Refugiada transexual encontra segurança na Argentina

Alina nasceu e cresceu em uma família tradicional. Assim que foi aprovada uma lei no seu país que pune a “divulgação da homossexualidade”, ela decidiu procurar proteção na Argentina, onde recorreu à Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Ponte das Mulheres, em Buenos Aires. Foto: Geoff Livingston/Wikimedia Commons (CC)

Ponte das Mulheres, em Buenos Aires. Foto: Geoff Livingston/Wikimedia Commons (CC)

Alina nasceu e cresceu em uma família tradicional. Como filha única, seus pais deram a ela a melhor educação e qualidade de vida. Mas quando começou a frequentar a vida escolar e social, percebeu que não poderia ser quem sentia. Na escola, os colegas a julgavam e a discriminavam por ser diferente. Transgênero não era um termo aceito socialmente.

Sua família, por outro lado, sempre a apoiou, dando liberdade para que ela tomasse suas próprias decisões. “Quando expliquei para minha mãe que queria operar, foi um choque, e ela custou muito a entender e aceitar. Mas me acompanhou em uma das decisões mais importantes da minha vida”, lembrou.

Com grande capacidade de adaptação e força, além do apoio incondicional da sua família e amigos, Alina decidiu entrar na faculdade de Medicina, onde conheceu colegas que a entenderam e a acompanharam na época mais difícil de sua vida.

Mas o ingresso na faculdade não foi fácil. Ela teve que enfrentar uma série de obstáculos burocráticos, uma vez que era necessário passar por uma comissão médica. O psiquiatra da universidade não queria autorizar sua matrícula, e ela teve de entrar com uma ação judicial. Após muitos meses, a aceitaram.

Em junho de 2013, o parlamento de seu país aprovou uma lei federal que proibia “a divulgação” da homossexualidade e condenava a difusão de qualquer informação positiva sobre homossexualidade com multas e penas de prisão.

A discriminação, baseada na orientação sexual e identidade de gênero, teve como consequência protestos de grupos LGBTI e ativistas de direitos humanos, que manifestaram sua preocupação frente ao crescente aumento de atos de violência contra LGBTI. Nesse contexto, Alina teve medo.

Dois meses depois, aos 25 anos, decidiu sair do país e foi sozinha à Argentina. Na manhã seguinte à sua chegada, ela se dirigiu ao escritório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), que explicou a ela o procedimento para pedido de refúgio e a encaminhou ao Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE).

“Ela é muito perseverante, disciplinada, persistente e sabe o que quer”, disse Valeria Allo, oficial de elegibilidade do CONARE.

Durante as entrevistas iniciais, Alina comunicou-se por meio de um tradutor online e, em poucos meses, aprendeu castelhano, foi reconhecida como refugiada e obteve seu documento de identidade.

Ela agora se sente uma pessoa completa, cheia de projetos e com um lugar na sociedade. Sente que sua contribuição profissional é reconhecida no hospital onde trabalha como médica sanitarista.

Alina divide seu tempo livre com amigos, gosta de jogar tênis e de sair para dançar. Sente falta de sua família e amigos próximos, mas diz estar mais segura na Argentina e que, se tivesse ficado em seu país natal, não poderia ser quem é hoje.

Em 2012, a Argentina promulgou uma lei sobre identidade de gênero que promove o livre desenvolvimento da pessoa, com reconhecimento legal no que se refere a nome de batismo, imagem e gênero. Há ainda cobertura de seguro médico para intervenção cirúrgica completa ou parcial, assim como o tratamento hormonal.

“Não sofri tanto, pois estava muito feliz por me sentir livre do passado e isso me dava energia para seguir em frente”, explicou. Sua solidariedade e vocação também a levou a colaborar com outros refugiados que precisam de orientação, informação ou tradução no momento das entrevistas. Dessa maneira, ela sente que pode retribuir o recebimento positivo que teve.

Na Argentina, Alina sentiu que as portas estavam abertas, embora reconheça que “ainda há muita coisa a ser melhorada em questões de discriminação dentro da sociedade”.