Refugiados de El Salvador encontram paz no Belize

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Na década de 90, Belize acolheu refugiados das guerras civis na América Central. Hoje, o país está recebendo novos deslocados forçados, que fogem da violência do crime organizado. É o caso da família Menendez, ameaçada de morte por um grupo criminoso de El Salvador.

Refugiados salvadorenhos encontram paz em comunidade rural no Belize. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Refugiados salvadorenhos encontram paz em comunidade rural no Belize. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Juan Barrera* foi forçado a fugir de El Salvador sozinho quando tinha apenas 16 anos. Isso foi em 1990, durante a guerra civil do país. Juan rodou pela América Central por anos, sobrevivendo como pôde, até que um tio lhe falou sobre um recanto de paz localizado próximo à fronteira da Guatemala, em Belize, pequeno país anglófono banhado pelo mar do Caribe.

O salvadorenho encontrou a cidade, juntou dinheiro suficiente para comprar um lote de terra e começou a se dedicar à agricultura de subsistência. Quase 30 anos depois, Juan vive confortavelmente, plantando repolho, pepinos, tomates e outros vegetais para vender em Belmopan, capital do Belize. Um de seus filhos já foi para a universidade e uma de suas filhas está prestes a seguir o mesmo caminho.

Juan é um entre as centenas de refugiados da América Central que encontrou segurança no chamado Vale da Paz. Hoje, com a vida ganha e família encaminhada, ele espera conseguir passar adiante toda a ajuda e encorajamento que um dia recebeu para uma nova geração de refugiados.

Em uma escaldante tarde, ele se debruça sobre uma motocicleta velha ao lado Benjamim e Carlos Menendez, dois irmãos adolescentes de El Salvador que são seus mais novos vizinhos. Juan lhes disse que poderiam usar a motocicleta caso a consertassem.

Ele conheceu os Menendez em 2016, depois que os meninos e a família se viram forçados a deixar seu país de origem devido a uma nova onda de violência. “A primeira coisa que vem à cabeça é ‘Já passei por isso’”, conta Juan, agora com 50 anos. “Você vê uma pessoa passando pelo mesmo e tem vontade de ajudar.”

Antes dos problemas que os obrigaram a fugir para Belize, a família Menendez era feliz em El Salvador. O pai deles, Roberto, teve uma carreira de sucesso no Exército antes de se aposentar e se tornar comerciante na cidade em que vivia. A mãe, Juana, passava seus dias na padaria da família. Mas a calmaria não duraria muito, pois pais e filhos ficaram na mira do crime organizado.

Na região norte da América Central, violentas gangues de rua, como a MS-13 e a Barrio 18, estão por trás de extorsões, assassinatos, sequestros e tráfico de drogas. Os bandidos aliciam jovens e recrutam meninas para exploração sexual.

Vale da Paz é refúgio para pessoas fugindo da violência em outras partes da América Central. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Vale da Paz é refúgio para pessoas fugindo da violência em outras partes da América Central. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Todos os seis filhos Menendez — Benjamin e Carlos têm outros quatro irmãos — sofreram abusos e ameaças desses grupos criminosos. Todos resistiram e viveram por um longo período com o temor de sair de casa. Toda vez que eles saíam, Juana temia que alguém não voltasse mais.

Um dia, Juan Roberto, de dez anos, testemunhou os marginais fugindo logo após terem realizado um sequestro. O garoto contou o que viu para os pais. Isso fez com que a família se tornasse um alvo da quadrilha. Roberto, o pai, também se recusou a pagar a chamada “taxa de guerra” exigida pela gangue. Para piorar, como ele já havia sido um oficial do exército, o grupo o considerava um inimigo.

Pouco depois, os criminosos vieram atrás do ex-militar. Ele recebeu um ultimato: saia pacificamente de casa para que nós possamos te matar ou começaremos a matar seus filhos um a um. Ele escolheu proteger a família e foi encontrado morto pela polícia mais tarde naquele mesmo dia. Abalados pela dor e pelo medo, a família deixou a cidade.

Um problema burocrático impossibilitou a família de receber a pensão do pai e eles ficaram com pouco dinheiro. Um primo sugeriu que eles recomeçassem suas vidas em Belize. Então, Juana e seus seis filhos, mais as esposas dos dois mais velhos e sua neta, se mudaram para o Vale da Paz.

Um vale sem guerras

A comunidade foi fundada em março de 1982 por George Price, primeiro-ministro de Belize na época, como um local seguro para refugiados que fugiam das guerras civis na América Central, especialmente do conflito em El Salvador.

Inicialmente, pouco mais de uma dúzia de famílias chegaram à região e desbravaram a densa selva para se estabelecer e criar plantações. Todos receberam fundos da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e de seus parceiros. Atualmente, mais de 600 famílias vivem na vila.

“Aqui nessa cidade, somos belizenses com muito orgulho, mas também somos refugiados”, conta Jose Amilcar Amaya, professor e historiador extraoficial da região. O docente chegou ao Vale no mesmo ano de sua fundação. “Os filhos de refugiados hoje são doutores, policiais, engenheiros ou, assim como eu, professores.”

“O Vale da Paz é um excelente exemplo de histórias de sucesso de refugiados”, afirma o chefe do escritório do ACNUR em Belize, Andreas Wissner. “Também é um exemplo sobre como receber novos refugiados que fogem da violência no norte da América Central.”

A família Menendez sentiu esse acolhimento.

“Jamais imaginei que encontraríamos um lugar para viver em paz novamente”, diz Juana, enquanto as galinhas que foram doadas por seus vizinhos ciscam aos seus pés. “Nós sabíamos que se permanecêssemos em El Salvador, a gangue mataria toda a nossa família.”

O apoio financeiro do ACNUR ajudou a família a pagar o aluguel e a comprar comida nos primeiros meses em que chegaram ao Vale da Paz. Eles também receberam apoio da agência da ONU e parceiro Help for Progress para encaminhar as suas solicitações de refúgio às autoridades.

Juan Barrera aluga sua segunda casa para a família Menendez por uma fração do valor real. Como parte de um coletivo agrícola, ele ajudou os recém-chegados a obter um pequeno lote de terra, onde plantam milho e feijão, o que mantém todos alimentados.

Os vizinhos do Vale da Paz sabem que os Menendez trabalham duro. “Quando há trabalho, você consegue viver aqui”, diz Alfredo, de 24 anos, o mais velho dos filhos. Em uma boa semana, ele e seus irmãos podem ganhar até 90 dólares cada. Em períodos menos movimentados, ganham apenas 30 dólares por semana.

Os garotos têm um sonho próprio: ajudar a mãe a voltar trabalhar, fazendo o que ela amava. “Queremos ganhar o suficiente para ajudá-la a abrir sua padaria novamente”, explica Alfredo. “Ela tem sido forte por todos nós, então queremos fazer algo por ela.”

*Nomes alterados por questões de segurança.


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