Refugiados muçulmanos de Mianmar já somam meio milhão, alertam agências da ONU

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A minoria muçulmana rohingya protagoniza hoje a crise de refugiados que mais cresce em todo mundo. Segundo estimativas, já são pelo menos meio milhão de civis fugindo de suas casas no estado de Rakhine, norte de Mianmar, na busca por proteção em Bangladesh.

O grupo é vítima de perseguições e de graves violações de direitos humanos, que as Nações Unidas descrevem como uma “limpeza étnica”.

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, esta crise humanitária não só fornece um “terreno fértil” para a radicalização, mas também coloca pessoas já em situação de vulnerabilidade – incluindo crianças pequenas – em grave risco. Ele pediu “ação rápida” para evitar mais instabilidade e encontrar uma solução duradoura.

ACNUR distribui suprimentos às famílias rohingya que se refugiam na aldeia de Hindu Par, em Bangladesh. Foto: ACNUR / Roger Arnold

ACNUR distribui suprimentos às famílias rohingya que se refugiam na aldeia de Hindu Par, em Bangladesh. Foto: ACNUR / Roger Arnold

A minoria muçulmana rohingya protagoniza hoje a crise de refugiados que mais cresce em todo mundo. Segundo estimativas, já são pelo menos meio milhão de civis fugindo de suas casas no estado de Rakhine, norte de Mianmar, na busca por proteção em Bangladesh.

O grupo é vítima de perseguições e de graves violações de direitos humanos, que o alto-comissário das Nações Unidas para os direitos humanos, Zeid Al Hussein, descreveu como uma “limpeza étnica”.

Deslocamento

A Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) anunciou, nesta sexta (29), que começou a distribuir lonas e itens de assistência para os rohingyas que chegam de Mianmar à vizinha Bangladesh.

“Dar aos refugiados recém-chegados a capacidade de construir seu próprio abrigo, começar a cozinhar sozinhos e cuidar de suas famílias é um primeiro passo importante no caminho da cura”, disse o porta-voz do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Andrej Mahecic, em uma coletiva de imprensa em Genebra.

Especialistas em nutrição do ACNUR estimam que aproximadamente 18% dos recém-chegados sofrem de desnutrição aguda, devido à escassez de comida.

“Testemunhamos uma necessidade extrema de apoio psicossocial e aconselhamento entre refugiados”, disse Mahecic, acrescentando que muitas mães que amamentam estão “gravemente traumatizadas, doentes e desnutridas”.

Do seu orçamento de 4,2 milhões de dólares, o ACNUR está contribuindo com 2 milhões de dólares para apoiar Bangladesh na construção de uma estrada para facilitar a entrega de itens de assistência no campo de Kutupalong.

‘Pesadelo para os direitos humanos’

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, a crise humanitária que resultou no deslocamento de centenas de milhares de rohingyas de Mianmar não só fornece um “terreno fértil” para a radicalização, mas também coloca pessoas já em situação de vulnerabilidade – incluindo crianças pequenas – em grave risco. Ele pediu “ação rápida” para evitar mais instabilidade e encontrar uma solução duradoura.

“A situação se expandiu para a emergência de refugiados em desenvolvimento mais rápida do mundo e um pesadelo humanitário e de direitos humanos”, disse o secretário-geral na quinta (28) em uma reunião do Conselho de Segurança sobre a situação em Mianmar.

Secretário-geral da ONU, António Guterres, fala no Conselho de Segurança sobre a situação dos refugiados rohingya. Foto: ONU/Kim Haughton

Secretário-geral da ONU, António Guterres, fala no Conselho de Segurança sobre a situação dos refugiados rohingya. Foto: ONU/Kim Haughton

Guterres alertou que o fracasso em enfrentar a violência pode resultar em uma tragédia no centro de Rakhine – onde 250 mil muçulmanos permanecem. O chefe da ONU enfatizou ainda que o governo deve garantir a segurança e de todas as comunidades e defender o Estado de Direito sem discriminação.

Em seu relatório, o secretário-geral também ressaltou que as agências das Nações Unidas e seus parceiros não governamentais devem ter acesso imediato e seguro a todas as comunidades afetadas.

Guterres enfatizou também a questão da apatridia sem desfecho para os muçulmanos em Mianmar. “Os muçulmanos do estado de Rakhine devem receber a nacionalidade”, afirmou, acrescentando que, embora a presente legislação de cidadania de Mianmar só o permita parcialmente, um exercício de verificação efetivo deve ser conduzido para permitir que seja concedida cidadania com base nas leis atuais.

“Todos os outros devem poder obter um status legal que lhes permita levar uma vida normal, incluindo liberdade de circulação e acesso ao mercado de trabalho, educação e serviços de saúde”, acrescentou.

‘Eles precisam de tudo’

Voltando de uma visita à região, o alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, alertou, na última quarta (27), sobre o sofrimento de milhares de refugiados rohingya que fogem da violência em Mianmar para Bangladesh.

No último fim de semana, Grandi visitou a extensão do campo de refugiados de Kutupalong no Cox’s Bazar, em Bangladesh, para testemunhar em primeira mão as duras condições enfrentadas pelos refugiados.

Chefe do ACNUR, Filippo Grandi, no campo de Kutupalong, em Bangladesh. Foto: ACNUR / Roger Arnold

Chefe do ACNUR, Filippo Grandi, no campo de Kutupalong, em Bangladesh. Foto: ACNUR / Roger Arnold

“Eles tiveram que fugir de uma violência muito repentina e cruel. E eles fugiram sem nada. Suas necessidades são enormes – comida, saúde, abrigo”, declarou. “Eles não têm absolutamente nada. Eu quase não vi na minha carreira pessoas que vieram com tão pouco. Eles precisam de tudo.”

“Bangladesh não é um país rico e não são pessoas ricas que dão essa ajuda. Isso, junto com a decisão tomada pelo primeiro-ministro para manter as fronteiras abertas, permitindo que as pessoas entrem, realmente devem ser elogiadas. Mais uma vez, um país com poucos recursos está dando um exemplo muito positivo em termos de solidariedade com os refugiados em muitos países que possuem muitos recursos e restringem o acesso”, afirmou.

Água limpa e saneamento necessários

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) está – em parceria com o ACNUR e outras agências – fornecendo água limpa e saneamento para cerca de meio milhão de pessoas que fugiram para o Cox’s Bazar.

À medida que dezenas de milhares de recém-chegados vivem com pouco ou nenhum abrigo, alimentos ou acesso à assistência médica – bem como as chuvas que diariamente inundam os acampamentos –, há uma ameaça letal causada pelas doenças transmitidas pela água, como o cólera.

A equipe da OIM de Água, Saneamento e Higiene (WASH, sigla em inglês) já perfurou seis poços profundos, fornecendo água limpa para 3 mil pessoas no acampamento Kutupalong.

Entretanto, as agências conseguiram atingir apenas 141.070 pessoas no Cox’s Bazar. Os engenheiros estimam ainda que são necessárias 18 mil latrinas de emergência para cumprir as demandas de saneamento básico para os recém-chegados.

A ponta do iceberg

Os relatos chocantes de estupro e agressão sexual contra meninas e mulheres rohingya em Mianmar podem ser “apenas a ponta do iceberg”, disse o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

A agência da ONU, que já ofereceu assistência médica e psiquiátrica para mais de 7 mil mulheres refugiadas, afirma que muitas vítimas não relataram o crime por medo ou vergonha. “Isso é o que torna difícil encontrar um número exato de sobreviventes de violência de gênero”, disse o comunicado divulgado na última quinta (28).

Nesse contexto, o UNFPA criou cinco ‘espaços amigáveis para mulheres’ – áreas onde elas podem ter acesso à segurança e informações – e planeja construir mais dez até o final do ano.

No entanto, dada a escala da crise, o UNFPA e outras agências da ONU, bem como parceiros, estão lutando por mais recursos. O UNFPA sozinho precisa de 13 milhões de dólares adicionais para atender a demanda por serviços nos próximos seis meses.

Você pode realizar doações para o ACNUR e ajudar os refugiados rohingya clicando aqui.


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