Resposta do ACNUR está focada em salvar vidas de refugiados, migrantes e população local

Arturo de Nieves é coordenador sênior de campo da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e trabalha em Roraima. Foto: ACNUR/Allana Ferreira

Arturo de Nieves é coordenador sênior de campo da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e trabalha em Roraima. Atualmente, ele é também o responsável por coordenar a resposta à COVID-19 em Boa Vista, Pacaraima (RR) e Manaus (AM), e compartilhou os principais desafios enfrentados por trabalhadores humanitários em um contexto de pandemia.

Leia abaixo a entrevista.

Como a pandemia do novo coronavírus mudou a sua rotina de trabalho?

Desde que começamos os trabalhos de preparação da resposta à COVID-19, os meus esforços estão totalmente focados nessa emergência global. O ACNUR está realizando um trabalho de coordenação com outras agências da ONU e parceiros para reforçar a resposta liderada pelas autoridades brasileiras.

Lembro bem que tudo mudou na manhã de um sábado, dia 14 de março. Nesse dia, fomos informados sobre a suspeita de que uma família venezuelana residente de um dos abrigos apoiados pelo ACNUR estava com COVID-19. Diante deste alerta, nossas equipes trabalharam incansavelmente em Boa Vista, Manaus e Pacaraima até o dia seguinte para isolar centenas de pessoas que tiveram contato com essa família.

Felizmente, as suspeitas não se confirmaram, mas esta situação nos mostrou como aperfeiçoar nossa resposta à COVID-19. Desde então, estamos aprimorando o nosso trabalho todos os dias.

Além de ter apoiado as autoridades que lidam com a pandemia na elaboração de protocolos para contingenciamento desta emergência, o ACNUR está fornecendo assessoria técnica, materiais e equipamento para construção de uma Área de Proteção e Cuidados. O local tem capacidade para atender mais de 2 mil pessoas e irá beneficiar a população local e refugiada. O ACNUR já doou para o espaço mais de 200 unidades habitacionais para refugiados, 2 mil colchões e camas, kits de higiene e de limpeza.

Além disso, estamos fortalecendo a comunicação com as comunidades, ampliando a capacidade dos 13 abrigos temporários em Roraima e elaborando soluções específicas para as populações indígenas. O trabalho é intenso, mas graças à resposta coerente e coordenada, nossa capacidade de proteger refugiados, migrantes e a população local também está aumentando.

Qual é sua maior preocupação em relação a esta pandemia e a situação dos refugiados?

Proteger refugiados é a missão do ACNUR. Mesmo no contexto desafiador imposto por esta pandemia, estamos trabalhando muito para garantir ajuda a quem mais precisa. A população de refugiados e migrantes que mora nos abrigos apoiados pelo ACNUR, bem como a população em situação de rua e a população indígena também atendida por nós, encontra-se em uma situação de vulnerabilidade. O impacto do novo coronavírus sobre elas pode ser especialmente grave se não trabalharmos para atender suas necessidades. O ACNUR também está atuando junto às comunidades de acolhida para assegurar a coexistência pacífica nestes tempos de incerteza. A nossa resposta está focada em salvar vidas de refugiados, migrantes e também população local.

Qual é a parte mais gratificante do seu trabalho?

Com certeza é ver o comprometimento de toda a nossa equipe com um trabalho especialmente intenso durante esta emergência. O que o ACNUR faz está verdadeiramente melhorando a vida das pessoas que protegemos.

É muito gratificante ver também o compromisso e engajamento dos refugiados com as medidas de prevenção. Eles estão cuidando uns dos outros para superar esta pandemia. Isso nos dá ainda mais motivação para cumprir a nossa missão, que é proteger pessoas e salvar vidas.

E a mais desafiadora?

Esta pandemia é um desafio global e sabemos que vários países estão passando por situações muito difíceis. As pessoas que foram forçadas a deixar suas casas são especialmente vulneráveis. O maior desafio é saber as consequências devastadoras que o vírus pode ter nessas populações. Mas, ao fazer o nosso trabalho da melhor maneira possível, podemos mitigar os impactos do novo coronavírus.

Alguma situação te marcou nestes últimos dias de trabalho?

Quando recebemos o primeiro alerta sobre um possível caso de COVID-19 entre a população refugiada e migrante, me emocionei muito na área emergencial de isolamento, local para onde os venezuelanos eram levados depois de deixar os abrigos. Mesmo em um contexto tão difícil e desafiador, cercado de muito medo e incertezas, a resposta dos venezuelanos foi de total colaboração e apoio às pessoas mais vulneráveis do grupo. Eles ajudavam a transportar bagagens, a atender as crianças e a instalar as novas famílias que iam chegando. Depois de tudo, agradeceram por todo o trabalho intenso realizado naquela noite. Foi um exemplo de humanidade.

Todos nós temos um papel a desempenhar na prevenção desta pandemia, e o ACNUR está atuando para proteger refugiados, pessoas deslocadas e comunidades que os acolhem.

Mas temos MUITO trabalho pela frente. Doe AGORA para apoiar os nossos esforços e salvar vidas!

Doe agora.