Refugiados sírios trazem vida nova para cidade alemã que sofria com redução da população

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Em oito anos, a população do vilarejo alemão de Golzow diminuiu 12%, chegando a apenas 835 habitantes. Em março de 2015, pela primeira vez desde sua abertura em 1961, a escola primária local não conseguiu atingir o número mínimo de estudantes para a aula inaugural. Programa que trouxe refugiados sírios ajudou cidade a manter centro de ensino aberto.

Kamala (ao centro) fugiu da Síria com a família e agora vive em Golzow, na Alemanha. Foto: ACNUR/Gordon Welters

Kamala (ao centro) fugiu da Síria com a família e agora vive em Golzow, na Alemanha. Foto: ACNUR/Gordon Welters

“Não tínhamos uma vida na Síria, estávamos apavorados o tempo todo. Eu só queria paz, nada mais”, relata a refugiada síria Halima Taha, de 30 anos, que foi forçada a fugir de seu país há quatro anos. Ela chegou à Alemanha com o marido e os três filhos. A família se voluntariou para ir para Golzow, uma cidade pequena localizada na fronteira com a Polônia.

Naquela época, Halima não fazia ideia do que a chegada deles significaria para os moradores do vilarejo. Golzow testemunhava a redução de sua população. Nem a fama da escola primária da cidade — conhecida por cinéfilos como o cenário de The Children of Golzow, um épico documentário de 42 horas filmado ao longo de cinco décadas — conseguia atrair novos moradores.

Em oito anos, a população diminuiu 12%, chegando a apenas 835 habitantes. Em março de 2015, pela primeira vez desde sua abertura em 1961, a escola não conseguiu atingir o número mínimo de estudantes para a aula inaugural.

“Muitas pessoas se mudaram no último ano”, lembra a diretora do centro de ensino, Gabi Thomas. “Pouquíssimas crianças frequentavam a escola. São elas que trazem movimento e vida, e isso é muito importante na área rural”, acrescenta.

A comunidade estava desesperada, temendo o fim do colégio tão adorado. Foi quando o prefeito de Golzow, Frank Schütz, teve uma brilhante ideia. Ele solicitou às autoridades locais que procurassem por famílias refugiadas, com crianças em idade escolar, que estivessem dispostas a mudar para um dos diversos apartamentos vazios de Golzow.

“Era uma vantagem recíproca, estávamos ajudando pessoas que nos ajudariam também”, afirma o prefeito.

Após uma jornada de três anos e meio entre a Síria e a Alemanha, Halima e sua família haviam acabado de chegar ao centro de recepção em Eisenhüttenstadt, a 60 quilômetros de Golzow. Quando lhes perguntaram se eles gostariam de se mudar para um apartamento doado em uma cidade próxima, eles não hesitaram e concordaram na hora.

“Não nos importava para onde estávamos indo desde que fosse um lugar limpo e com boas pessoas”, disse Halima. “Nós pensamos, ´por que não?´”. Meses depois, Halima e os parentes, bem como outra família síria chegaram a Golzow, trazendo seis crianças que precisavam estudar.

Halima e Fadi são os pais de Kamala (ao centro) e o outros dois meninos. Foto: ACNUR/Gordon Welters

Halima e Fadi são os pais de Kamala (ao centro) e o outros dois meninos. Foto: ACNUR/Gordon Welters

Apesar de serem um pouco mais velhos que os outros colegas de classe, três dos recém-chegados foram inscritos para a aula inaugural, que atingiu o quórum mínimo de 15 estudantes. Todos saíram ganhando: o ano letivo foi salvo e os sírios ganharam um novo lar.

Kamala, a filha de Halima, tem dez anos e se adaptou rapidamente à nova vida. “Muitas coisas são diferentes por aqui, claro”, conta a menina durante o intervalo, rodeada por colegas alemães.

Apesar de Kamala e sua família serem muçulmanos, a garota gosta de aprender os costumes alemães. “Na Síria, não celebramos Natal, Páscoa ou Dia das Bruxas”, ela diz em alemão quase fluente. “Eu gosto mais da Páscoa porque saímos para procurar ovos de chocolate.”

A jovem é uma aluna brilhante que acaba de passar para a terceira série. “Eles querem saber mais sobre nós e nós queremos saber mais sobre eles”, comenta Kamala sobre seus colegas de classe alemães. “Tem tanta coisa para contar e explicar. Às vezes, vezes eu traduzo para os outros em árabe ou alemão”, afirma, orgulhosa.

Halima e Fadi, os pais de Kamala, já estão tão bem estabelecidos que muitas vezes intermedeiam contatos entre os locais e os recém-chegados. Em fevereiro do ano passado, eles ajudaram a receber uma terceira família síria em Golzow. Halima acredita que isso é o mínimo que podem fazer depois de terem sido calorosamente acolhidos pelos moradores da cidade.

“Todos vieram para nos recepcionar com flores”, lembra refugiada. “Eu fiquei muito surpresa, não conseguia parar de chorar. Se chegarem novas famílias, elas serão muito bem recebidas. Golzow é muito receptiva, é uma cidade bem pequena e as pessoas são realmente incríveis.”

Refugiados sírios, como Kamala, ajudaram a cidade alemã a manter a escola aberta. Foto: ACNUR/Gordon Welters

Refugiados sírios, como Kamala, ajudaram a cidade alemã a manter a escola aberta. Foto: ACNUR/Gordon Welters

Halima e sua família foram reconhecidos como refugiados e agora têm um visto que permite que vivam e trabalhem na Alemanha pelos próximos três anos. A mãe trabalha meio período como tradutora de árabe para uma instituição de caridade alemã que ajuda solicitantes de refúgio. Fadi está procurando emprego e praticando para seu teste de direção. Ele também gosta de pescar e de cuidar do jardim comunitário que divide com os vizinhos.

Apesar da bem-sucedida adaptação ao vilarejo alemão, Fadi e Halima sentem falta da vida na Síria. “Às vezes é difícil”, diz Fadi, de 40 anos, que trabalhava no ramo imobiliário em Latakia, sua cidade de oirgem.

“Vivíamos bem na Síria, mas tivemos que sair de lá por causa da guerra. Agora estamos tentando reestruturar nossas vidas. Aqui, todo mundo se ajuda. Golzow é uma segunda família para nós. Mas com certeza, tudo que queremos é que o sangrento conflito sírio termine para que possamos voltar para casa”, acrescenta o sírio.

“Gostaria de um dia poder voltar para a Síria com os meus filhos”, concorda Halima. “Afinal de contas, lá é o nosso lar. Enquanto esperamos, as crianças devem aprender, estudar e conquistar boas carreiras. Pelo menos aqui, vivemos em segurança.”


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