Resposta disfuncional a problemas comuns mostra importância do multilateralismo, diz Guterres

Os problemas do mundo estão mais e mais integrados, mas a resposta a eles é cada vez mais “fragmentada” e “disfuncional”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, na quinta-feira (24), em um apelo aos governos e outros parceiros a responder às queixas da população e se comprometer com a cooperação internacional.

Em seu discurso, feito durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Guterres deu um panorama abrangente dos atuais riscos e desafios globais, enquanto também disse notar “ventos de esperança” para a potencial resolução de conflitos em República Centro-Africana, Sudão do Sul, Iêmen e Síria.

O secretário-geral da ONU, António Guterres (direita), fala no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, ao lado do presidente do Fórum, Børge Brende, em 24 de janeiro de 2019. Foto: Fórum Econômico Mundial/Benedikt von Loebell

O secretário-geral da ONU, António Guterres (direita), fala no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, ao lado do presidente do Fórum, Børge Brende, em 24 de janeiro de 2019. Foto: Fórum Econômico Mundial/Benedikt von Loebell

Os problemas do mundo estão mais e mais integrados, mas a resposta a eles é cada vez mais “fragmentada” e “disfuncional”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, na quinta-feira (24), em um apelo aos governos e outros parceiros a responder às queixas da população e se comprometer com a cooperação internacional.

Em seu discurso, feito durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Guterres deu um panorama abrangente dos atuais riscos e desafios globais, enquanto também disse notar “ventos de esperança” para a potencial resolução de conflitos em República Centro-Africana, Sudão do Sul, Iêmen e Síria.

Uma solidariedade maior é necessária para conter os muitos desafios enfrentados pelo mundo, disse ele, enfatizando a “paralisia” do Conselho de Segurança da ONU para certas questões, e o fato de que as relações entre as três superpotências mundiais — China, Rússia e Estados Unidos — nunca estiveram “tão desfuncionais” como atualmente.

Tendo em vista essa situação “multipolar” e o envolvimento de Estados como Irã, Turquia e Arábia Saudita no conflito sírio, Guterres pediu mais envolvimento dos países em organizações multilaterais, lembrando que a ausência desses mecanismos levaram à Primeira Guerra Mundial.

“Se olharmos para a política global e as tensões geopolíticas, a economia global e as grandes tendências, incluindo a mudança climática, o movimento de pessoas e a digitalização, a verdade é que elas estão interligadas, mas as respostas estão sendo fragmentadas”, disse ele, alertando que “se isso não for revertido, será a receita para o desastre”.

Mudanças climáticas estão avançando rápido

Citando as mudanças climáticas como um dos principais desafios do mundo, o chefe da ONU insistiu que “estamos perdendo a corrida” para gerenciá-las.

“As mudanças climáticas estão avançando mais rápido do que nós”, disse ele, enfatizando que apesar de a realidade ter se “provado muito pior do que a ciência previu”, enquanto o mundo experimenta temperaturas ainda mais elevadas, a vontade política para fazer algo está desacelerando.

Em um contexto de continuidade dos subsídios a combustíveis fósseis para as indústrias, um mercado de carbono limitado e a persistência dos negacionistas, Guterres lamentou o fato de isso acontecer em um momento em que “a tecnologia está do nosso lado, quando vemos mais e mais comunidades de negócios prontas para responder de forma positiva e uma sociedade civil mais e mais engajada”.

Cenário econômico carregado

Sobre a economia global, o chefe da ONU disse que apesar de o crescimento mundial estar “aceitável”, há, no entanto”, “nuvens no horizonte”.

Essas incertezas estão sendo impulsionadas por disputas comerciais — que são “essencialmente, um problema político”, disse ele, junto com níveis mais altos de dívida do que antes da crise financeira de 2008/2009.

Ambas as questões impediram os países de responder a crises emergentes e implementar importantes projetos de infraestrutura que eram necessários para o desenvolvimento sustentável, disse Guterres, lembrando a existência de uma crescente falta de confiança nos governos “e em organizações como a nossa”.

“Se olharmos as paralisações (orçamentárias) e a saga do Brexit, há um certo entendimento de que os sistemas políticos não sabem exatamente o que fazer quando lidam com problemas que têm fortes impactos econômicos”, disse. “Esse é um fator de falta de confiança que cria crescente instabilidade nos mercados”.

Sobre a globalização e o progresso tecnológico, que trouxe “fantásticas melhoras” para muitos, Guterres lembrou que estes também aumentaram as desigualdades e marginalizaram milhões, tanto dentro dos países como entre eles.

Tendo a desilusão como resultado, e em meio a um movimento massivo de pessoas em busca de uma vida melhor ou abrigo, o secretário-geral da ONU insistiu que apesar de ele acreditar firmemente que uma resposta global coordenada é a resposta, é necessário fazer mais para convencer aqueles que não acreditam nisso.

“Não é suficiente transformar em vilões aqueles que discordam disso e só considerá-los como nacionalistas, populistas ou o que for”, disse. “Precisamos entender as queixas e o que faz grandes setores da população em diferentes partes do mundo discordarem de nós. Precisamos enfrentar as causas e mostrar a essas pessoas que nos importamos com elas”.

Esse objetivo não poderá ser alcançado apenas por governos e organizações internacionais, disse Guterres, pedindo mais espaço para outros atores se envolvam em um modelo multilateral atualizado ao século 21.

“Precisamos trabalhar juntos. Não há formas de conseguirmos respostas isoladas para os problemas que enfrentamos, pois eles estão relacionados. É necessário um multilateralismo em que os Estados sejam parte do sistema, mas é necessário mais e mais (envolvimento) de comunidade empresarial, sociedade civil, academia — todos são parte do mundo, para analisar problemas, definir estratégias e políticas, e implementá-las.”

Entre suas outras prioridades, o secretário-geral da ONU enfatizou seu desejo de mostrar o “valor agregado” das Nações Unidas.

Ele citou as reuniões recentes sobre mudanças climáticas em Katowice, na Polônia, onde os Estados-membros concordaram em se mover adiante no Acordo de Paris para o clima, aprovado em 2015 e no qual os países se comprometeram a limitar a elevação da temperatura global a 1,5 grau Celsius.

“Todo mundo achava que Katowice seria um fracasso; não foi”, disse ele. “Conseguimos aprovar o programa de trabalho do Acordo de Paris. Precisamos de mais ambição, mas foi possível fazer com que países que estavam em posições totalmente diferentes ao menos concordassem com as bases para seguir adiante.”

No Iêmen, ele insistiu que a ONU está pressionando para uma retomada da diplomacia pela paz após um primeiro acordo de cessar-fogo ter sido assinado na Suécia no fim do ano passado, enquanto “muitas outras situações melhoraram recentemente”, afirmou, incluindo Sudão do Sul e Etiópia.

“Estamos lá, fazendo coisas que são necessárias, e ninguém pode substituir as Nações Unidas dessa maneira”, disse Guterres, acrescentando que a ONU ainda é responsável por distribuir mais da metade da ajuda humanitária global.


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