Refugiados camaroneses encontram dificuldades para recomeçar vida na Nigéria

Embates violentos entre militares de Camarões e separatistas armados já provocaram o deslocamento de aproximadamente 437 mil pessoas dentro das fronteiras do país e forçaram outras 35 mil pessoas a buscar refúgio na Nigéria.

Entre a população deslocada, a maioria é composta por mulheres e crianças advindas de áreas anglófonas. Elas estão tendo dificuldades para retomar suas vidas na Nigéria, devido à falta de espaço em abrigos e de escolas para as crianças. Leia o relato da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Família camaronesa em colchonete improvisado ao ar livre no campo de refugiados de Agadom, em Ogoja, na Nigéria. Foto: ACNUR/Will Swanson

Família camaronesa em colchonete improvisado ao ar livre no campo de refugiados de Agadom, em Ogoja, na Nigéria. Foto: ACNUR/Will Swanson

Agah Rachel assistiu ao horror de perto, quando homens armados invadiram sua vila, no sudoeste de Camarões, e executaram seu marido na sua frente.

Imediatamente após o assassinato, Agah, agora viúva, decidiu agir rápido. Ela agarrou seus filhos e fugiu para o meio da mata, carregando poucos itens pessoais.

Junto com seu irmão, cunhada e sobrinhos, ela fez uma jornada de dias escondida entre a vegetação, até que, finalmente, conseguiu alcançar a fronteira com a Nigéria.

“Eu passo meus dias e minhas noites pensando muito. Penso na crise do meu país e penso no meu marido”, contou Agah à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Embates violentos entre os militares de Camarões e os separatistas armados já causaram um deslocamento de aproximadamente 437 mil pessoas dentro das fronteiras do país e forçaram outras 35 mil pessoas a buscar refúgio na Nigéria.

Dentre a população deslocada, a maioria é composta por mulheres e crianças advindas de áreas anglófonas. Elas encontram dificuldades para sobreviver em ambos os países.

Como tiveram que abandonar seus lares rapidamente, a chegada desses refugiados a comunidades também desgastadas e com poucos recursos agravou as condições locais de fornecimento de alimentos, serviços de saúde, água e banheiros.

A fim de mitigar essa situação e aumentar o apoio aos refugiados de Camarões – que sobreviveram a quase dois anos de violência – o ACNUR lançou recentemente um apelo urgente. No entanto, do valor necessário para melhorar o funcionamento das operações da agência na Nigéria (184 milhões de dólares, incluindo 35,4 milhões para dar assistência necessária às pessoas que foram deslocadas), apenas 4% foram arrecadados.

Em Adagom, Rachel encontrou segurança, mas se preocupa constantemente com o futuro de seus filhos.

“Nós já estamos aqui há nove meses e meus filhos ainda não puderam frequentar a escola, pois não há capacidade para (receber) todas as crianças”, disse. “Eu não tenho como resolver essa situação, pois não tenho uma fonte de renda.”

Embora o ACNUR tenha expandido algumas escolas para que pudessem aceitar mais alunos, os números de estudantes continuam muito altos para que todas as crianças sejam acolhidas. Assim como Rachel, Emmanuel Apusa escapou de um ataque brutal à sua comunidade, em Miyerem, perto da fronteira de Camarões com a Nigéria.

“Eles chegaram atirando em nossa vila”, disse. “Neste exato momento, há vários corpos apodrecendo a céu aberto na minha vila.”

Ele conseguiu chegar à Nigéria através de uma trilha de três dias no meio da mata, acompanhado de alguns vizinhos que fugiram juntos.

Emmanuel está em um assentamento – um dos três locais de abrigo para refugiados de Camarões – que teve sua capacidade de 4 mil vagas dobrada e, atualmente, abriga mais de 7 mil refugiados. Recentemente, esse número aumentou ainda mais com a chegada de pessoas que viviam em outras comunidades e que têm sido realocadas para os assentamentos desde novembro.

“A situação é desesperadora”, disse Josiah Flomo, chefe do sub-escritório do ACNUR em Ogoja.

“A falta de fundos limita severamente a nossa capacidade de atender às necessidades das pessoas vulneráveis, em todos os setores.”

Flomo acrescentou que a pressão nas estruturas existentes – incluindo escolas, centros de saúde e pontos de água tratada – está aumentando e os recursos disponíveis estão ficando cada vez mais desgastados.

Muitas pessoas recém-chegadas não conseguiram vaga em abrigo adequado. Elas têm sido acomodadas em grandes salões de recepção, feitos de telhas de plástico, que, por sua vez, já se encontram superlotados.

“A nossa situação é complicada”, declarou Emmanuel. “Olhe para as pessoas aqui; nós não conseguimos dormir juntos dentro deste salão. Então, muitos acabam dormindo lá fora.”

Rachel, por sua vez, mora em uma tenda emprestada. As condições, no entanto, estão longe das ideais, já que ela divide o local com mais dez pessoas, incluindo seus filhos, sua cunhada e sobrinhos.

“Eu coloquei um pedaço de tecido no chão para que meus filhos e sobrinhos possam dormir”, explicou.

O ACNUR está trabalhando em parceria com o governo nigeriano para registrar todas as novas chegadas e fornecer assistência básica. Esse esforço inclui acessar refugiados abrigados em comunidades de 47 vilas localizadas ao longo da fronteira – um número pessoas que compõe 60% da população de refugiados.

“O acesso aos refugiados nessas áreas é desafiador, por causa do tempo de viagem, além da condição precária das estradas durante a temporada de chuvas”, disse Flomo.

Para aliviar a tensão sobre os recursos disponíveis, o ACNUR planeja montar novos abrigos para aqueles que chegam a Agadom. Além disso, alguns refugiados já estão sendo transferidos para Okende. No entanto, há um receio constante de que, caso a crise em Camarões se prolongue, haverá novas levas de pessoas deslocadas nos próximos meses, e talvez o ACNUR não tenha capacidade de atender todos que precisam de apoio.

“Enquanto o fluxo de refugiados continuar, precisaremos dar assistência a eles”, disse Flomo. “Mas precisamos de colaboração urgente para que possamos aliviar a situação de desespero.”

Para a maioria dos refugiados, incluindo Rachel e Emmanuel, as dificuldades de lidar com a vida no exílio continuam.

“Eu estou sofrendo muito, todos nós estamos”, lamentou Rachel. “Não é fácil abandonar seu país e passar por mais sofrimento em um novo país.”

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