Refugiadas vivendo no Líbano fazem bonecas de pano para contar histórias de cidadãos sírios

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No Líbano, 80 costureiras traduzem em bordado as histórias de cidadãos da Síria que ainda vivem no país em guerra. O resultado são bonecas de pano que contam as histórias desses cidadãos. A venda dos produtos é revertida para os personagens reais desses contos. Desde abril de 2016, quando o projeto começou, mais de 1,5 mil bonecas já foram vendidas em países como o Líbano, Kuwait, França e Austrália.

Amina é uma das 80 costureiras espalhadas pelo Líbano que participam do projeto. Foto: ACNUR/Houssam Hariri

Amina é uma das 80 costureiras espalhadas pelo Líbano que participam do projeto. Foto: ACNUR/Houssam Hariri

Dentro de um dos incontáveis edifícios do campo de refugiados de Chatila, no Líbano, a refugia síria Amina, de 56 anos, borda meticulosamente escamas de peixe em um tecido de algodão. Uma fina parede de concreto separa ela da confusão que acontece no campo de refugiados palestinos, localizado nos subúrbios ao sul de Beirute. Chatila tem recebido expatriados da Síria desde que a guerra começou no país em 2011.

“Estou bordando um peixe. Ele representa o sonho que uma família tem de viajar”, conta Amina. “Eles têm uma filha pequena que tem medo de viajar. Por quê? Porque ela tem medo de se afogar no mar e de ser comida por peixes.”

A refugiada faz parte de uma iniciativa liderada pela família Mousalli, composta por um pai libanês, uma mãe síria e suas filhas, Marianne e Melina. Em abril do ano passado, eles decidiram dar voz aos sonhos de sírios da cidade de Alepo.

Um parente dos Mousalli que ainda mora na Síria envia histórias de pessoas que vivem por lá. A família transforma as histórias em desenhos, e mulheres refugiadas usam o bordado para transpor a arte para bonecas de algodão.

“Cada boneca leva o nome da pessoa cuja história ela representa”, explica Marianne, enquanto segura uma das bonecas. “Esta é Adreyeh. Ela vem de Alepo. O seu filho Hassan sonha em reconstruir sua casa na cidade. Então, bordamos sua casa dos sonhos aqui.”

Bonecas são adornadas com desenhos para contar as histórias de sírios que ainda vivem no país em guerra. Foto: ACNUR/Amina é uma das 80 costureiras espalhadas pelo Líbano que participam do projeto. Foto: ACNUR/Houssam Hariri

Bonecas são adornadas com desenhos para contar as histórias de sírios que ainda vivem no país em guerra. Foto: ACNUR/Amina é uma das 80 costureiras espalhadas pelo Líbano que participam do projeto. Foto: ACNUR/Houssam Hariri

Intitulado “A coleção Ana” — a palavra “Ana” quer dizer “Eu” em árabe —, o projeto aborda o sofrimento oculto dos cidadãos de um país devastado pela guerra. Com linhas coloridas e imaginação, os rostos dos sírios — e sobretudo, suas trajetórias singulares — ganham forma no tecido.

“Hoje, a maioria das coisas que vemos na televisão foca na ideia de guerra na Síria”, explicou Marianne. “Muitas vezes, esquecemos que há pessoas que ainda vivem lá e que têm histórias para contar. Não é que as pessoas não se importem, mas veem uma grande guerra, não veem indivíduos.”

A iniciativa levou à criação de duas coleções — “Dentro de Alepo” e “A Coleção de Festividades”. Agora, os participantes trabalham em uma terceira coleção, “Histórias do Bekaa”, para a contar as vivências e esperanças de refugiados vivendo no vale localizado no leste do Líbano.

“Muitas pessoas compram essas bonecas para seus filhos”, afirma Marianne. “Quando uma criança carrega uma boneca chamada Hamida, seus pais lhe dizem ‘Hamida tem sua idade, ela quer voltar para casa e brincar com os amigos’. Eles se identificam com mais facilidade.”

Refugiados sírios no Líbano

O Líbano abriga atualmente mais de 1 milhão de refugiados sírios registrados, quase um quinto da população total. O país vizinho da Síria tem a maior proporção de refugiados do mundo.

Além de dar visibilidade às vítimas esquecidas da guerra, o projeto ajuda a criar um “círculo virtuoso de empoderamento”, diz Marianne. “As pessoas sabem que se compram a boneca Salma, elas vão ajudar a verdadeira Salma que está na Síria, que o dinheiro da venda será destinado para ela.”

Com agulha e linha, refugiadas vivendo no Líbano tecem as histórias de seus compatriotas que ainda vivem na Síria. Foto: ACNUR/Houssam Hariri

Com agulha e linha, refugiadas vivendo no Líbano tecem as histórias de seus compatriotas que ainda vivem na Síria. Foto: ACNUR/Houssam Hariri

O preço da boneca varia de 25 a 65 dólares, de acordo com o tamanho. As arrecadações vão para as mães e as crianças que são os protagonistas das narrativas materializadas em bordados. O dinheiro também cobre parte do custo de produção, incluindo o trabalho das 80 mulheres que participam da iniciativa no Líbano.

Refugiados sírios no Líbano, como Amina, acreditam que o projeto ajudou a aprimorar suas habilidades. “É um bom ofício”, conta a costureira. “Ensinei à minha cunhada e sobrinha, elas bordam em casa agora.”

Desde o início do projeto, mais de 1,5 mil bonecas com 48 histórias foram vendidas em países como o Líbano, Kuwait, França e Austrália. A etiqueta de cada boneca carrega a mensagem que Marianne quer passar todos os dias, em nome de todas as mães sírias: “Eu protejo os sonhos dos meus filhos”.


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