Refugiados e migrantes são vítimas de trabalho forçado e cárcere em rotas que levam à Líbia

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Daniel conhece bem os perigos das estradas que levam para a Líbia. Desde que saiu do Camarões com destino à Europa, no início do ano, sua vida se transformou em uma jornada arriscada. Acompanhado do tio e do irmão gêmeo, esse camaronense de 26 anos conversou com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) sobre os caminhos que teve de percorrer e sobre os abusos por que passou para tentar atravessar o Mediterrâneo.

Daniel, migrante camaronês, é fotografado em Agadez, no Níger. Ele saiu de seu país com o irmão e seu tio, mas foi detido e torturado na Líbia. Foto: ACNUR/Louise Donovan

Daniel, migrante camaronês, é fotografado em Agadez, no Níger. Ele saiu de seu país com o irmão e seu tio, mas foi detido e torturado na Líbia. Foto: ACNUR/Louise Donovan

Daniel conhece bem os perigos das estradas que levam para a Líbia. Desde que saiu do Camarões com destino à Europa, no início do ano, sua vida se transformou em uma jornada arriscada. Acompanhado do tio e do irmão gêmeo, esse camaronense de 26 anos conversou com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) sobre os caminhos que teve de percorrer e sobre os abusos por que passou para tentar atravessar o Mediterrâneo.

“Quando chegamos na Líbia, o motorista nos disse que tínhamos que pagar mais 1,5 mil dinares (o equivalente a mil dólares) por pessoa, 4,5 mil dinares no total”, conta Daniel. “Não tínhamos nenhum dinheiro. Tentamos explicar a situação, mas eles não quiseram ouvir.”

Por falta de dinheiro, os três foram jogados em um dos centros de detenção informais da Líbia, onde foram espancados. “Fomos torturados, nos mantiveram num lugar onde permitiam que outros viajantes saíssem, menos nós, já que pensavam que podíamos escapar”, explica o jovem.

Daniel foi então levado de volta ao Níger, onde seus sequestradores líbios o submeteram a trabalho forçado, enquanto sua família continuava sendo mantida refém do outro lado da fronteira. Quando finalmente liberaram Daniel, depois de dois meses, o rapaz estava sem dinheiro e sem casa — e precisava de dinheiro para pagar o resgate dos parentes.

A angustiante viagem de Daniel o conduziu por um antigo caminho até o Mediterrâneo e o deixou em uma de suas interseções, em Agadez.

O que uma vez já foi o centro do comércio de ouro e sal, o labirinto feito de paredes de argila, no extremo sul do deserto do Saara, é agora o centro de um perigoso comércio de armas, drogas e, sobretudo, de pessoas. Em 2016, cerca de 330 mil pessoas cruzaram a Líbia pelo Níger, principalmente por Agadez, e cerca de um quarto dessas pessoas originárias do próprio Níger.

Sítio histórico virou rota do tráfico

A angustiante viagem de Daniel o fez chegar a Agadez, antigo centro do comércio de ouro e sal, com seu célebre labirinto feito de paredes de argila. Localizada no extremo sul do deserto do Saara, a cidade é agora o polo de um perigoso comércio de armas, drogas e, sobretudo, pessoas. Em 2016, cerca de 330 mil pessoas cruzaram a Líbia pelo Níger, principalmente por Agadez, e cerca de um quarto desses indivíduos era do próprio Níger.

Em 2015, dada a grande pressão dos governos da União Europeia, o Níger começou uma investida contra a ajuda prestada por pessoas comuns aos viajantes, principalmente da África Ocidental e Central, que deixavam seus países de origem rumo à Líbia. Em troca, a UE ofereceu mais de 2 bilhões de euros para ajudar a região – além de outros países africanos prioritários – em setores que vão desde a segurança até o desenvolvimento econômico.

Embora o número de pessoas que transitam por Agadez tenha diminuído, alguns observadores afirmam que a manobra está forçando o tráfico de pessoas clandestino, tornando o comércio ilícito ainda mais perigoso.

Traficantes estão tomando rotas alternativas que são menos conhecidas e cobrando preços mais altos pelos seus serviços. Aqueles que se autodenominam “provedores de serviços de migração”, em Agadez, também dizem que seu negócio de transporte de pessoas está atraindo mais contrabandistas, que também transportam drogas e armas.

Grupos de migrantes foram abandonados no deserto, alguns deliberadamente. Outros quando o veículo do contrabandista deixa de funcionar. Às vezes, são resgatados, mas alguns morreram. Na fronteira da Líbia, outras ameaças aguardam aos viajantes. O país, em plena agitação civil e política, transformou-se numa “máquina que destrói os seres humanos”, diz Vincent Cochetel, enviado especial do ACNUR para a situação do Mediterrâneo Central, durante uma visita ao Níger na semana passada.

“Independentemente da situação, migrantes econômicos ou refugiados, dizemos às pessoas que é perigoso viajar à Líbia. As pessoas desaparecem. As pessoas morrem no deserto, muito mais que os que estão morrendo no Mediterrâneo na tentativa de cruzá-lo para chegar à Europa”, acrescenta o dirigente.

A maioria daqueles que se arriscam a realizar essa desesperada viagem é migrante. Contudo, segundo levantamentos do ACNUR, cerca de 30% dos que decidem percorrer as rotas migratórias pelo Níger poderiam conseguir proteção internacional ao chegar à Europa.

“É algo que aprendi durante esta viagem a Agadez, a partir dos depoimentos que escutamos das pessoas”, afirma Vincent. “Todo mundo viu as pessoas morrerem na frente deles nos centros de detenção, seja pelas mãos de milícias, contrabandistas ou traficantes de pessoas. Todo mundo teve essa experiência. Dizemos às pessoas que é para sua própria proteção. É perigoso estar ali. Há soluções sendo propostas.”

O ACNUR intensificou suas operações no Níger, tanto para identificar e proteger as pessoas de interesse, em situações de vulnerabilidade, como também para ajudar o governo do país a aumentar e aperfeiçoar seus serviços de avaliação das solicitações de refúgio.

O organismo internacional também está trabalhando em estreita colaboração com sua parceira, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), para que as pessoas que deixaram seu país por causa da guerra ou perseguição saibam que é possível se refugiar no Níger.

Após dois meses, Daniel foi liberado pelos seus sequestradores nas ruas de Agadez. Lá, encontrou consolo na pequena paróquia católica da cidade. “Conheci outras pessoas que querem ir à Líbia”, diz o jovem. “Contei a elas o que passei. Não sei se elas foram ou não. Isso depende delas. Mas sei que fiz minha parte como cristão, avisando a essas pessoas sobre o que acontece lá fora.”


Mais notícias de:

Comente

comentários