Refugiados sírios participam de evento sobre proteção de crianças no Itamaraty

O grupo “Alma Síria” e a empreendedora Joanna Ibrahim integraram a programação do Grupo de Trabalho do Processo de Varsóvia em Brasília.

Os sírios Abdul, Lucia e Miriam e o venezuelano Oscar são cumprimentados pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo (ao centro), após apresentação musical. Foto: ACNUR/Victoria Hugueney

Os sírios Abdul, Lucia e Miriam e o venezuelano Oscar são cumprimentados pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo (ao centro), após apresentação musical. Foto: ACNUR/Victoria Hugueney

No contexto da reunião do Grupo de Trabalho do Processo de Varsóvia no Brasil, em que 33 países discutiram políticas de acolhida e integração com foco na proteção de crianças refugiadas no oriente médio, as vozes de refugiados sírios que vivem no Brasil ecoaram durante a programação do evento no Itamaraty.

O quarteto “Alma Síria” e a empreendedora Joanna Ibrahim participaram do evento, que aconteceu entre 4 e 6 de fevereiro, compartilhando por meio da música e de painéis de discussão sua cultura, experiências e histórias de vida após serem forçados a fugir da síria em decorrência da guerra.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) financiou a participação dos refugiados que trouxeram suas experiências de vida e culturais para compartilhar com as representações dos países durante as discussões do grupo de trabalho.

“Nosso objetivo é sempre garantir a que refugiados façam parte das discussões que envolvem suas vidas. E é uma oportunidade incrível poder apreciar a rica cultura de outros povos”, destacou a Oficial de Proteção, Adriana Ysern.

“Os encaminhamentos das discussões do grupo de trabalho deixaram claro os benefícios de ampliarmos uma abordagem transversal de proteção nos Estados, e isso inclui trazer pessoas refugiadas para o centro das discussões”, destacou.

Durante a abertura do evento, a banda se apresentou tocando músicas tradicionais do mundo árabe. Essa foi a segunda apresentação do grupo no Itamaraty, que também tocou durante a Reunião de Consulta da América Latina e do Caribe como Contribuição Regional para o Pacto Global sobre Refugiados, em fevereiro de 2018.

“Nós tocamos sempre que temos a oportunidade, é algo que fazíamos na Síria e isso nos conecta com nossa cultura. Está em nossa alma”, afirma Lucia.

“Muita coisa mudou desde a última vez que estivemos aqui. Minha filha nasceu e minha irmã se casou com o Oscar, que agora faz parte do Alma Síria – nossa família e banda estão se expandindo”, declarou Lucia, casada com Abdul e mãe da pequena Julia, de um ano e quatro meses de idade.

Agora, com a entrada do venezuelano Oscar, os instrumentos sírios tradicionais al oud e o qanon se encontraram com o violão elétrico, causando uma fusão de culturas e ritmos árabes e espanhóis. “Um dia estava tocando uma música síria e minha sogra me disse que era muito parecida com uma música espanhola”, revelou Miriam, que toca em uma orquestra de mulheres em Curitiba, onde vivem.

O grupo, que vive há 6 anos em Curitiba, encantou os presentes e após a apresentação foram recebidos pelo Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que agradeceu a participação do quarteto. “Fiquei realmente emocionado com a música, é muito linda. Isso representa o espírito da integração, da troca de culturas”, destacou o diplomata.

Educação e proteção de crianças

Integrando as discussões sobre a importância da educação no processo de proteção e integração de refugiados, a síria Joanna Ibrahim apresentou seu trabalho de empreendedorismo no setor gastronômico, o projeto Open Taste. Ela deu um testemunho de como o conhecimento que adquiriu foi essencial para poder construir seus projetos que hoje já impactam mais de 50 famílias de refugiados e migrantes em São Paulo.

“Quando cheguei aqui, tive que começar do zero. Para começar o Open Taste, busquei capacitação em empreendedorismo, marketing digital, tecnologia, inovação, e tive a oportunidade de participar de um programa de aceleração: aprendi sobre finanças, recursos humanos… Sem esse conhecimento eu jamais teria tido chances de triunfar”, afirmou.

A empreendedora e refugiada síria Joanna Ibrahim, de 32 anos, falou sobre sua possibilidade de triunfar profissionalmente a partir de oportunidades de estudo. Foto: ACNUR/Victoria Hugueney

A empreendedora e refugiada síria Joanna Ibrahim, de 32 anos, falou sobre sua possibilidade de triunfar profissionalmente a partir de oportunidades de estudo. Foto: ACNUR/Victoria Hugueney

Atualmente, seu projeto não só garante a geração de renda para famílias de diversas nacionalidades, mas principalmente impulsiona o conhecimento por meio de cursos e capacitações, cultivando esperança para que refugiados e migrantes vivendo em São Paulo possam reconstruir suas vidas por meio da gastronomia.

“Muitas vezes os refugiados precisam fazer o que é necessário para sobreviver. Mas a educação os dá uma oportunidade de prosperar. Poder investir em capacitações e desenvolvimento pessoal coloca a pessoa no caminho certo para enxergar um futuro. E quando você está no lugar certo, você enxerga que pode ir em frente.”

Por meio de parcerias com o setor privado, o Open Taste oferece espaços para comercialização de alimentos típicos de cada nacionalidade e oferece workshops em áreas como finanças, marketing, fotografia de celular para alimentos, storytelling, vigilância sanitária e atendimento ao cliente.

Enquanto ela continua a aprender e expandir seu negócio social, Joanna também conta com as lições que coletou ao longo de sua jornada. “O Open Taste me ensinou que pessoas podem fazer coisas incríveis e crescer se tiverem uma boa oportunidade”, disse. “O que mudou de verdade foram os chefs, eles encontraram no projeto um time, puderam ver um futuro melhor.”

No encontro do grupo de trabalho, as delegações dos países exploraram como melhorar o acesso à educação formal e apoio psicológico para as crianças mais vulneráveis e jovens, bem como caminhos alternativos de aprendizagem para aqueles enfrentando barreiras significativas para acessar os sistemas formais.

No total, mais de 47 milhões de pessoas já foram afetadas pelos conflitos no Oriente Médio, sendo que cerca de 20 milhões foram forçadas a se deslocar nos últimos anos, especialmente na Síria, Iraque e Iêmen. Deste total, as crianças e jovens são desproporcionalmente mais afetados e correm mais riscos ligados a recrutamento forçado, trabalho infantil separação familiar, violência de gênero e casamento infantil.