetem da pior forma. A largada de quem não tem acesso à educação é atrasada. Escola bem estruturada, com ensino de ponta, com boas referências artísticas e culturais é o que falta na favela, por exemplo”.

Na opinião de Rafael, a responsabilidade sobre o surto de zika que atualmente afeta o país não é só do mosquito transmissor, mas também da falta de saneamento básico nas comunidades mais pobres.

“A consciência de se preservar sexualmente e programas para dar suporte às mães e seus filhos com microcefalia é fundamental”, diz. “Muitas pessoas do meu bairro e alguns familiares, infelizmente, contraíram o vírus pelo mosquito. A Baixada Fluminense sofre há anos com surtos de dengue”, completa.

“Meu maior sonho é que o Brasil alcance um equilíbrio político e que as minorias se tornem uma potência”, afirma. “Sonho com investimento em educação e arte na favela e que o Passinho se afirme de uma vez por todas como um movimento”.

Veja abaixo o vídeo “Aperte o Play”, do Dream Team do Passinho:

 


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