Repensando masculinidades: especialistas sugerem boas práticas no enfrentamento à violência de gênero

É necessário que sociedade repense a normalidade com a qual encara o comportamento masculino violento, uma vez que ele afeta negativamente principalmente as mulheres, mas também os homens.

De acordo com o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2018, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio, sendo 61% delas mulheres negras e 52,3% dos assassinatos foram cometidos com arma de fogo.

Em 88,8% dos casos, o autor era o companheiro ou o ex-companheiro da vítima. Leia a reportagem do UNFPA Brasil.

"A masculinidade não é natural, nem unívoca, mas produzida em contextos históricos e reproduzida ritualmente no cotidiano”, Osmundo Pinho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Foto: Egg Studios NY/Unplash.

“A masculinidade não é natural, nem unívoca, mas produzida em contextos históricos e reproduzida ritualmente no cotidiano”, Osmundo Pinho, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Foto: Egg Studios NY/Unplash.

As violências baseadas em gênero não chocam mais, não impressionam, são muitas vezes encaradas com uma pretensa normalidade e, desta forma, seguem sendo um grande desafio para o Brasil.

As intersecções do machismo com o racismo e o sexismo nos apresentam, em números, quantas vidas são perdidas. E o debate sobre masculinidades é fundamental para mudar a realidade vigente no país, apresentada, por exemplo, nos dados da 13ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A pesquisa mostra que, em 2018, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio, sendo 61% delas mulheres negras e 52,3% dos assassinatos cometidos por arma de fogo. Em 88,8% dos casos, o autor era o companheiro ou o ex-companheiro da vítima.

O Relatório de Situação da População Mundial 2019 (SWOP), lançado globalmente pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e intitulado ‘Um trabalho inacabado: a busca por direitos e escolhas para todos e todas’, aponta que para alcançar o desenvolvimento e para que todas as pessoas desfrutem de direitos, a violência baseada em gênero precisa ser enfrentada.

Concorda com a perspectiva do documento o pesquisador Osmundo Pinho, referência no debate sobre masculinidades e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), instituição onde estudava a universitária Elitânia de Souza Hora, 25, que foi violentamente assassinada a tiros, a despeito de uma medida protetiva, em um caso suspeito de feminicídio, no interior da Bahia (confira nota pública de repúdio emitida pelo UNFPA Brasil).

Construção social e cultural

Pinho explica o conceito de masculinidades. “Em termos estritos, a masculinidade é uma performance política de poder, que investe em alguns corpos assinalados como ‘masculinos’ prerrogativas de poder que refletem a forma como as sociedades ocidentais têm construído a si próprias por meio de uma bio-lógica, que faz do corpo fundamento do poder”, explica.

O pesquisador disse também que a masculinidade “não é natural, nem unívoca, mas produzida em contextos históricos e reproduzida ritualmente no cotidiano”.

“Significa também que não existe uma masculinidade, mas diversas possibilidades desigualmente produzidas em contextos desiguais e tensionados politicamente. Pelo racismo por exemplo. Mas também pela norma heterossexual e pela formação das classes sociais e do Estado”, completa.

Segundo o pesquisador e integrante da Rede Afro LGBT, Nilton Luz, as pessoas são educadas para ocupar um lugar de gênero previamente estabelecido.

“O masculino é tido com o forte, protetor, servido. O feminino é o belo, frágil e cuidador. A noção de gênero, levada ao extremo, transforma a mulher em objeto a serviço dos homens, o que geralmente explica casos de homens que agridem as mulheres, ou as matam quando eles a deixam, como se ela não tivesse o poder de tomar tal decisão”, explica.

Nilton Luz ressalta que há muitas questões que estimulam a violência contra as mulheres e ocorrem em decorrência de padrões culturais, econômicos e políticos.

O pesquisador conta ainda que a construção das masculinidades tal qual são forjadas atualmente podem gerar “inúmeros problemas emocionais e psíquicos”, por conta de pressões sociais sofridas pelos homens e pelas mulheres.

“Desta forma, o homem é influenciado a naturalizar que a mulher ‘se faça frágil’ diante dele. Ou seja, um jogo social no mínimo desconfortável. E como é uma atuação, não se sustenta, levando desde as experiências comuns, de homens interrompendo as falas de mulheres, até à violência física e letal”, finaliza.

Paternidade Responsável

Érico Brás é ator, membro do conselho consultivo do UNFPA e fala sobre masculinidade e paternidade responsável. Foto: Divulgação/SERENDIPITY.

Érico Brás é ator, membro do conselho consultivo do UNFPA e fala sobre masculinidade e paternidade responsável. Foto: Divulgação/SERENDIPITY.

O ator e membro do conselho consultivo do Fundo de População da ONU, Érico Brás, estampa desde 2018 a campanha “Pai Presente Importa”, do UNFPA Brasil.

Para o ator, uma forma de discutir sobre masculinidades é falar sobre paternidade responsável e planejamento familiar. “Precisamos levar em consideração a paternidade que temos no Brasil, em especial para nós, homens negros”, reflete, sobre as conexões do machismo com o racismo e os impactos na população negra.

“Sabemos que o processo de fabricação de morte simbólica e física do homem negro está em andamento. Mas agora estamos dando uma virada, com consciência maior. Muitos de nós não tivemos uma paternidade exemplar. Mas queremos ter referências e precisamos construí-la”, enfatiza.

O ator, que é pai, acredita que os homens, negros em especial, necessitam observar quatro pontos para melhorar suas participações e cuidado às suas famílias: pontos de vista político, religioso, cultural e econômico.

“Esses quatro pilares são importantes para serem reavaliados e ressignificados para que possamos entender o nosso papel para promoção de direitos dentro dessa sociedade patriarcal e machista. Ou seja, é nossa responsabilidade agora a construção dos homens do futuro”, pontuou.

Por meio da campanha do UNFPA, o ator contribui na conscientização dos homens ao destacar a importância de acompanharem as mulheres durante toda gestação, estarem presentes no parto e no pós-parto, nos afazeres domésticos, no cuidado, no apoio e no acompanhamento de filhas e filhos ao longo de toda a vida.

Para o coordenador geral do Instituto Papai, Sirley Vieira, “masculinidade, no singular, é uma ideia atribuída e assumida por determinadas pessoas do que é ser homem. Os que assumem essa ideia de ser homem podem ser biologicamente do sexo masculino, ou não (homens trans)”, comentou.

“Não existe ‘uma masculinidade’, o que existe são ‘masculinidades’”, reforça e destaca que este tipo de percepção apenas normatiza a visão do que é ser homem.

“A maioria das pessoas não consegue entender a diversidade de formas de ser homem, como algo natural e normal, cobrando sempre o enquadramento a esse modelo de ser masculino. Isso ocasiona vários problemas e conflitos”, enfatiza o integrante da organização que reflete a invisibilidade da experiência masculina no contexto da vida reprodutiva e no cuidado às crianças.

Boas práticas para os homens

Vieira destaca que é preciso que os homens se aliem à luta pelo fim da violência contra as mulheres.

“É necessário que os homens repensem suas práticas, suas vidas, para refletirem sobre como esse padrão (ou modelo) de ser homem é prejudicial também à vida deles”, propõe o pesquisador do instituto, parceiro antigo do UNFPA, com projetos como Homens Também Cuidam.

O antropólogo sugeriu ainda um passo a passo de boas práticas para os homens: “É importante que tomem como atitude a mudança de pequenos hábitos, tais como aprender a escutar as mulheres e se colocarem dispostos a compartilhar o cuidado, seja das tarefas domésticas, das crianças, de outras pessoas, das suas próprias coisas e reconhecer suas fragilidades, não se achando superior. É aprender a dialogar”.