Relatório aponta estupro e tortura sexual generalizados contra homens na crise da Síria

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Detido durante a guerra na Síria, Tarek ficou preso numa cela escura por um mês com outras 80 pessoas – mas as terríveis condições foram o menor dos problemas. Nu, ele e outros detentos tinham suas mãos amarradas durante à noite, eram torturados com choques elétricos em seus genitais e estuprados por seus sequestradores.

O sofrimento do rapaz está longe de ser algo único e extremamente raro na Síria. Um estudo publicado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) indica que a violência sexual e a tortura de homens e meninos parecem ser muito mais comuns no país do que se pensava. Refugiados sírios também são vítimas em países de acolhimento.

Imagem de área da cidade de Alepo, intensamente atingida pela guerra na Síria. Foto: UNESCO

Alepo, na Síria. Foto: UNESCO

Detido durante a guerra na Síria, Tarek ficou preso numa cela escura por um mês com outras 80 pessoas – mas as terríveis condições foram o menor dos problemas. Nu, ele e outros detentos tinham suas mãos amarradas durante a noite, eram torturados com choques elétricos em seus genitais e estuprados por seus sequestradores.

O sofrimento do rapaz está longe de ser algo único e extremamente raro na Síria. Um estudo publicado nesta quarta-feira (6), pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), indica que a violência sexual e a tortura de homens e meninos — por diferentes partes da guerra — parecem ser muito mais comuns no país do que se pensava.

A pesquisa foi feita a partir de entrevistas com dezenas de informantes e grupos de discussão que reuniram cerca de 200 refugiados vivendo no Iraque, Líbano e Jordânia. A maior parte dos depoimentos foi recolhida ao final de 2016.

Entre os episódios descritos nos testemunhos, o organismo internacional recebeu relatos de formas de violência sexual que incluíam estupro e mutilação ou tiros à queima-roupa nos órgãos genitais. A maioria desses casos ocorreu durante detenções ou prisões improvisadas. Pesquisadores do ACNUR ouviram ainda depoimentos sobre violência contra meninos de dez anos e também contra homens idosos, na faixa dos 80.

“Eles entravam na cela para nos estuprar, mas estava escuro. Nós não podíamos vê-los. Tudo que conseguíamos ouvir eram as pessoas dizendo ‘Pare! Não!’. Eu pensei que iríamos morrer”, lembra Tarek.

Meu amigo trabalha com um homem
de 60 anos que se recusa a pagar
seu salário até que ele faça favores sexuais.

O estudo conclui que o risco de violência sexual é maior para aqueles que – como Tarek – são gays, bissexuais, trans ou intersexo. As violações, alerta o ACNUR, não terminam necessariamente quando a vítima deixa a Síria. Dentro do país, grupos armados foram indicados como os principais perpetradores. Fora da nação, o perigo vem de abusadores oportunistas.

Meninos refugiados em países de acolhimento sofrem violência sexual nas mãos de outros homens refugiados e de homens da própria comunidade local. A agência da ONU foi informada também sobre episódios de exploração sexual e chantagem envolvendo homens refugiados. Violações ocorreram sobretudo entre aqueles que sobrevivem da economia informal. A maioria das famílias desses trabalhadores vive abaixo da linha de pobreza.

“Meu amigo trabalha com um homem de 60 anos que se recusa a pagar seu salário até que ele faça favores sexuais”, conta Ibrahim, refugiado sírio no Líbano. “Meu amigo não pode deixar seu emprego porque precisa dele para pagar aluguel e ajudar sua família. Ele tem 30 anos, é casado e tem uma família, mas não pode revelar isso.”

Sobre a situação de meninos em países de refúgio, um entrevistado afirmou que a violência sexual é normalmente praticada por jovens mais velhos, com uma “frequência diária”. O relatório cita um agente de assistência jurídica, que conta que o problema é geralmente tratado como “bullying”. Posteriormente, porém, autoridades acabam descobrindo que violências sexuais como estupro também aconteciam. Muitos meninos deixaram de frequentar a escola.

“Esses são relatos muito perturbadores, que revelam o quão grave se tornou o risco de violência sexual, tanto para mulheres e meninas, quanto também para homens e meninos, como demonstra o relatório”, afirmou o alto-comissário assistente de proteção do ACNUR, Volker Türk.

“Está claro que estamos diante de um ciclo vicioso”, alertou o dirigente. O especialista elencou os fatores responsáveis por agravar o problema: baixa disponibilidade de assistência; programas de ajuda com alcance limitado para homens e meninos sobreviventes; serviços inacessíveis; e uma cultura do silêncio. Para Türk, a combinação dessas circunstâncias “reforça o mito de que esse problema é raro”.

O relatório do ACNUR foi elaborado para ampliar o conhecimento tanto da natureza, quanto da extensão do problema da violência sexual contra meninos e homens refugiados. A pesquisa também identifica boas práticas no atendimento às vítimas.

O documento faz uma série de recomendações para organizações humanitárias e outras pessoas envolvidas no trabalho com refugiados. Entre as medidas aconselhadas, estão estratégias de prevenção mais robustas; proteção contra retaliações; assistência aprimorada para sobreviventes; e conscientização entre os profissionais humanitários.

O relatório também recomenda que futuras pesquisas sejam feitas com uma perspectiva centrada na prevenção e na resposta à violência sexual. Esse tipo de violação deixa as vítimas com dores físicas e emocionais que podem se tornar insuportáveis.

Ahmed, refugiado vivendo no Líbano, conta que um dos seus tios nunca se recuperou do terrível abuso que sofreu enquanto esteve detido na Síria.
“Após alguns meses, quando ele foi solto, ele nos contou, e desabou chorando na nossa frente, que não tinha um lugar em seu corpo que não tinha sido abusado por furadeira elétrica. Ele foi estuprado”, lembra.

“Depois que foi solto, ele parou de comer e se tornou alcoólatra. Ele morreu por insuficiência renal.”

LGBTIfobia

Parte dos relatos catalogados pelo ACNUR denunciam a marginalização vivida por refugiados gays, lésbicas, bissexuais, trans e intersexo. Um profissional especializado em proteção na Jordânia conta ter ouvido experiências assustadoras de sírios LGBTI, como casos de taxistas que levaram os refugiados gays para lugares diferentes do destino final para estuprá-los e abusos cometidos por senhorios ou colegas que dividem apartamento.

“Homens gays estão mais vulneráveis. O agressor pensa: ‘Ele é gay e sírio, ele não tem poder algum. Ninguém protegerá essa pessoa’. Ponto final”, lembra o oficial.

O sírio Amin foi assediado, mas não quer procurar atendimento para tratar das sequelas do abuso. “Fui detido na Síria por quatro meses. Não tínhamos comida. Eles nos torturavam e nos estupravam. Usaram varas. Depois que fui solto, eu não conseguia sentar sem sentir dor. Eu ainda tenho problemas, mas tenho medo de falar com o médico porque ele pode me denunciar por ser gay.”

Acesse o relatório na íntegra clicando aqui.


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