Refugiados fazem e distribuem máscaras contra a COVID-19 em São Paulo

Em ação apoiada pelo ACNUR e UNFPA, refugiados e migrantes fazem máscaras de proteção contra a COVID-19. Elas são entregues para moradores de abrigos públicos de São Paulo.

Conheça a história da designer e do jornalista sírios que estão atuando no projeto do coletivo Deslocamento Criativo com o Ministério Público do Trabalho e a Universidade de Campinas.

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Hayam Kasim estudava moda e francês em Damasco, na Síria, e estava a caminho de se tornar estilista profissional quando a guerra fez com que ela e a família deixassem o país. Há sete anos em São Paulo, sem falar português fluentemente e sem oportunidades de trabalho, ela e os três irmãos foram surpreendidos com a pandemia da COVID-19.

Agora, o talento de Hayam está sendo aproveitado para confeccionar máscaras de pano, que estão sendo distribuídas à população vulnerável de São Paulo. A ação é parte de um projeto encabeçado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), a Universidade de Campinas (Unicamp) e apoiado pelo Fundo de População da ONU (UNFPA) e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Hayam faz parte do coletivo Deslocamento Criativo e foi convidada a confeccionar as máscaras de forma remunerada, junto a outras pessoas com habilidade de costura que fazem parte do grupo. A ideia é estimular a atividade profissional das pessoas migrantes e refugiadas ao mesmo tempo em que garante a proteção de outras pessoas em situação de vulnerabilidade. Já foram produzidas 2 mil máscaras, que são distribuídas em abrigos para idosos, refugiados e migrantes, pessoas transexuais e para pessoas em situação de rua.

“Esse projeto auxilia essas pessoas em um momento em que migrantes e refugiados estão em uma condição laboral crítica, ao mesmo tempo em que eleva o conhecimento de saúde pública. É uma medida de mão dupla, promove saúde e conscientização”, define a professora coordenadora do Observatório das Migrações em São Paulo, Rosana Baeninger.

Sentada à máquina de costura, Hayam leva cinco minutos para confeccionar uma máscara, produzida em tecido do continente africano. Sozinha, a jovem de 29 anos já fez 450 máscaras, somente no último mês. “Eu posso fazer qualquer coisa. Esse é meu ramo”, orgulha-se. O dinheiro levantado com o projeto é o que tem sustentado a casa. “O Brasil é meu segundo país e eu peço ajuda para voar de novo. Meu sonho é ser estilista e fazer moda”, afirma.

Entrega  na Casa do Migrante – Parte do lote produzido foi distribuído aos moradores e funcionários da Casa do Migrante, abrigo mantido pela Missão Paz, entidade parceira da ACNUR no acolhimento de refugiados e migrantes. Atualmente, 66 pessoas, de 16 nacionalidades, vivem no local.

“A situação atual requer que todos trabalhemos juntos para ajudar nossos vizinhos e a cidade onde moramos. Consegui trazer a máquina de costura do estúdio onde trabalhava para minha casa, e aqui a produção não pode parar”, diz a designer síria.

A compra dos tecidos, a produção e a distribuição das máscaras estão sob a responsabilidade do coletivo Deslocamento Criativo, que conta com a participação direta de pessoas refugiadas no processo. Além da designer, outro sírio, Anas Obeid, está atuando na logística de entrega do material.

Formado em jornalismo, Anas Obeid produzia e vendia perfumes árabes sob encomenda e trabalhava em uma produtora de vídeo. Com a pandemia, se adaptou à nova realidade. Além de entregar as máscaras nos abrigos, ele explica aos refugiados e migrantes como manusear adequadamente o equipamento para garantir a higiene e mitigar os riscos de contaminação.

“Dentre os tantos trabalhos que realizo, acho importante contribuir neste momento para assegurar o bem-estar de refugiados e migrantes que vivem nos abrigos públicos, sem ter a possibilidade de conseguir um trabalho. Mas logo sairemos dessa, fortalecidos”, afirma Anas.

A refugiada venezuelana Ásia Carreño, de 58 anos, chegou na Missão Paz por meio do programa de interiorização do governo federal e ressalta a importância do uso das máscaras. “Não temos saído à rua para evitar a contaminação, mas mesmo aqui dentro, por convivermos próximos uns dos outros, as máscaras serão importantes para manter a nossa saúde”, disse. “E todos nós, idosos, crianças e adultos, vamos superar essa crise”, completa a moradora.

O coordenador da Missão Paz, padre Paolo Parise, lembra que as máscaras ajudarão na prevenção da COVID-19 junto aos moradores e funcionários da Casa do Migrante. “Estamos revendo nossas atividades para reduzirmos ao máximo a exposição das pessoas que vivem aqui ao ambiente externo e evitar a propagação do vírus. A entrega das máscaras fará com que as pessoas residentes e a equipe de trabalho possam se prevenir, inclusive durante a distribuição de cestas básicas que já realizamos no abrigo”, afirma Parise.

O coletivo Deslocamento Criativo é um projeto que mapeia e dá visibilidade à produção de refugiados que vivem em São Paulo e atuam na área da economia criativa, um setor dinâmico de negócios baseados no capital intelectual, cultural e na criatividade para gerar valor econômico. A plataforma serve como ponto de encontro para quem deseja conhecer e contratar trabalhos deste segmento, mesmo durante o contexto atual de pandemia.

ACNUR – A chefe do escritório do ACNUR de São Paulo, Maria Beatriz Nogueira, participou da entrega de máscaras na Casa do Migrante e lembrou que a pandemia exige solidariedade e cooperação de todos os setores. “É essencial assegurarmos que qualquer pessoa, independentemente de sua nacionalidade, possa ter acesso aos auxílios financeiros e aos serviços de saúde de forma plena, sem discriminação”, afirma.

O ACNUR está arrecadando doações financeiras para adquirir remédios, água potável, artigos de higiene e kits de proteção pessoal para famílias e, principalmente, idosos e crianças refugiadas em situação de vulnerabilidade. A Agência da ONU para Refugiados tem atuado no fortalecimento da comunicação com refugiados por meio da Plataforma Help e segue trabalhando de forma coordenada com os governos para garantir que as pessoas refugiadas sejam incluídas na resposta à COVID-19.

UNFPA – “Essa iniciativa vai ao encontro do trabalho que já estamos fazendo para diminuir o impacto da pandemia entre as pessoas mais vulneráveis. Ela garante renda para esses artesãos e artesãs ao mesmo tempo em que proporciona o acesso à máscara e à prevenção a um maior número de outras pessoas”, observa a representante do UNFPA, Astrid Bant.

Uma campanha de doação também está em curso pela internet, com a hashtag #euabracoestacausa, para quem deseja contribuir com a ação e adquirir máscaras produzidas por pessoas como Hayam. Basta acessar o site da campanha aqui ou entrar em contato pelo WhatsApp: (11) 95777-8549.