Refugiados encontram novas oportunidades de vida na Romênia

Vindos do Afeganistão, Iraque, Rússia, Nigéria, Síria, Marrocos, refugiados vivendo atualmente na Romênia sonham com carreiras e novos projetos pessoais em Timisoara, cidade no oeste do país europeu que os acolheu, Entre os deslocados forçados, uma dupla de amigas afegãs frequenta a universidade para estudar tecnologia da informação. Em sua terra natal, perspectivas de trabalho eram limitadas simplesmente pelo fato de serem mulheres.

Refugiados e residentes confraternizam em Timisoara, Romênia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Refugiados e residentes confraternizam em Timisoara, Romênia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Em uma casa no centro histórico de Timisoara, cidade no oeste da Romênia, locais e refugiados se reúnem para uma celebração multicultural. ““De onde vocês são? ”, pergunta o anfitrião. “Afeganistão, Iraque, Rússia, Nigéria, Síria, Marrocos”, responde o grupo aleatoriamente. Há quem diga que a festa é a mais animada da região.

“Experimente esse arroz com passas”, diz a afegã Fareshta. “Foi minha mãe quem fez”. A sala está repleta de pessoas que fugiram de seus países de origem por causa de riscos a sua segurança e integridade.

Na Romênia, os deslocados forçados tentam agora reconstruir suas vidas. Entre os que participam da reunião, estão alguns nativos do país europeu, como Flavius Ilioni-Loga, da organização ecumênica AIDRom. A instituição presta apoio aos refugiados oferecendo orientações profissionais, aulas e acomodações, além de promover eventos que abordam a diversidade cultural dos estrangeiros.

Um iraquiano chamado Zaher conta que adora o blog Humans of New York, que publica perfis e entrevistas de pessoas que vivem na cidade norte-americana. O rapaz de 26 anos pretende fazer algo no mesmo formato em Timisoara.

Zaher sonha em contar histórias sobre os refugiados que, como ele, vivem em Timisoara, cidade no oeste da Romênia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Zaher sonha em contar histórias sobre os refugiados que, como ele, vivem em Timisoara, cidade no oeste da Romênia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Zaher deixou o Iraque quando Saddam Hussein ainda estava no poder. Com a família, migrou para os Emirados Árabes. “Meu pai queria uma vida melhor para nós”, lembra o refugiado. Eles viveram bem por alguns anos. Na capital do novo país, Abu Dhabi, Zaher pôde se formar em engenharia civil.

A família estava na Romênia, visitando o irmão de jovem, que estudava medicina, quando os patrões do pai dos rapazes encerraram seu contrato de trabalho nos Emirados Árabes. “Era para termos deixado os Emirados e voltado para o Iraque. Mas não tínhamos condições de fazer isso, então ficamos na Romênia”, explica Zaher.

Apesar de ser formado em engenharia civil, ele sonha em fazer “algo social, algo para ajudar os refugiados que vivem aqui”. Após conversas com uma jornalista da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Zaher teve a ideia de cria uma página no Facebook, a Timisoara Tales.

Assistência para crianças

A AIDRom não promove apenas festas. Em sua sede, refugiados com crianças pequenas podem participar de atividades artísticas voltadas para o desenvolvimento da infância. Coordenada por Simona Ilioni-Loga, psicóloga e arte-terapeuta, a iniciativa envolve o uso de materiais, como papel higiênico e outros papelões coloridos, para a confecção de bonecos e brinquedos.

Fahima, a mãe de Fareshta, frequenta as aulas com a caçula Farnat, de nove anos. “Gostamos de vir aqui, é relaxante”, diz Fahima. “Nossa família passou por momentos muito estressantes”, afirma a refugiada, oriunda do Afeganistão.

Fahima, que era bioquímica, e o marido Abdul, engenheiro e jornalista, decidiram deixar o país de origem há dois anos e se juntar a parentes que já estavam na Romênia. O motivo foi o aumento da violência em sua cidade natal, Herat. “Lá, meu irmão e minha irmã foram mortos por uma bomba”, ela conta a moça.

Fahima (à direita) e Farnat participam de atividades artísticas na sede de uma organização não governamental. Foto: ACNUR/Zaher sonha em contar histórias sobre os refugiados que, como ele, vivem em Timisoara, cidade no oeste da Romênia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Fahima (à direita) e Farnat participam de atividades artísticas na sede de uma organização não governamental. Foto: ACNUR/Zaher sonha em contar histórias sobre os refugiados que, como ele, vivem em Timisoara, cidade no oeste da Romênia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

A vida na Romênia não tem sido fácil. Abdul atualmente trabalha lavando carros. O filho mais velho deles está trabalhando em um restaurante de fast food. Os dois filhos mais novos estão na escola.

Fareshta, de 19 anos, se divide entre o emprego numa loja de sapatos e os estudos na universidade. Os exames finais do primeiro ano já terminaram e ela passou em todos. Sorridente, ela sai da biblioteca com sua amiga Laila, de 25 anos, também do Afeganistão. As duas estão na mesma classe e estudam informática e engenharia de softwares. Laila, que está casada e tem um filho de seis anos, também foi aprovada nos testes.

Queríamos construir uma vida
nova, normal e em paz,
onde pudéssemos sorrir e ser felizes.

“Escolhemos estudar TI (tecnologia da informação) porque existem boas perspectivas de trabalho”, disse Laila. “Mas além disso, queríamos fazer algo moderno e atual, sem conexões com o passado.”

O passado não é nada inspirador. Fareshta se lembra dos “homens com barbas” — os talibãs — intimidando e ameaçando sua mãe. Laila, que é da minoria Hazara, testemunhou cenas piores. “O Talibã costumava parar o ônibus escolar, escolher os Hazaras entre os estudantes e atirar neles”, conta.

No Afeganistão, as duas teriam expectativas profissionais baixíssimas. “É difícil conseguir trabalho lá porque as mulheres têm de ser acompanhadas por homens para trabalhar”, relata Fareshta. “Além disso, existe muito nepotismo e corrupção no mercado de trabalho.”

“Estávamos cansadas de tudo isso”, diz Laila. “Queríamos construir uma vida nova, normal e em paz, onde pudéssemos sorrir e ser felizes”. Os homens de suas famílias apoiam suas aspirações.

“Meu marido está feliz por mim”, acrescenta a amida de Fareshta. “Ele também queria estudar, mas ele diz ´como agora não é possível para mim, você tenta, e talvez minha chance venha no futuro´. Ele é um bom homem.”

Fareshta e Laila terão que se dedicar bastante para concluir a formação universitária. Elas sonham com postos de trabalho em grandes empresas, mas também consideram a hipótese de abrir o próprio negócio. Quem sabe elas não se tornam as especialistas de que Zaher precisará para desenvolver o seu site de histórias sobre os refugiados.