Refugiadas vivendo no DF participam de oficina de artesanato promovida por ACNUR e parceiros

Refugiadas do Afeganistão, Colômbia, Síria e Sudão do Sul aprenderam a fazer peças artesanais com o couro descartado pela linha de produção de bolsas da fábrica Confraria. Material foi transformado em adereços e reincorporado à manufatura dos produtos.

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Na última quarta-feira (20), no Distrito Federal, seis refugiadas do Afeganistão, Colômbia, Síria e Sudão do Sul concluíram uma oficina de produção de adereços em couro a partir das sobras da fabricação de bolsas da Confraria — renomada marca do mercado brasileiro e do exterior. A capacitação foi fruto de uma parceria entre a empresa, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e entidades da sociedade civil.

Ao longo de quatro módulos de ensino, as estrangeiras aprenderam a fazer peças artesanais com materiais que podem, então, ser reincorporados à linha de produção das bolsas.

O objetivo da iniciativa era atender às necessidades específicas das refugiadas vivendo no DF e fornecer informação sobre novas possibilidades de emprego. Atualmente, cerca de 30% dos 8.863 mil refugiados que vivem no Brasil são mulheres, segundo dados do Ministério da Justiça.

Para além do aprendizado, porém, os encontros da oficina também foram uma oportunidade para as refugiadas conversarem sobre experiências que viveram na terra natal, envolvendo muitas vezes conflitos armados, perseguições e violência de gênero.

“Na primeira aula interagimos pouco devido à dificuldade da língua, mas já a partir da segunda estávamos compartilhando nossas histórias pessoais. Isso fez com que, a cada aula, tivéssemos mais conhecimento e intimidade entre nós, além do conhecimento das técnicas de artesanato”, disse a refugiada sul-sudanesa Eiman Haroon, que chegou ao Brasil no ano passado.

A professora e artesã Roze Mendes se surpreendeu com os resultados das alunas não somente pela vontade de aprender, mas principalmente pelas habilidade das refugiadas em relacionar sua bagagem cultural à nova proposta.

A ideia inicial de trabalhar um único modelo de flor deu lugar a uma variedade de adereços que empolgou também a estilista e empresária Ana Paula de Ávila e Silva, proprietária da Confraria.

“Elas são muito dedicadas e me surpreenderam. Já para a próxima coleção de inverno de 2017 vou utilizar nas alças de algumas bolsas os traçados que algumas fizeram com as tiras de couro, um traçado originalmente de tranças de cabelo”, elogiou a designer.

“O tempo em que estas mulheres refugiadas estiveram com a gente mostrou que, mesmo há pouco tempo vivendo no país, elas podem se sentir úteis e valorizadas por aquilo que aprendem e realizam”, acrescentou.

A colombiana e participante da oficina, Maria Mathide, vive no Brasil há dois anos com seu marido e filho de oito anos. Em seu país de origem, ela era cuidadora de idosos, mas por conta da violência na Colômbia, teve de abandonar o lar e o trabalho.

“Todo esse aprendizado (no curso)  facilitou que pudéssemos conhecer outras colegas refugiadas, aprender novas habilidades profissionais e produzir para gerar renda. Acima de tudo, o curso nos permitiu sonhar novamente, relacionando que um retalho de couro pode se tornar uma bonita flor.”

A oficina contou com o apoio do Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e do Instituto UniCEUB de Cidadania (IUC).

A diretora do IMDH, Irmã Rosita Milesi, ressaltou a importância dos laços entre os parceiros envolvidos para que as mulheres, de fato, não tenham suas histórias restritas às suas vidas cotidianas dentro do lar que residem. “Fiquei muito feliz com os resultados e isso mostra bem os diferentes caminhos que mulheres refugiadas podem trilhar para sua autossuficiência.”

Já a chefe da unidade de Programa do ACNUR no Brasil, Carolina Smid, destacou que “as mulheres fazem parte dos grupos mais vulneráveis dentre os refugiados, por estarem expostas a diferentes tipos de violência de gênero. e projetos como este reforçam suas qualidades e trajetórias, criando espaços seguro”.

Pelos próximos meses, a agência da ONU e seus parceiros vão dar continuidade ao projeto e chamar outras refugiadas para participar das oficinas. Entre as novas alunas, o ACNUR espera contar com a presença de estrangeiras que pouco saem de casa e cujas vidas ainda se resumem a atividades nos espaços domésticos.

Por Miguel Pachioni, de Brasília