Refugiados malineses começam a retornar a Timbuktu, revela ACNUR

Desde 2012, a lendária cidade desértica e Patrimônio Mundial da Humanidade foi invadida por militantes e a violência gerou uma onda de refugiados. Após um frágil cessar-fogo em 2015, mais de 41 mil malineses voltaram ao país.

Jafar posa com sua esposa Zeinabou, sua filha Fadimata e seu sobrinho Sidi, em seu abrigo no campo de refugiados de Mentao, na Burkina Faso, dias antes de retornar ao Mali. Foto: ACNUR/P. Absalon

Jafar posa com sua esposa Zeinabou, sua filha Fadimata e seu sobrinho Sidi, em seu abrigo no campo de refugiados de Mentao, na Burkina Faso, dias antes de retornar ao Mali. Foto: ACNUR/P. Absalon

Famosa por seu centro comercial e pelas bolsas de estudo nos anos entre 1400 e 1500, Timbuktu fica no limite do deserto do Saara, a nordeste da capital do Mali, Bamako. Foi invadida por militantes em 2012, que arrasaram os edifícios históricos que datam da Idade de Ouro e levaram milhares de residentes para o exílio, tanto dentro Mali como no exterior.

“Quando eu deixei o Mali, estava um caos”, disse Jafar, 24 anos, que é de origem Tuareg. “Quando voltei, encontrei uma cidade que retomou às suas atividades econômicas. Forças de segurança nacionais e internacionais estão presentes, bem como as de ajuda humanitária. Eu encontrei os meus vizinhos, estava tudo bem com eles. Nossa família começou a voltar da Burkina Faso”.

Jafar é um dos cerca de 41 mil refugiados malineses que voltaram para casa após um frágil acordo de paz assinado em meados de 2015. Muitos, no entanto, encontraram suas casas em ruínas, seus pertences saqueados e seus trabalhos já não existiam mais. Em alguns lugares, é difícil encontrar água limpa e comida suficiente. Os preços dos bens básicos dispararam.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) realiza projetos de reintegração da comunidade que se concentram em educação, cuidados de saúde, higiene e água. As populações que permaneceram receberam apoio, da mesma forma que os refugiados que retornaram ao país. Mais de 800 refugiados retornados foram contabilizados pelo ACNUR, entre agosto de 2015 e janeiro 2016.

Jafar é um deles, mas ainda assim ele afirma ter sido uma decisão difícil deixar a segurança do campo de refugiados em Mentao, onde ele e sua família estavam vivendo na Burkina Faso, para retornar à incerteza. No campo, Jafar conheceu e se casou com sua esposa, Zeinabou, e juntos o casal teve uma filha, Fadimata, que hoje tem 18 meses. Depois de cinco anos distante de sua casa, e com uma família jovem para cuidar, o sentimento de segurança agora é tudo para Jafar.

“Foi a falta de segurança que nos obrigou a deixar o Mali. É a segurança que buscávamos em Burkina Faso. Nós encontramos esta segurança nos campos de refugiados. E porque soube que Timbuktu se tornou novamente segura eu decidi voltar lá com minha família”.

Mais de 140 mil refugiados

Sua principal preocupação é a falta de emprego. Ele precisa desesperadamente de um trabalho para sustentar sua família, para pagar o aluguel, mensalidades escolares e para suprir o valor dos estudos de enfermagem de sua esposa. Antes de deixar sua terra natal, ele estava estudando e pagava suas contas trabalhando como motorista para as agências de ajuda e clientes particulares. Agora, diz ele, “qualquer trabalho serve”.

“Com o meu diploma de ensino médio e a experiência que adquiri no campo, eu pretendo fazer trabalho humanitário. Mas eu ainda não possuo contatos específicos em Timbuktu, por isso vai ser difícil encontrar um trabalho se eu não tiver um diploma que reflita meu nível de habilidade. Nesse meio tempo, eu preciso pagar nossas despesas”.

Estas são as dificuldades que estão impedindo muitos dos 140 mil malianos que ainda estão refugiados em países vizinhos, como o Níger, Mauritânia e Burkina Faso, e a 62 mil pessoas que estão deslocados dentro do seu próprio país, retornarem para suas casas.

A situação da segurança no norte do Mali também permanece instável. O conflito iniciado em 2012 terminou oficialmente com acordos de paz em junho de 2015, mas os ataques proferidos por criminosos e militantes, bem como as violações dos direitos humanos, persistem. O acesso a algumas áreas onde as pessoas querem voltar a viver continua limitado para as agências humanitárias.

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