Refugiada venezuelana retoma vida no Rio trabalhando como cuidadora de idosos

Cuidar do outro é essencialmente um ato de amor. Por isso, através do trabalho de cuidadora de idosos, a refugiada venezuelana Alida Josefina Rodríguez diz ter reencontrado a alegria e a paz. Ela conseguiu emprego em dezembro do ano passado, por intermédio do Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da organização Cáritas RJ. Não apenas sua vida mudou, como a de toda a família para a qual ela agora trabalha.​

Formada em Medicina, mas impedida de trabalhar como médica antes da revalidação do diploma, ela procurou o PARES em busca de uma especialização que tivesse relação com sua profissão original e que a ajudasse na inserção no mercado de trabalho brasileiro.

O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

A venezuelana Alida Rodríguez (à esquerda), ao lado da brasileira Helena Maria de Araújo. Foto: Arquivo Pessoal

A venezuelana Alida Rodríguez (à esquerda), ao lado da brasileira Helena Maria de Araújo. Foto: Arquivo Pessoal

Cuidar do outro é essencialmente um ato de amor. Por isso, através do trabalho de cuidadora de idosos, a refugiada venezuelana Alida Josefina Rodríguez diz ter reencontrado a alegria e a paz. Ela conseguiu emprego em dezembro do ano passado, por intermédio do Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da organização Cáritas RJ. Não apenas sua vida mudou, como a de toda a família para a qual ela agora trabalha.​

Alida, de 56 anos, chegou ao Brasil em março de 2018, com o irmão mais velho e o sobrinho. “A situação na Venezuela estava muito ruim, foi muito difícil para mim e para minha família”, relembrou.

Formada em Medicina, mas impedida de trabalhar como médica antes da revalidação do diploma, ela procurou o PARES em busca de uma especialização que tivesse relação com sua profissão original e que a ajudasse na inserção no mercado de trabalho brasileiro. Surgiu, então, a oportunidade de fazer um curso de cuidador de idosos, uma parceria entre a instituição e a empresa de energia Furnas. Foram três meses de treinamento, concluídos em julho.

Em dezembro do ano passado, ela encontrou o que tanto desejava: um emprego. A servidora federal Patrícia de Araújo buscou o PARES a fim de contratar um refugiado qualificado que tomasse conta de sua mãe, Helena Maria, uma senhora de 82 anos com dificuldades de caminhar, sequela de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há sete anos.

Sensibilizada pela condição das pessoas em situação de refúgio, Helena viu uma oportunidade de ajudar e, ao mesmo tempo, resolver um problema doméstico, depois de experiências de maus tratos com cuidadores no passado.

“Contratei uma cuidadora que estava batendo na minha mãe. Minha mãe começou a ter um comportamento estranho, sem querer me falar. Mas depois se abriu, revelando os maus tratos. Eu pensei ‘chega disso, não quero mais viver essa situação’. Já com conhecimento do trabalho do PARES Cáritas pela imprensa, e interessada na boa educação sobretudo dos venezuelanos, concluí: a hora é essa”, explicou Patrícia.

Na entrevista, a conexão das duas foi imediata. “Eu fui de cara com ela, acho que ela foi de cara comigo também. Detalhe que eu não sabia que Alida era médica. Foi uma surpresa, fiquei muito desconcertada, porque não tinha como remunerá-la no nível que ela merecia”, preocupou-se Patrícia.

No entanto, depois de uma conversa franca, tudo ficou resolvido e a venezuelana foi contratada. Para Alida, a conversa também foi especial. “Patrícia é uma pessoa muito simples, de uma inteligência emocional grande, importante principalmente para nós refugiados”, elogiou.

A afinidade foi tão grande que, na primeira semana de serviço, a venezuelana teve uma surpresa. Era seu aniversário, mas, sem recursos, ela não havia planejado nenhuma comemoração. “Às seis da tarde, chegaram meu sobrinho, meu irmão e um amigo, com um bolo comprado pela filha da senhora. Isso ficou na memória do meu coração”, lembrou Alida.

“Foi um reencontro com a paz pra mim. A alegria voltou ao meu coração. Além da recompensa financeira, estou fazendo o que sempre fiz na Venezuela: cuidar de alguém.”

Patrícia destaca o profissionalismo da contratada. Alida não faz apenas o básico, como prover alimentação e garantir a higiene da senhora, com relatórios diários. A venezuelana vai além: lê para a idosa, reza e coloca músicas para tocar.

“Eu vou para o meu trabalho tranquila, sabendo que minha mãe está em boas mãos, com alguém em que posso confiar e que dá um tratamento diferenciado”, disse a servidora federal. Segundo ela, a vida da família mudou positivamente, principalmente pela enriquecedora troca de informações culturais, “um dos principais benefícios na contratação de um refugiado”.

À funcionária, os elogios são muitos: “poderia sintetizar a Alida em algumas palavras: amor, dedicação, respeito. Mas ela é muito mais do que isso”, disse a empregadora. A venezuelana pretende levar essas características para um patamar mais elevado. Quer fazer a revalidação do diploma de Medicina e aguarda o envio de alguns documentos da Venezuela. Mas sempre com a mesma filosofia: “se você faz as coisas com amor, terá satisfação”, concluiu.