Representante da ONU condena ameaças de presidente da Gâmbia contra grupo étnico

Crianças mandingas em Kédougou, no Senegal, em 1981 ou 1982. Foto: John Atherton/Flickr/CC

O assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas sobre a Prevenção do Genocídio condenou na última sexta-feira (10) o recente discurso inflamado do presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, em uma reunião política. Segundo os relatos, Jammeh ameaçou “eliminar” a etnia mandinga (Mandinka em inglês).

Em uma nota à imprensa, Adama Dieng disse que, no último dia 3 de junho, em Tallinding, o presidente Jammeh teria se referido aos mandingas como “inimigos estrangeiros” e ameaçou matá-los um por um e colocá-los “onde até mesmo uma mosca não pode vê-los”.

“Estou profundamente alarmado com a estigmatização pública, desumanização e ameaças contra os mandingos pelo presidente Jammeh”, disse o assessor especial.

“As declarações públicas dessa natureza por um líder nacional são irresponsáveis e extremamente perigosas. Elas podem contribuir para populações em divisão, alimentar suspeitas e servir para incitar a violência contra as comunidades, baseado unicamente em sua identidade”, acrescentou.

Dieng disse que estava particularmente chocado com a “retórica virulenta” do presidente da Gâmbia, já que a História tem mostrado que o discurso do ódio que constitua incitação à violência pode ser tanto um sinal de aviso quanto um poderoso gatilho para crimes atrozes.

“Vimos em Ruanda, na Bósnia – e mais recentemente no Oriente Médio – como o incitamento à violência levou a assassinatos em massa a partir da identidade”, disse o assessor especial, lembrando ao presidente Jammeh que qualquer apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou à violência é proibida pelo direito internacional dos direitos humanos, bem como pela legislação nacional.

Dieng também observou que os Estados têm a responsabilidade primária de proteger as suas populações. Em 2005, todos os chefes de Estado e de Governo reconheceram a responsabilidade de proteger as populações contra o genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade, bem como a sua instigação.

“Exorto o presidente da Gâmbia a cumprir esta responsabilidade”, disse o assessor especial, “e assegurar que os direitos de todas as populações da Gâmbia sejam respeitados, independentemente da etnia ou filiação política.”