‘Restauração da paz é prioridade’, afirma chefe do ACNUR em sua despedida

O português António Guterres se despede após 10 anos à frente da agência da ONU para refugiados. Em seu discurso final, pediu empenho nas negociações dos processos de paz no Iêmen, Síria e Líbia com passos vitais para conter os deslocamentos no mundo.

António Guterres, chefe do ACNUR, em sua coletiva de imprensa de despedida sobre o Diálogo dos Desafios de Proteção dos Refugiados. Foto: ACNUR/J.M.Ferré

António Guterres, chefe do ACNUR, em sua coletiva de imprensa de despedida sobre o Diálogo dos Desafios de Proteção dos Refugiados. Foto: ACNUR/J.M.Ferré

Novos esforços para trazer a paz aos conflitos em todo o mundo devem se tornar a prioridade da comunidade internacional se os atuais níveis recordes de deslocamento global continuar aumentando, afirmou o chefe do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), António Guterres.

“Precisamos de um forte impulso para que a paz se torne a prioridade, disse ele em sua despedida oficial a uma coletiva de imprensa realizada na sede da ONU em Genebra.

Guterres, que termina um mandato de 10 anos à frente do ACNUR em 31 de dezembro, destacou que as duas maiores razões pelas quais as pessoas estão sendo forçadas a abandonar suas casas e fugir em busca de segurança foram as mudanças climáticas e os conflitos armados. Ele chamou atenção para que os esforços diplomáticos pelo meio ambiente, a COP21 realizada recentemente em Paris, sejam um exemplo para a agenda de segurança.

“Temos de trabalhar para instalar a paz em regiões conturbadas… O resultado das negociações e dos processos de paz em curso na Síria, Líbia e Iêmen terão uma grande influência sobre os números de deslocamento em 2016. O resultado destas três crises será vital para orientações futuras”, disse.

Guterres lembrou que o ano em que ele tomou posse (2005), o ACNUR ajudou cerca de um milhão de pessoas a voltar para casa com segurança e dignidade. Já no ano passado, devido ao clima de insegurança atual, apenas 124.000 pessoas foram capazes de fazer o mesmo.

O alto comissário acrescentou que o número de deslocamentos forçados aumentou de 38 milhões para quase 60 milhões e tende a continuar em elevação. “Está claro que as organizações humanitárias já não são capazes de fornecer o apoio necessário… Nós somos menos capazes de responder às necessidades das pessoas do que éramos há 10 anos”, afirmou.

Ao recordar seus 10 anos como chefe do ACNUR, Guterres – que elogiou a imprensa por sua cobertura independente e apoio – disse que ele muitas vezes se sentiu como um enfermeiro que administra um analgésico a um doente que, na verdade, precisa de antibióticos ou cirurgia. Neste cenário, afirmou ser “enormemente frustrante” ver o sofrimento contínuo das pessoas.

Esta declaração foi no mesmo dia do lançamento do relatório do ACNUR, Mid-Year Trends 2015, que abrange o período de janeiro ao final de junho, e apresentou níveis altíssimos de deslocamento em cada uma das três principais categorias – refugiados, solicitantes de refúgio e deslocados internos.

O número global de refugiados, que há um ano era de 19,5 milhões, em meados de 2015 passou para 20 milhões refugiados (20,2 milhões) pela primeira vez desde 1992. As solicitações de refúgio subiram 78% (993.600) em relação ao mesmo período em 2014. Indicações a partir do primeiro semestre do ano sugerem que em 2015 o total de pessoas forçadas a se deslocarem no mundo inteiro será superior a 60 milhões, um recorde. Em termos globais, isso significa que uma a cada 122 pessoas foi forçada a fugir de sua casa.

Guterres, no entanto, disse temer que o mundo esteja entrando em uma abordagem mais restritiva em relação aos refugiados e repetiu sua afirmação de que os refugiados foram as “primeiras vítimas do terror” e não devemos torná-los bodes expiatórios.