Refugiada venezuelana descobre talento para arte após chegar ao Brasil

Jackeline Lozada quer estudar artes em uma faculdade brasileira. Foto: UNFPA/Fabiane Guimarães

Em Boa Vista, Roraima, uma colorida pintura toma conta do muro do Centro de Convivência e Atendimento Psicossocial para refugiados e migrantes venezuelanos. Na obra, uma mulher indígena carrega as bandeiras da Venezuela e do Brasil e recebe os recém-chegados com uma mensagem de acolhimento e amizade.

A artista por trás do painel saiu das fileiras de pessoas beneficiárias do centro: Jackeline Lozada, de 25 anos, trabalhou no mural enquanto estava grávida. Ela deu à luz uma menina poucas semanas após receber a equipe de reportagem do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Jackeline deixou a cidade de Puerto Ordaz com seu companheiro em setembro de 2018. Na ocasião, estava grávida de pouco mais de quatro meses e enfrentou sangramentos e um quadro de infecção urinária. Com auxílio do UNFPA, foi encaminhada à rede pública de saúde local.

“Algumas pessoas disseram que eu ia perder o meu bebê se saísse da Venezuela, mas eu sabia que não. No começo, depois que cheguei, eu quis voltar para o meu país, eu e meu esposo temos uma boa casa lá, mas infelizmente agora temos que pensar muito. Lá, não tenho as coisas de que preciso para o meu bebê”, afirma.

O pai de Jackeline e parte de sua família já estavam estabelecidos no Brasil há algum tempo no momento da chegada de Jackeline. O casal precisou procurar auxílio da Operação Acolhida, coordenada pelas Forças Armadas brasileiras, que lideram o trabalho com refugiados e migrantes em Roraima.

Imagem: UNFPA

Cinco meses após a chegada a Boa Vista, o casal conseguiu uma vaga em um dos 11 abrigos da capital roraimense. “Pela primeira vez desde que havia chegado ao Brasil, pude dormir tranquila”, conta a artista.

Veia artística

Jackeline deu à luz uma menina. Foto: UNFPA/ Fabiane Guimarães

Na Venezuela, Jackeline costumava desenhar com grafite e produzia pequenos retratos, apenas por prazer. “Nunca estudei, foi algo que nasceu comigo”, lembra a venezuelana. Dentro do abrigo, após a doação de materiais, começou a fazer alguns quadros, sempre reproduções. As obras chamaram a atenção, tanto de voluntários e coordenadores do Fundo de População das Nações Unidas, quanto dos locais. “Me perguntaram quanto eu cobrava, mas eu não sabia. Nunca tinha vendido nada”, conta a venezuelana rindo.

Sempre com o sorriso aberto e simpático, Jackeline confessa que sentiu a responsabilidade pesar quando lhe encomendaram a pintura do muro do Centro de Convivência. “Eu nunca havia feito algo tão grande e assim, saído da minha imaginação. Sempre fiz reproduções”, explica.

O resultado do trabalho é seu maior orgulho, o símbolo de sua resiliência e criatividade, duas forças que ela nem sabia que tinha. “Agora, quero fazer uma faculdade de artes. Seria um sonho realizado”, diz a venezuelana.

O Centro de Atendimento Psicossocial

O Centro de Convivência e Atendimento Psicossocial, onde está o muro pintado por Jackeline, é um projeto mantido pelo Fundo de População das Nações Unidas e pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), com recursos da União Europeia e em parceria com o Exército da Salvação.

O espaço é uma estratégia global do UNFPA para a resposta à violência de gênero em situações de emergência. O estabelecimento também fortalece a rede local de proteção das sobreviventes de violência e de refugiados e migrantes vítimas de outras violações. Até o momento, o projeto – que tinha uma meta de 5 mil atendimentos – já dobrou essa quantidade, com 13 mil pessoas assistidas.