Seis histórias para entender a crise no Sahel

Em Burkina Faso, quase nenhum lugar é seguro. Grupos armados, extremistas e facções criminosas aterrorizam a população diariamente, matando aqueles que se recusam a lutar ao lado deles. Assassinos atiram nas famílias até que elas morram. Estupram e torturam mulheres. Destroem qualquer coisa que simbolize o Estado: escolas, delegacias e até hospitais.

O cotidiano em Burkina Faso – um país sem litoral, com 19 milhões de habitantes – é precário. Conheça seis pessoas – fotografadas e entrevistadas no início de fevereiro de 2020 – cujas vidas foram viradas de cabeça para baixo. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Zeinabou, de 42 anos, é fotografada no quintal da casa de seus parentes, em Burkina Faso. Três dias antes, ela presenciou o assassinato de seu marido. Foto: Sylvain Cherkaoui

Zeinabou, de 42 anos, é fotografada no quintal da casa de seus parentes, em Burkina Faso. Três dias antes, ela presenciou o assassinato de seu marido. Foto: Sylvain Cherkaoui

Em Burkina Faso, quase nenhum lugar é seguro. Grupos armados, extremistas e facções criminosas aterrorizam a população diariamente, matando aqueles que se recusam a lutar ao lado deles. Assassinos atiram nas famílias até que elas morram. Estupram e torturam mulheres. Destroem qualquer coisa que simbolize o Estado: escolas, delegacias e até hospitais.

Aqueles que sobrevivem a um ataque sabem que a sorte pode bater em suas portas apenas uma vez – então eles correm. Nos últimos 15 meses, 800 mil burquinenses fugiram de suas casas para buscar segurança. Alguns atravessam fronteiras em direção ao Mali ou ao Níger, onde as condições podem ser igualmente perigosas. Outros procuram abrigo em outras regiões de Burkina Faso. Mas, à medida em que a violência se espalha, muitos fogem pela segunda ou terceira vez.

O cotidiano em Burkina Faso – um país sem litoral, com 19 milhões de habitantes – é precário. Conheça seis pessoas – fotografadas e entrevistadas no início de fevereiro de 2020 – cujas vidas foram viradas de cabeça para baixo.

O Sahel (do árabe ساحل, sahil, que significa “costa” ou “fronteira”) é uma faixa de 500 a 700 km de largura, em média, e 5.400 km de extensão, entre o deserto do Saara, ao norte, e a savana do Sudão, ao sul; e entre o oceano Atlântico, a oeste, e ao mar Vermelho, a leste.

O Sahel (do árabe ساحل, sahil, que significa “costa” ou “fronteira”) é uma faixa de 500 a 700 km de largura, em média, e 5.400 km de extensão, entre o deserto do Saara, ao norte, e a savana do Sudão, ao sul; e entre o oceano Atlântico, a oeste, e ao mar Vermelho, a leste.

A violência no Sahel – um árido cinturão que se estende por milhares de quilômetros ao longo da margem sul do Saara – eclodiu após a revolução de 2011 na Líbia e uma revolta de 2012 no Mali.

Homens armados atravessaram fronteiras, explorando tensões étnicas, pobreza e governança fraca para aterrorizar as populações locais. Quando o derramamento de sangue chegou a Burkina Faso, há cerca de quatro anos, acabou com a paz que o país conheceu por muito tempo.

Durante anos, as pessoas que escaparam dos conflitos no país vizinho, o Mali, fugiram para Burkina Faso. Cerca de 25 mil refugiados viviam em assentamentos em todo o país. Muitos desses campos de refúgio foram atacados mais de uma vez e a ameaça de violência torna quase impossível para os trabalhadores humanitários da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), e também para outras organizações, prestar auxílio a alguns refugiados. Também se tornou muito perigoso manter mercados e escolas abertos. Os empregos estão desaparecendo.

Os refugiados enfrentam uma escolha impossível: ficar e correr o risco de ataques ou voltar para casa em um país ainda em crise. Alguns estão voltando para o Mali, mesmo para áreas que são tão perigosas que trabalhadores humanitários e forças de defesa nacional não podem entrar.

Agora, os burquinenses estão recebendo seus concidadãos. Mas as comunidades estão em uma situação de ruptura. Já lutam contra a pobreza, o fracasso das escolas e um sistema de saúde frágil. Essas pessoas enfrentam agora uma ameaça adicional: o novo coronavírus.

Para retardar a pandemia, as fronteiras e escolas foram fechadas, um toque de recolher foi imposto das 19h às 5h. O movimento é restrito para cidades com casos confirmados de COVID-19 e reuniões de mais de 50 pessoas são proibidas.

A Sobrevivente

“Estou tão traumatizada que nem consigo me lembrar o que aconteceu. Não sei o que estou dizendo”, afirma Hawa, de 57 anos. Foto: ACNUR

“Estou tão traumatizada que nem consigo me lembrar o que aconteceu. Não sei o que estou dizendo”, afirma Hawa, de 57 anos. Foto: ACNUR

Hawa estava em casa em Boukouma quando seu sobrinho alertou a família de que homens armados estavam se aproximando. Em segundos, duas dúzias de homens chegaram em motocicletas e abriram fogo enquanto ela e outras mulheres se escondiam. “Eles mataram meu marido e o irmão dele quando estavam rendidos, com as mãos para cima”, disse ela.

Hawa enterrou os mortos no dia seguinte e depois fugiu com 32 membros de sua família. Agora ela encontrou relativa segurança na casa de seu filho, em Kaya, a 150 quilômetros da sua cidade. No entanto, ainda tem pesadelos e acorda todas as noites gritando, ouve tiros ecoando em seus ouvidos. “Sou viúva deste conflito”, disse ela.

“Nada me preparou para o que vi em Burkina Faso. Fiquei particularmente impressionado com a situação de tantas mulheres que sofreram violência, cujos filhos foram separados delas, que tiveram maridos capturados ou mortos”, disse Filippo Grandi, alto-comissário da ONU para Refugiados, para o canal France24.

O Anfitrião

“Como chefe, é meu dever aceitar os que procuram ajuda”, afirma Dianbendé, de 67 anos. Foto: ACNUR

“Como chefe, é meu dever aceitar os que procuram ajuda”, afirma Dianbendé, de 67 anos. Foto: ACNUR

No momento, o líder comunitário Dianbendé abriga em sua propriedade mais de 2,5 mil burquinenses desalojados, um número que cresce todos os dias. Ele oferece comida, abrigo e água – na maioria das vezes, às suas próprias custas. Por conta da perna debilitada, Dianbendé se move com dificuldade e enfrenta problemas para sustentar sua família. Ainda assim, ele recebe todos que chegam ali.

“No começo, pensamos que eles estavam matando apenas homens. Mas então percebemos que mulheres e crianças estavam em risco também”, disse Dianbendé. “Vivo com deficiência. Não tenho nada para dar. Mas é minha obrigação tentar, ao menos, tornar a situação um pouco melhor.”

O deslocamento em Burkina Faso aumentou dez vezes no ano passado, ultrapassando a marca de 800 mil pessoas. Mais de 90% dos deslocados vivem com outras famílias que os acolheram. Ainda assim, o ACNUR estima que ainda haja mais de 35 mil famílias que precisam de abrigo no país.

O Voluntário

“Os refugiados me dizem que o que faço é nobre, mas sinceramente estou com medo. Eu corro esses riscos porque amo meu trabalho. Estou comprometido em defender nossos direitos humanos”, disse Ilyas, de 30 anos. Foto: ACNUR

“Os refugiados me dizem que o que faço é nobre, mas sinceramente estou com medo. Eu corro esses riscos porque amo meu trabalho. Estou comprometido em defender nossos direitos humanos”, disse Ilyas, de 30 anos. Foto: ACNUR

Ilyas trabalha para o ACNUR no âmbito do Programa de Voluntariado da ONU na cidade de Djibo e no campo de refugiados de Mentao, no norte de Burkina Faso. As condições são tão arriscadas que ele é um dos dois únicos funcionários do ACNUR lá. Ele ajuda a garantir que refugiados tenham acesso a comida, água e abrigo. Por ser um refugiado do Mali, Ilyas se sente honrado em trabalhar para o ACNUR, mas teme que isso possa torná-lo um alvo.

Grupos armados em Burkina Faso mataram funcionários do governo, profissionais de saúde, professores e outros oficiais do Estado. Às vezes, eles também têm como alvo organizações humanitárias, roubando veículos e sequestrando funcionários.

A Mãe

“Minha filha entrou em pânico quando ouviu os tiros e agora ela entra em pânico o tempo todo. Tudo o que desejo é que, um dia, minha filha não tenha mais ataques de pânico”, disse Leila, de 30 anos. Foto: ACNUR

“Minha filha entrou em pânico quando ouviu os tiros e agora ela entra em pânico o tempo todo. Tudo o que desejo é que, um dia, minha filha não tenha mais ataques de pânico”, disse Leila, de 30 anos. Foto: ACNUR

Leila fugiu da violência no Mali em 2012 e viveu no campo de refugiados de Goudoubo até que, em 2019, homens armados em motocicletas atacaram o assentamento três vezes. A filha de Leila, Rahmata, de 10 anos, testemunhou um dos ataques e nunca mais foi a mesma. Leila diz que ela mesma foi “profundamente” afetada pelo número de pessoas que mostram sinais de sofrimento psicológico em meio à crescente insegurança.

“É muito doloroso. É difícil ser mãe e ver isso”, disse ela. “Eu continuo orando pela paz.”

Até o último aumento da violência registrado, quase 9 mil refugiados viviam em Goudoubo, mas cerca da metade voltou ao Mali, enquanto o restante se mudou para outros lugares em Burkina Faso. Agora o acampamento está vazio.

O Trabalhador Humanitário

“Isso me machuca. Meu país está sob ataque e não podemos dar às pessoas a proteção que elas merecem”, disse Eric. Foto: ACNUR

“Isso me machuca. Meu país está sob ataque e não podemos dar às pessoas a proteção que elas merecem”, disse Eric. Foto: ACNUR

Nascido e criado em Burkina Faso, Eric trabalha como oficial de registro no ACNUR, na região nordeste do país, não muito longe das fronteiras com o Níger e o Mali. Ele trabalha no campo de Goudoubo desde 2012, quando os refugiados do Mali começaram a buscar segurança em seu país. Eric sente uma familiaridade com os refugiados, aos quais presta serviço.

“Fui irmão dos refugiados e eles foram irmãos para mim”, disse ele.

Agora que o conflito se espalhou pelo país, Eric diz que os refugiados estão oferecendo apoio a ele. Eles se sensibilizam com sua tristeza. Agora que as áreas onde os refugiados estão vivendo são mais perigosas, Eric não pode vê-los com tanta frequência, se é que é possível existir uma. Ele se sente “fraco e preocupado”.

Um estudo do ACNUR descobriu que 38% de sua equipe em todo o mundo que trabalha diretamente com refugiados ou pessoas deslocadas estavam em risco de estresse traumático secundário, um distúrbio que pode causar exaustão física, mental e emocional.

Predominante entre as pessoas que trabalham sob estresse emocional por longos períodos, o distúrbio pode impossibilitar o desempenho das funções diárias normais e causar sentimentos negativos em relação a si mesmo ou ao mundo.

O Local

“Isso virou nossa vida de cabeça para baixo, mas não podemos rejeitá-los. O que faríamos? Dizer a eles para irem embora e serem mortos?”, disse Yobi. Foto: ACNUR

“Isso virou nossa vida de cabeça para baixo, mas não podemos rejeitá-los. O que faríamos? Dizer a eles para irem embora e serem mortos?”, disse Yobi. Foto: ACNUR

Yobi Sawadogo é conselheiro do prefeito de Kaya, uma cidade que contava com 66 mil habitantes em seu último censo (em 2012) e agora abriga mais de 300 mil burquinenses deslocados.

O governo local acolhe pessoas necessitadas, mas o fluxo de recém-chegados mudou drasticamente a vida cotidiana local. Os pontos para buscar água estão crescendo e os centros de saúde estão ficando superlotados. Os mercados ainda estão bem abastecidos, mas apenas porque aqueles que fugiram para cá não têm dinheiro para comprar comida.

Apesar dos desafios, Yobi disse que sua cidade continuará recebendo aqueles que buscam segurança, em parte por solidariedade e em parte por medo. “Dizemos que o que aconteceu com eles pode acontecer conosco”, disse. “Não podemos afastar as pessoas”, completa.

Até 2016, Burkina Faso era um modelo de convivência relativamente pacífica entre comunidades etnicamente diversas e um local seguro para refugiados. A violência lá é sem precedentes, e o governo está lutando para gerenciar a escala das necessidades humanitárias. Mas, por enquanto, muitas pessoas ainda dormem ao ar livre, expostas a perigos, e precisam urgentemente de um melhor acesso às instalações de água e saneamento.

O ACNUR e outras agências da ONU pediram aproximadamente 250 milhões de dólares em todo o mundo para apoiar os esforços do governo na resposta ao coronavírus em áreas que abrigam refugiados e deslocados internos.

Para apoiar nosso trabalho no Sahel e em outras regiões para proteger deslocados do coronavírus e outros perigos, faça uma doação agora!